Dezenas de espécies de abelhas são descobertas na soja e resultado na produtividade surpreende

Pesquisa realizada em uma das principais regiões produtoras de grãos do país revelou uma biodiversidade até então pouco conhecida dentro das lavouras — e mostrou que essas pequenas visitantes podem ter um papel muito maior na soja do que se imaginava.

Em meio a milhares de hectares de soja no sudoeste de Goiás, pesquisadores encontraram algo que normalmente passa despercebido aos olhos de quem observa uma lavoura da estrada. Entre folhas, flores e linhas de plantio, dezenas de espécies de abelhas nativas estão utilizando as áreas agrícolas, formando uma comunidade muito mais diversa do que a ciência havia documentado até agora.

Um estudo liderado pela Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia, realizado nas regiões de Rio Verde e Montividiu, identificou 40 espécies de abelhas dentro das plantações de soja, das quais 27 representam novos registros associados à cultura no Brasil. Quando também foram consideradas as áreas de vegetação nativa próximas às lavouras, o levantamento chegou a 53 espécies, distribuídas em cinco famílias.

O dado mais surpreendente aparece quando os pesquisadores analisam quem eram esses visitantes. Das 764 abelhas coletadas durante as amostragens, 89% eram abelhas nativas do Brasil. A conhecida Apis mellifera — espécie exótica, africanizada e amplamente utilizada na produção comercial de mel — respondeu por apenas 11% dos indivíduos coletados.

A descoberta ajuda a mudar uma percepção ainda comum no campo: embora a soja seja predominantemente autógama, sua lavoura não é um ambiente biologicamente isolado. Existe uma comunidade de polinizadores circulando entre o Cerrado e as áreas produtivas — e essa movimentação pode ter reflexos econômicos.

Uma biodiversidade que estava praticamente escondida

Até revisões científicas anteriores, acumuladas até 2018, havia registros de apenas 12 espécies de abelhas nativas associadas à soja no Brasil. O levantamento realizado no sudoeste goiano amplia consideravelmente esse universo.

Nas áreas cultivadas foram documentadas 40 espécies, incluindo os 27 registros inéditos. Somando as lavouras e as matas vizinhas, os pesquisadores chegaram às 53 espécies.

Parte dessa biodiversidade pode ter permanecido desconhecida simplesmente porque muitas dessas abelhas são pequenas, discretas e muito diferentes da imagem tradicional que o produtor associa a uma colmeia.

O próprio método de pesquisa mostrou isso. Os chamados pan traps — pequenos recipientes coloridos utilizados como armadilhas para amostragem de insetos — responderam por 95% das capturas do estudo, com 728 indivíduos e 33 espécies identificadas. As redes entomológicas utilizadas pelos pesquisadores encontraram somente sete espécies.

Em outras palavras, elas provavelmente já estavam presentes nas propriedades. O avanço das técnicas de monitoramento é que está permitindo enxergar melhor uma biodiversidade que circula quase silenciosamente pelas lavouras.

Algumas delas vivem literalmente dentro da lavoura

Outro ponto particularmente importante para o produtor está no local escolhido pelas abelhas para construir seus ninhos.

Cerca de 60% das espécies identificadas no sudoeste de Goiás fazem seus ninhos diretamente no solo. Além disso, aproximadamente 44,7% das espécies coletadas apresentam hábitos solitários, diferentemente das grandes colônias normalmente associadas à apicultura.

Isso muda a maneira de interpretar a relação entre agricultura e polinizadores.

Em determinados casos, não se trata simplesmente de uma abelha que sai de uma colmeia distante, visita algumas flores e vai embora. Parte desses insetos pode completar seu ciclo de vida no próprio ambiente agrícola ou em áreas imediatamente próximas.

Práticas que reduzem o revolvimento do solo e mantêm cobertura vegetal, portanto, podem oferecer condições mais favoráveis à permanência dessas populações. Da mesma forma, o manejo fitossanitário passa a ter importância não apenas sobre os organismos-alvo da aplicação, mas sobre toda uma comunidade de insetos benéficos presente na propriedade.

O Cerrado funciona como uma espécie de reservatório de polinizadores

A pesquisa encontrou ainda uma conexão direta entre a lavoura e a vegetação nativa.

Quanto maior a distância em relação aos fragmentos preservados de Cerrado, menores foram a riqueza e a abundância de abelhas nativas encontradas nas flores da soja.

A explicação está no ciclo de vida desses insetos.

A soja oferece recursos principalmente durante seu período de florescimento. Já a vegetação nativa pode fornecer alimento, abrigo e locais para reprodução durante outros períodos do ano.

Há ainda espécies que dependem diretamente de estruturas encontradas na mata. Segundo o levantamento, aproximadamente 18% das espécies identificadas fazem seus ninhos em cavidades existentes em troncos e árvores caídas.

Assim, Reserva Legal, Áreas de Preservação Permanente e outros remanescentes vegetais deixam de representar apenas áreas separadas da produção. Ecologicamente, podem funcionar como estruturas que abastecem a própria área agrícola com organismos capazes de prestar serviços ambientais.

Para uma região como o sudoeste goiano — uma das mais importantes fronteiras consolidadas da produção brasileira de grãos — essa constatação tem peso particular.

E o produtor de soja pode ganhar com isso

Existe uma razão econômica para prestar atenção nessas pequenas visitantes.

Embora a soja seja capaz de realizar autopolinização, pesquisas vêm demonstrando que a visitação de abelhas pode proporcionar polinização suplementar, favorecendo componentes produtivos da cultura.

No estudo realizado em Goiás, a presença de abelhas silvestres esteve associada a um aumento médio de aproximadamente 7% no peso dos grãos.

Outros trabalhos conduzidos pela Embrapa já encontraram respostas ainda maiores em determinadas condições experimentais. Segundo a Embrapa Soja, estudos com polinização suplementar registraram aumento médio de produtividade próximo de 13%, podendo chegar a aproximadamente 18%, principalmente pela formação de mais grãos por vagem e pelo aumento do peso dos grãos.

Esses percentuais não devem ser interpretados como uma promessa automática de ganho para qualquer propriedade. Cultivar, clima, população de polinizadores, disponibilidade de flores, paisagem e manejo interferem diretamente no resultado.

Mas os números mostram algo relevante: mesmo uma cultura considerada predominantemente autógama pode responder economicamente à presença de polinizadores.

E isso transforma biodiversidade em uma variável potencialmente produtiva.

Bioinsumos entram nessa equação

Outro resultado chama atenção justamente no momento em que o Brasil amplia a utilização de produtos biológicos na agricultura.

Nas propriedades analisadas, sistemas que integravam bioinsumos e práticas de menor impacto apresentaram comunidades de abelhas mais equilibradas. Já áreas submetidas a manejo químico mais intensivo apresentaram redução da chamada equitabilidade — indicador que mostra o equilíbrio da distribuição dos indivíduos entre diferentes espécies.

Esse detalhe é importante porque simplesmente contar quantas abelhas existem pode não mostrar a condição real do ambiente.

Uma propriedade pode apresentar muitos indivíduos, mas concentrados em poucas espécies tolerantes às condições existentes. Outra pode ter população semelhante, porém distribuída entre dezenas de espécies com funções ecológicas diferentes.

Quantidade de insetos, portanto, não significa necessariamente diversidade.

A discussão não elimina a necessidade do controle fitossanitário da soja. Pragas e doenças continuam exigindo manejo eficiente para preservar o potencial produtivo. O desafio passa a ser outro: aumentar a precisão das intervenções, respeitar recomendações técnicas, evitar aplicações inadequadas e integrar ferramentas químicas, biológicas e culturais sempre que tecnicamente possível.

A florada da soja é uma janela particularmente sensível

A interação entre defensivos e polinizadores ganha importância adicional durante o florescimento.

Dados da Embrapa indicam que as abelhas visitam as flores da soja com maior intensidade entre aproximadamente 8h e 14h. É justamente nesse intervalo que ocorre intensa atividade de coleta de néctar e transferência de pólen.

Por isso, planejamento das aplicações, escolha dos produtos, respeito às condições meteorológicas, tecnologia de aplicação e comunicação entre agricultores e apicultores próximos tornam-se componentes importantes do manejo.

A própria Embrapa vem desenvolvendo orientações para permitir a convivência entre sojicultura, apicultura e populações de abelhas silvestres, principalmente diante da dimensão territorial ocupada pela oleaginosa no Brasil.

Não se trata de escolher entre produzir soja ou conservar polinizadores. A evidência acumulada aponta justamente para a possibilidade de integração entre os dois.

Uma nova forma de enxergar a fazenda

Talvez a principal contribuição da pesquisa realizada em Goiás esteja justamente em mostrar que uma propriedade agrícola é muito mais biologicamente complexa do que aparenta.

Debaixo da palhada podem existir ninhos. Nas flores aparentemente discretas da soja, pequenas abelhas buscam alimento. Nas áreas de Cerrado próximas, outras espécies encontram abrigo durante os meses em que não existe soja florescendo.

E todos esses ambientes estão conectados.

O estudo integra o projeto Regenera Cerrado e contou com participação da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia, Universidade de Brasília (UnB), Universidade Federal da Bahia (UFBA) e Instituto Federal Goiano – Campus Rio Verde, além da parceria entre instituições de pesquisa, produtores e iniciativa privada.

Para o produtor, a mensagem prática vai além da conservação ambiental. Vegetação nativa, solo protegido, manejo fitossanitário responsável e uso estratégico de ferramentas biológicas podem fazer parte de uma mesma lógica produtiva.

As abelhas encontradas no meio da soja ajudam a materializar essa relação.

Elas são pequenas o suficiente para passar despercebidas durante praticamente toda a safra. Mas os novos dados sugerem que aquilo que acontece entre uma flor e outra pode ter importância muito maior para a lavoura — e para a agricultura brasileira — do que se imaginava.

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