Desafio e resiliência na soja geram sustentabilidade

Desafio e resiliência na soja geram sustentabilidade

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Foto: Clenio Araujo

Desafios na produção de soja no Tocantins criam um ambiente propício para que a sustentabilidade seja pensada e executada.

Equilíbrio é regra para a vida; tudo parece funcionar mais azeitado quando ele se faz presente. Bastou o manejo equilibrar as condições do solo, de matéria orgânica e de água, que o sistema respondeu: produção estável de até 50% a mais de soja por hectare, forragem boa e farta para o gado o ano todo e sustentabilidade ambiental. A melhoria da qualidade dos atributos físicos químicos e biológicos do solo, o aperfeiçoamento da gestão da água na propriedade e até a questão da qualidade do ar, com melhor controle da emissão dos gases de efeito estufa, redundou ainda no uso mais eficiente e, portanto, mais econômico de fertilizantes.

O cenário é a região do cerrado de baixa altitude, em Gurupi, TO. Suas desafiadoras condições para a agricultura foram motivação para, em 2012, um experimento iniciado pelo então mestrando Carlos Andrade em sua dissertação para a Universidade Federal do Tocantins (UFT). O trabalho acabou recebendo a participação da Embrapa Pesca e Aquicultura. A ideia era avaliar os consórcios de soja com forrageiras a fim de atender à grande demanda dos produtores da região por opções de culturas para a cobertura do solo.

Então, alinhando interesses, o experimento incorporou mais três frentes: a recuperação de áreas de pastagem degradadas utilizando soja e forrageira; a viabilização do Sistema Plantio Direto (SPD) e a estruturação da Integração Lavoura-Pecuária.

De acordo com Leandro Bortolon, pesquisador da Embrapa Pesca e Aquicultura, o objetivo de consorciar forrageiras com a soja foi de ganhar tempo no estabelecimento da forrageira. “Ao invés de esperar colher a soja e, posteriormente, plantar o capim, optamos pela sobressemeadura da forrageira quando a soja está no estágio R5, o que permite que o capim se estabeleça mais rapidamente e tenha uma condição de palhada maior mais adiante. Então, quando colhemos a soja, o capim já está implantado e conseguimos também antecipar entrada de animais. E se for para formação de palhada, conseguimos um acúmulo de biomassa maior durante a entressafra no período seco. A reboque, a estratégia atende à necessidade de aumentar os estoques de carbono e reduzir as emissões de gases efeito estufa”, explica.

Ainda segundo ele, outro ponto-chave abordado foi a questão da resiliência às condições de má distribuição de chuva da região. O aporte de matéria orgânica e da própria palha tem a função de reter essa água. Para tal, uma das premissas do trabalho foi montar um sistema capaz de suportar o grande volume de água concentrado em chuvas de forte intensidade, amortecendo o impacto das gotas, permitindo a infiltração da água e sua retenção por mais tempo no solo. As gramíneas auxiliam com a capacidade de agregação desse solo e favorecem o desenvolvimento radicular. O solo mais bem estruturado vem propiciando um maior armazenamento de água.

Baixa altitude e temperaturas elevadas

No cerrado de baixa altitude as temperaturas são constantemente elevadas, seja de dia ou de noite, o que faz com que a degradação da palha seja muito acelerada. De textura média, com teor de argila variando entre 22 e 27%, o latossolo vermelho e amarelo da região até que recebem uma boa quantidade de chuvas — em torno de 1.300 milímetros anuais – porém, muito concentradas entre o final de outubro e o mês de abril; sendo ainda bem comum a ocorrência de veranicos, o que acaba tornando difícil a implantação do sistema de alto aporte de biomassa e do próprio SPD.

As elevadas temperaturas noturnas também impõem limitação ao próprio crescimento das plantas. O milho, por exemplo, acaba sendo prejudicado em temperaturas noturnas em torno dos 26°C, fazendo com que a cultura não acumule açúcar e, portanto, energia, o que acaba então penalizando sua produtividade.

Uso de forragens potencializou a produção

Com sete anos de pesquisas, algumas conclusões estão consolidadas, uma das principais é que o uso de forrageiras tropicais principalmente do gênero Panicum maximum, como as cultivares Mombaça e o Massai, tem apresentado um potencial de aumento de produtividade maior que as tradicionalmente utilizadas, como a braquiária ruziziensis, a braquiária brizantha e o milheto. O aumento da eficiência do uso de fertilizantes ou de nutrientes é um desses efeitos.

“Quando adiciono o panicum ao sistema, a absorção de nutrientes melhora; seja pelos impactos na melhoria da estrutura do solo atuando positivamente na relação dos nutrientes, na quantidade de água, no menor estresse para a planta, seja pela própria ciclagem de nutrientes que a forrageira faz durante seu ciclo. Pegando como exemplo, a safra de 2015/2016, historicamente ruim, o consórcio soja x Mombaça deu uma diferença em torno de 20 sacas de soja a mais, se comparada ao consórcio soja x milheto, tradicionalmente usado no cerrado. Além do mais, o consórcio nos permite dois ou três ciclos de pastejo, assegurando ainda uma maior oferta de forragem de qualidade para os animais na época crítica do período seco”, destaca Bortolon.

Acompanhando de perto os resultados dos experimentos, Orlando Martins, da Sementes Mineirão, diz que o trabalho mostra a importância das plantas de cobertura para manter os solos tropicais com alta produtividade. “Nesse caso, como as plantas de cobertura foram plantada sem sobressemeadura na cultura da soja, os panicuns, com sementes menores levaram vantagem por terem mais quantidade de sementes por grama em relação às braquiárias e o milheto. Quanto menor for a semente, mais facilidade terá para nascer na superfície do solo sem incorporação. É o caso desse trabalho. Os sete anos de pesquisa contínua tem gerado resultados muito consistentes e confiáveis”, afirma Martins.

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Fonte: O Autor

Na tabela abaixo, dados da Embrapa mostram as recomendações da quantidade de sementes para a semeadura. Segundo Martins, o número revela a diferença nas quantidades dos Panicuns em relação às Braquiárias. “Quanto menor for o tamanho da semente, mais facilidade terá para nascer na superfície do solo, sem incorporação”, diz.

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Fonte: O Autor

Potencial produtivo ideal da soja

Outro ponto destacado pelo pesquisador da Embrapa é que o ciclo da soja deve ser de até 120 dias para ter um potencial produtivo adequado, e sempre utilizada em plantio direto, a fim de que dê tempo de a forragem se estabelecer. Nesse modelo, o SPD já está viabilizado. Para isso, a qualidade, a quantidade e a frequência do incremento de matéria orgânica é determinante. “Preconizamos que a planta forrageira fique o maior tempo possível vegetando no sistema durante o período seco, sem que se faça dessecação. Assim teremos um potencial de acúmulo de biomassa, que mais tarde servirá para o gado ou para a própria formação de palha para plantio direto”.

Parcerias entre Embrapa e Universidades

O experimento vem sendo conduzido na área na fazenda experimental da Universidade Federal do Tocantins, no Campus de Gurupi. O trabalho envolve Embrapa, UFT e conta com as parcerias da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e também com a Universidade Federal do Paraná (UFPR), que já desenvolveram algumas pesquisas específicas na área. Além do sistema de produção propriamente dito, os trabalhos avaliam ainda seus efeitos no solo, na água e no ar, com vistas a adotar tipos de sistemas dinâmicos e de alto aporte mais sustentáveis em seu aspecto mais amplo.

Foram implantadas também lavouras em algumas áreas de produtores onde contam com o acompanhamento da Embrapa. Os resultados observados têm sido os mesmos dos experimentos na UFT. Segundo Bortolon, existe ainda a possibilidade de adoção desse sistema em outras regiões do país, como no estado de Goiás, onde a técnica da sobressemeadura é bem sucedida e permite ganhar tempo para a entrada dos animais.

Para Orlando Martins, existe ainda uma correlação direta entre a quantidade de matéria seca produzida da forrageira de cobertura e a produtividade da soja. “Esse sistema pode ser usado em todas as regiões do Brasil onde se faz apenas uma safra de soja e a colheita ocorre no final das chuvas. Podendo então antecipar o plantio e fazer sobressemeadura de panicuns sobre a soja verde 25 dias antes da colheita da soja”, celebra.

Alto aporte de biomassa

O maior empecilho climático na região são, de fato, as elevadas temperaturas noturnas. Por acelerarem a degradação da biomassa, além comprometer a presença da matéria orgânica, tornam o balanço de carbono negativo com muita facilidade. Então, para preservar a sustentabilidade do sistema, é necessário intensificar o aporte de biomassa. Em outras palavras, buscar o equilíbrio. O que é alcançado com um acúmulo anual superior a 15 toneladas de matéria seca; uma conta que deve levar em consideração a quantidade massa aportadas pela soja, pelo milho e pelas forragens.

Para que o sistema intensivo colha os efeitos oferecidos, o modelo precisa – e tem conseguido – aportar de 4 a 4,5 toneladas por hectare/ano de matéria seca com a soja, de 7 a 8 toneladas com o milho safrinha e 14 toneladas com as forrageiras. Um nível de aporte que os pesquisadores consideram que seria o mínimo para estabelecer um sistema em que o balanço de carbono seja positivo. Em situações de balanço negativo há emissão de CO² para a atmosfera, afastando a possibilidade da de um sistema intensivo de produção sustentável, capaz de dar retorno para o produtor e que contribua com a qualidade ambiental.

“Conseguimos sair do pasto degradado, conseguimos melhorar a qualidade do solo, a qualidade e a quantidade de água e a qualidade do ar. Estamos conseguindo entregar para a sociedade um produto que é obtido de forma sustentável em um ambiente bastante desafiador”, ressalta Bortolon.

Via Federação Brasileira de Plantio Direto e Irrigação

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