Planos registrados no TSE apresentam propostas para crédito rural, seguro, dívidas, fertilizantes, logística, propriedade privada e abertura de mercados; confira as prioridades dos principais presidenciáveis para o campo
O agronegócio entrou definitivamente no centro da disputa pela Presidência da República em 2026. Responsável por parcela expressiva da economia, das exportações e da geração de renda no interior do país, o setor aparece com diferentes graus de prioridade nos programas apresentados ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
O Compre Rural analisou os planos de governo de seis candidatos: Luiz Inácio Lula da Silva (PT), Flávio Bolsonaro (PL), Ronaldo Caiado (PSD), Romeu Zema (Novo), Augusto Cury (Avante) e Renan Santos (Missão). A comparação considera somente os documentos oficiais registrados na Justiça Eleitoral, sem incorporar declarações feitas em entrevistas, discursos ou redes sociais.
Embora todos reconheçam a importância econômica do campo, os caminhos propostos são distintos. Lula aposta na ampliação das políticas públicas, do Plano Safra e dos programas voltados à agricultura familiar. Flávio Bolsonaro concentra-se em seguro, reorganização das dívidas, regularização fundiária e segurança jurídica. Caiado apresenta uma arquitetura mais detalhada de financiamento e gestão de riscos. Zema defende redução da intervenção estatal e maior participação privada. Augusto Cury propõe uma “Agricultura 4.0”, enquanto Renan Santos estrutura sua agenda em torno da propriedade privada, dos fertilizantes e da industrialização da produção.

Lula promete ampliar o Plano Safra e fortalecer o seguro rural
O programa de Lula dedica um capítulo específico à segurança alimentar e à produção agrícola. A proposta combina políticas voltadas ao agronegócio empresarial, agricultura familiar, reforma agrária, sustentabilidade e combate à fome.
Para a agricultura familiar, o plano prevê expansão do Plano Safra específico, com juros considerados compatíveis com o perfil do produtor e prioridade para os alimentos da cesta básica. Também propõe linhas diferenciadas para agroecologia, produção orgânica, jovens, mulheres, cooperativas e associações, além da simplificação dos processos de contratação do crédito.
O documento promete ampliar o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), a assistência técnica e extensão rural, a mecanização das pequenas propriedades e o acesso ao seguro. Também cita o fortalecimento do Garantia-Safra diante da maior frequência de eventos climáticos extremos.
Para a agricultura empresarial, Lula propõe aumentar os recursos do Plano Safra e assegurar juros compatíveis com a rentabilidade da atividade. O crédito seria direcionado especialmente à aquisição de máquinas, irrigação e tecnologias capazes de elevar a produtividade. O programa também prevê maior participação do mercado de capitais e dos títulos do agronegócio no financiamento do setor.
Na gestão dos riscos, o plano promete fortalecer a política de seguro rural e discutir com o setor produtivo um instrumento para cobrir perdas sistêmicas provocadas por catástrofes e quebras severas de safra. Também menciona irrigação, agricultura de precisão, plantio direto, monitoramento meteorológico e sistemas de alerta.
Outros compromissos são a recuperação de pastagens degradadas, o estímulo à integração lavoura-pecuária-floresta, o melhoramento genético dos rebanhos, a abertura de mercados e o reforço da atuação dos adidos agrícolas. Na política fundiária, Lula defende novos assentamentos, estruturação dos existentes, crédito fundiário, regularização de produtores e titulação de territórios quilombolas e comunidades tradicionais.

Flávio Bolsonaro coloca dívidas e propriedade rural entre as prioridades
O plano de Flávio Bolsonaro trata diretamente de um dos temas que mais preocupam os produtores em 2026: o endividamento rural. O documento promete ampliar o seguro e criar ferramentas de securitização e reorganização das dívidas do setor.
A proposta, entretanto, não apresenta no capítulo do agro um programa detalhado de renegociação, público-alvo, fonte de recursos ou condições de juros e prazos. Ainda assim, é um dos poucos planos que menciona expressamente a necessidade de reorganizar os passivos rurais e oferecer ao produtor um horizonte superior a uma safra para o planejamento financeiro.
Flávio também propõe ampliar a capacidade de armazenagem, aumentar a produção brasileira de fertilizantes e buscar soluções diplomáticas para barreiras e sanções impostas pelos Estados Unidos, pela China e pela Europa aos produtos brasileiros. O plano cita o aproveitamento de reservas nacionais de potássio e fosfato como parte da estratégia para reduzir a dependência externa.
Na questão fundiária, a candidatura promete acelerar a titulação e a regularização de pequenos proprietários. A defesa do direito de propriedade aparece como um dos pontos centrais, acompanhada da promessa de regras estáveis, previsibilidade regulatória e maior segurança para investimentos no campo.
Outra frente é a infraestrutura. O programa prevê R$ 900 bilhões em quatro anos para rodovias, ferrovias, hidrovias, portos e aeroportos, com forte participação privada. Entre os projetos mencionados estão a Ferrogrão, a conclusão da Transnordestina e novos corredores de escoamento entre o Centro-Oeste e os portos.

Caiado apresenta Plano Safra de cinco anos e seguro contra catástrofes
Entre os seis documentos analisados, o programa de Ronaldo Caiado está entre os que apresentam maior detalhamento técnico para financiamento, seguro e logística rural. O plano identifica como gargalos o crédito instável, a baixa cobertura de seguro, a dependência de fertilizantes, a insegurança fundiária e o alto custo de transporte.
A principal proposta é transformar o Plano Safra em um instrumento plurianual, com horizonte de cinco anos. A intenção é dar previsibilidade ao financiamento das safras e aos investimentos de longo prazo, reduzindo a dependência dos anúncios e negociações realizados a cada ciclo agrícola.
Caiado também propõe a criação de um fundo garantidor para o crédito agrícola privado e o direcionamento prioritário dos recursos públicos para garantias, seguro, redução de riscos, irrigação e armazenagem. CRA, Fiagro, debêntures, securitização e Cédula de Produto Rural seriam fortalecidos como fontes complementares ao crédito oficial.
No seguro rural, o programa prevê um sistema permanente com participação pública e privada, resseguro para eventos climáticos extremos, seguros paramétricos baseados em índices e satélites, seguro de renda e regulamentação do Fundo de Catástrofe. O objetivo declarado é diminuir a exposição do programa aos contingenciamentos anuais do Orçamento da União.
A agenda inclui ainda recuperação de pastagens, integração lavoura-pecuária-floresta, melhoramento genético, bioinsumos, conectividade rural, agricultura digital, modernização de máquinas e um plano decenal para a logística do agronegócio.
Caiado também promete reforçar a Embrapa, ampliar irrigação e armazenagem e executar o Plano Nacional de Fertilizantes. Na área comercial, defende rastreabilidade, diplomacia agrícola e reação ao que classifica como protecionismo disfarçado de exigência ambiental.

Zema aposta em mercado, desburocratização e propriedade privada
Romeu Zema apresenta uma visão mais liberal para o campo. O plano parte do diagnóstico de que o agronegócio cresceu apesar das barreiras impostas pelo Estado e defende redução da burocracia, abertura comercial, participação privada e maior segurança jurídica.
Entre as propostas estão facilitar a importação e a produção nacional de fertilizantes e defensivos, atrair capital privado para pesquisa e desenvolvimento, levar banda larga e 5G ao campo e reorientar a Embrapa para projetos de inovação aplicada.
Zema propõe ampliar rodovias, ferrovias, hidrovias, portos e armazéns por meio de parcerias privadas. Também promete simplificar o licenciamento de atividades de menor impacto, com critérios técnicos e prazos definidos para a manifestação dos órgãos públicos.
Para proteger a renda rural, o programa prevê um fundo de seguro abastecido por recursos públicos e privados, com cobertura para perdas provocadas por eventos climáticos, pragas e oscilações de mercado. Barragens e projetos de irrigação também seriam realizados em parceria com empresas.
A defesa da propriedade rural ocupa posição de destaque. O documento propõe ampliar o porte de armas em toda a extensão da propriedade, combater invasões, agilizar a titulação de imóveis e impedir a imposição de novas restrições ambientais sem base técnica ou compensação econômica. Também defende o cumprimento do Código Florestal como referência para dar previsibilidade aos produtores.
Ao contrário de outros candidatos, o plano de Zema não detalha uma política de renegociação das dívidas rurais nem apresenta um desenho específico para o Plano Safra. Sua estratégia depende principalmente da redução dos juros da economia, da expansão dos seguros e de fontes privadas de investimento.

Augusto Cury propõe “Agricultura 4.0” e quer dobrar a produção
O programa de Augusto Cury chama sua política para o campo de “Agricultura 4.0”. O objetivo anunciado é dobrar a produção agropecuária brasileira nos próximos dez anos por meio de tecnologia, irrigação, pesquisa, logística e abertura de mercados.
A proposta estabelece prazos máximos para licenciamentos ambientais, sanitários e outorgas de água, com processos digitais integrados entre União, estados e municípios. Atividades de menor risco teriam procedimentos simplificados, enquanto empreendimentos de maior impacto permaneceriam submetidos a análises mais rigorosas.
O plano aposta em satélites, drones, sensores, inteligência artificial, robótica agrícola, bioinsumos, reciclagem de nutrientes e integração lavoura-pecuária-floresta. A promessa é levar essas tecnologias também às pequenas propriedades.
Para os pequenos agricultores, Cury propõe ampliar crédito, seguro rural, assistência técnica, mecanização e acesso aos mercados. O candidato também quer incentivar sucessão familiar, cooperativismo, turismo rural e agroturismo.
Na gestão de riscos, promete expansão significativa do Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural. Segundo o documento, o seguro deve deixar de ser uma proteção restrita e tornar-se parte do crédito e da prevenção ao endividamento no campo.
O programa pretende ainda ampliar a armazenagem e a conectividade, fortalecer a diplomacia comercial e transformar o Brasil no “supermercado do mundo”, com maior agregação de valor aos alimentos. Apesar da meta ambiciosa de dobrar a produção, o documento não apresenta, nesse trecho, cálculo de investimentos, cronograma intermediário ou fontes específicas de financiamento para atingir o resultado.

Renan Santos quer reformular o Plano Safra e frear novos assentamentos
Renan Santos reuniu suas propostas agrícolas no programa AgroBrasil 2030, estruturado em cinco pilares: proteção da propriedade, revisão da reforma agrária, produção nacional de fertilizantes, industrialização das cadeias e mudança da imagem do agro.
O primeiro compromisso é endurecer a legislação contra invasões e orientar as forças policiais a reprimir casos de esbulho possessório. O plano também propõe interromper a criação de assentamentos até que as áreas já destinadas à reforma agrária passem por auditoria e alcancem níveis de produtividade considerados adequados.
Na área de fertilizantes, Renan promete executar e ampliar o Plano Nacional de Fertilizantes, acelerar a exploração de fosfato, potássio e nitrogênio e regulamentar a mineração controlada em terras indígenas. A meta declarada é eliminar até 2035 a dependência brasileira de fertilizantes provenientes de países como Rússia, Belarus e Marrocos.
Outra prioridade é deixar de exportar somente matérias-primas e verticalizar cadeias como café, soja, cacau e carne. Para isso, a candidatura propõe Zonas Econômicas Especiais, linhas do BNDES condicionadas a metas de exportação e acordos comerciais bilaterais.
O Plano Safra seria reorganizado para favorecer produtores que invistam em processamento e verticalização. Isso representa uma mudança de foco: em vez de concentrar o incentivo apenas na produção primária, o crédito passaria a premiar projetos capazes de transformar os produtos dentro do Brasil e agregar valor antes da exportação.
O documento, porém, oferece menos detalhes sobre seguro rural, prorrogação de dívidas e proteção financeira diante de secas ou quebras de safra do que os planos de Caiado, Lula, Flávio Bolsonaro, Zema e Augusto Cury.
Crédito, seguro e fertilizantes aproximam os candidatos
Apesar das diferenças ideológicas, há pontos de convergência. Os seis candidatos defendem, em maior ou menor grau, inovação, melhoria da logística, abertura de mercados, redução da dependência de insumos importados e ampliação da segurança para o produtor.
As maiores diferenças aparecem no papel atribuído ao Estado. Lula coloca bancos públicos, programas governamentais, crédito subsidiado e políticas para agricultura familiar no centro da estratégia. Caiado propõe combinar crédito oficial com fundos garantidores, mercado de capitais e seguro permanente. Zema prioriza soluções privadas e redução da intervenção estatal.
Flávio Bolsonaro enfatiza endividamento, seguro, titulação e propriedade. Augusto Cury aposta em tecnologia e expansão acelerada da produção. Renan Santos concentra sua proposta na segurança fundiária, na redução da dependência de fertilizantes e na industrialização das cadeias agropecuárias.
Também há lacunas. Mesmo nos programas mais detalhados, faltam em vários pontos valores, fontes orçamentárias, taxas, cronogramas e critérios objetivos de execução. No caso das dívidas rurais — problema que ganhou força após sucessivas adversidades climáticas, juros elevados e perda de renda — somente algumas candidaturas apresentam referências diretas, e poucas explicam como uma reestruturação ampla seria financiada.
Os documentos registrados no TSE revelam, portanto, as prioridades formais dos candidatos, mas não encerram o debate. Para o produtor rural, o próximo passo será cobrar durante a campanha não apenas promessas, mas respostas concretas sobre quanto será investido, de onde virão os recursos e como cada medida chegará efetivamente à propriedade.
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