Crise hídrica prejudica o agronegócio mineiro

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Foto: Divulgação

Segundo os pesquisadores da Embrapa, com as altas temperaturas e a falta de chuvas, a produção foi afetada.

A escassez hídrica, resultado da maior estiagem dos últimos 90 anos, tem gerado prejuízos na produção agrícola e pecuária de Minas Gerais e várias regiões do Brasil. Além das perdas em produtividade, principalmente, na segunda safra de grãos de 2021, produtores lidam com a redução da captação de água para irrigação e aumento dos custos, com destaque para a energia elétrica.

A falta de água atual resulta das mudanças climáticas e do aquecimento global, e medidas para desacelerar os processos são consideradas fundamentais. No campo, a preocupação com uma produção mais sustentável e o uso eficiente e consciente dos recursos são práticas essenciais e cada vez mais adotadas.

Os pesquisadores da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária – unidade Milho e Sorgo (Embrapa Milho e Sorgo) Daniel Pereira Guimarães e Walter José Rodrigues Matrangolo explicam, em artigo divulgado pela Embrapa, que os impactos das ações humanas sobre o clima do planeta têm gerado diversos problemas e medidas urgentes para conter a aceleração do aquecimento global e as mudanças climáticas devem ser adotadas.

Entre os problemas registrados, eles destacam as estiagens de 2014/2015 e a situação crítica de disponibilidade hídrica enfrentada com as chuvas escassas e irregulares nos últimos três anos. “Neste ano, a situação tem sido mais dramática, pois estamos enfrentando a maior seca dos últimos 90 anos e instabilidades climáticas com eventos extremos”, traz o artigo.

Ainda segundo os pesquisadores da Embrapa, com as altas temperaturas e a falta de chuvas, a produção foi afetada. “As perdas de produtividade na segunda safra agrícola causaram prejuízos de bilhões de dólares em exportações, aumento nos preços e insegurança alimentar no mercado interno. A estiagem e as geadas nas regiões cafeeiras de Minas Gerais e São Paulo afetaram também a produtividade das lavouras de citros e pastagens e causaram alta mortalidade de árvores em matas ciliares, facilitando a propagação de incêndios em plantas de baixa resistência às queimadas, resultando em perdas de biodiversidade e proteção dos recursos hídricos”.

Eles apontam ainda que a chegada das primeiras frentes de chuva e o choque de massas de alta e baixa pressão têm acarretado fortes chuvas de granizo e maiores danos na lavoura cafeeira, quarta maior atividade agrícola do País em termos econômicos. “Temos ainda os impactos nos canaviais, reduzindo a produção nacional de açúcar, álcool e geração de energia térmica a partir do bagaço de cana”.

Guimarães e Matrangolo ressaltam que é necessária a educação ambiental e comprometimento socioambiental para conter o avanço dos problemas climáticos. “Os investimentos na produção de energia limpa (biocombustíveis, energia solar e eólica), carros elétricos e motores mais eficientes no consumo de energia indicam as tendências futuras. A prática da agricultura baseada em bioinsumos, proteção do solo, eliminação das queimadas e proteção da cobertura florestal é a grande contribuição do setor rural”.

Perdas generalizadas

A coordenadora da assistência técnica da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de Minas Gerais (Faemg), Aline Veloso, explica que, ao longo da safra 2020/21 de grãos e da safra 2021 de café, a crise hídrica gerou perdas significativas em todas as regiões produtoras do Estado.

“Nos grãos começamos a sentir os impactos já em 2020, com atraso no plantio, e tivemos perdas consideráveis. Tivemos perdas no café, problemas no desenvolvimento da cana-de-açúcar e também nas pastagens. Até o momento, também enfrentamos restrições de uso da água nas áreas irrigadas”.

De acordo com a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), as adversidades climáticas impactaram a produção de grãos no Estado. A cultura mais afetada foi o milho segundo safra. A produção do cereal na segunda safra foi estimada em 1 milhão de toneladas, retração expressiva de 63,9%. A cultura, que já vinha sofrendo com a falta de chuvas, enfrentou ainda severas geadas, que acabaram comprometendo ainda mais o rendimento.

Outro produto que sofreu grandes perdas foi o café. Em 2021, o Estado irá colher o menor volume de café dos últimos dez anos. A estimativa é de uma produção total em torno de 21,4 milhões de sacas de 60 quilos, representando uma queda de 38,1% frente à safra passada.

Irrigação limitada

Além das perdas produtivas, os agricultores de Minas Gerais também sofrem com restrições no uso da água para a irrigação e com os custos elevados da energia elétrica. Em função da crise, foi criada, pelo governo, a bandeira tarifária de escassez hídrica, que aumentou o valor da conta de energia. “A crise e os baixos volumes das barragens – o menor dos últimos 91 anos – provocaram uma escalada de custo da energia elétrica para diversos setores e, em especial, para a agropecuária e os produtores irrigantes. Na irrigação, a energia é fundamental”, disse Aline.

Aline ainda explica que o uso da irrigação no campo é feito com boas práticas, com o uso de tecnologias que evitam desperdícios e de forma consciente. “É importante ressaltar que a maior parte da nossa produção é realizada com a água da chuva. O sistema de irrigação é extremamente importante para que o produtor consiga ter maior controle das atividades. Hoje, com as tecnologias disponíveis, o uso da água para a irrigação é muito viável e o recurso vem sendo usado com controle, eficiência e capacitação. O Sistema Faemg oferece muitas capacitações que abordam as boas práticas, uso consciente e adoção de tecnologias”, destacou.

Regiões enfrentam restrições

A coordenadora da Assessoria de Meio Ambiente da Faemg, Ana Paula Mello, explica que, no último período chuvoso, de outubro 2020 a março 2021, foram registradas precipitações abaixo da média e, com isso, a água guardada no subsolo que alimenta os rios de forma devagar também sofreu reduções. Há locais no Estado em que o Instituto Mineiro de Gestão das Águas (Igam) já declarou, por meio de portarias, situações críticas de escassez hídrica, com validades determinadas.

“Há restrições, por exemplo, na bacia hidrográfica do rio Doce, sendo uma a montante da estação de São Pedro do Suaçuí e outra no Suaçuí Grande. Uma na bacia do Rio Grande, em trecho do rio Uberaba, e duas na bacia do rio São Francisco, sendo uma no rio Escuro, no Noroeste de Minas, e outra em trecho do rio das Velhas, a jusante de Honório Bicalho. Em todos esses casos, todos os usos de água devem ser reduzidos”.

Conforme as portarias, é obrigatória a redução de 25% do volume diário outorgado para a finalidade de irrigação e de 30% do volume diário outorgado para as captações de água para a finalidade de consumo industrial e agroindustrial. A restrição no uso da água impacta, no Noroeste, a produção de grãos. Mas também são sentidos impactos nas demais regiões na produção de frutas e hortaliças.

Ana Paula explica que os produtores e entidades representativas acompanham os níveis de água e, conforme as análises, decidem o volume de produção, evitando perdas quando há restrição no uso do recurso natural. “Em locais onde a organização dos produtores é maior, eles monitoram e gerenciam não só o uso da água, mas também a vazão dos rios, para que desde o planejamento plantem de acordo para não ocorrer plantio e perdas de todo o montante investido. No Noroeste de Minas, por exemplo, e na região de Monte Carmelo, onde esse nível de organização acontece, a produção final pode reduzir, mas as perdas são muito minimizadas”, explicou.

Fonte: Diário do Comércio

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