“Doping perfeito” no Nelore? Veterinário denuncia uso oculto de hormônio

Fernando Tannus afirma que matrizes recebem estímulo hormonal para produzir mais leite e desmamar bezerros mais pesados, ocultando uma intervenção que pode comprometer avaliações genéticas e decisões de compra

Uma denúncia do médico-veterinário Fernando Cavalcanti Calixto Dias Tannus, da Simplesgen Reprodução Animal, coloca em discussão a transparência de dados utilizados no melhoramento genético da raça Nelore. Segundo ele, fazendas estariam aplicando hormônio em matrizes para aumentar a produção de leite e elevar o peso dos bezerros à desmama, sem informar essa intervenção aos programas de avaliação.

O profissional chama a prática de “doping perfeito”. Na analogia com os esportes, a vantagem seria obtida por uma intervenção pouco visível: o produto seria aplicado na vaca, enquanto o desempenho registrado seria o do bezerro.

“Realmente o bezerro está sendo criado na mãe, realmente o bezerro está sendo criado a pasto”, afirma. “Aonde está o doping? Na mãe.”

Fernando Cavalcanti Calixto Dias Tannus
Foto: Arquivo pessoal

No cenário descrito por Tannus, os animais permaneceriam sem creep-feeding, sistema de suplementação exclusivo para bezerros. Entretanto, receberiam mais leite porque suas mães estariam sob estímulo hormonal. A informação de criação a pasto, embora verdadeira, esconderia uma condição relevante do manejo.

Hormônio na matriz, resultado na balança

A substância citada é a BST, ou somatotropina bovina, hormônio produzido naturalmente pelos bovinos. Sua versão recombinante, conhecida como rBST, é utilizada para aumentar a produção de leite em vacas leiteiras, conforme explica a União Química em material técnico sobre o produto.

Tannus afirma que tomou conhecimento da compra de grandes volumes do hormônio por uma propriedade que participa de avaliações genéticas. Segundo seu relato, a informação chegou por meio de um ex-estagiário que trabalha em uma empresa que atende a fazenda.

“Tem fazenda que está comprando carga fechada de BST para fazer nas suas vacas de campo, porque as suas vacas não estão dando conta de criar bem os bezerros”, denuncia.

A propriedade não foi identificada. O material fornecido para esta reportagem também não inclui notas fiscais, registros de aplicação ou documentos que permitam comprovar o episódio de forma independente.

O risco de atribuir ao mérito genético uma vantagem de manejo

O centro da denúncia é a possibilidade de um desempenho favorecido pelo tratamento das matrizes ser apresentado como resultado da capacidade genética dos animais.

Na avaliação de Tannus, o aumento do leite poderia elevar o peso à desmama e influenciar informações usadas para avaliar bezerros, matrizes e reprodutores. A consequência seria uma seleção baseada em resultados que não representam adequadamente o desempenho sem aquela intervenção.

“É uma cascata de dados adulterados, propositalmente, que são enviados para os programas de avaliação”, afirma o veterinário.

Essa é uma acusação do profissional, ainda sem comprovação documental no material apresentado. Um bezerro mais pesado, isoladamente, não demonstra superioridade genética nem comprova alteração de uma DEP. A própria ABCZ ressalta que o desempenho observado sofre influência do ambiente e que as avaliações procuram estimar o potencial de transmissão das características aos descendentes.

O risco apontado, portanto, está na omissão de uma diferença de manejo capaz de afetar as comparações. A dimensão de eventual distorção dependeria dos animais tratados, dos registros enviados e de como essas informações fossem consideradas na avaliação.

Comprador pode descobrir o problema dentro da própria fazenda

Segundo Tannus, as consequências já estariam aparecendo entre compradores de fêmeas da propriedade mencionada. Ele relata que matrizes adquiridas não estariam produzindo leite suficiente para criar bem seus bezerros no novo rebanho “Tem muita gente que está comprando fêmeas dessa fazenda, que está tendo problema com as matrizes que está levando para casa”, afirma.

Se confirmada, a situação significaria que produtores estão tomando decisões de compra com base em um desempenho cuja condição de obtenção não foi esclarecida. O prejuízo poderia ultrapassar uma negociação e comprometer anos de seleção. “Você vai ter o resultado daquilo que você está selecionando”, alerta Tannus. “Você não está sabendo dessa informação que está oculta ali no processo.”

Transparência dos dados está no centro da denúncia

O veterinário menciona o Programa de Melhoramento Genético de Zebuínos (PMGZ) como exemplo de sistema ao qual seriam encaminhadas as pesagens. A referência não comprova envolvimento ou conhecimento da entidade sobre a prática denunciada.

A ABCZ informa que o programa compara o desempenho dos animais em grupos de contemporâneos e disponibiliza avaliações de matrizes, touros e animais jovens. Também alerta que dados coletados ou informados incorretamente podem gerar informações falsas e desorientar a seleção.

O ponto central da acusação é a suposta ocultação do tratamento hormonal para favorecer resultados usados na seleção e na comercialização de genética. Confirmar essa prática exige confrontar registros de compra e aplicação do produto com o manejo declarado e os dados encaminhados aos programas.

Ao chamar o mecanismo de “doping perfeito”, Tannus lança um alerta sobre a distância que pode existir entre o desempenho apresentado no papel e aquele que o comprador encontra no campo.

“Não adianta você querer forjar os dados”, afirma. “A conta chega, meu amigo.”

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