Em São Paulo, última grande fazenda de gado vai virar canavial

Em São Paulo, última grande fazenda de gado vai virar canavial

Fazenda Progresso
Raimundo, José Alves, Paulo Pereira, Hatus e Marcos. Os últimos peões de boiadeiros da Fazenda Progresso. (Foto: Noroeste Rural)

Matéria produzida pelo portal de notícias Hoje Mais de Andradina – SP, e reproduzimos aqui com um tom saudoso, pois sabemos que a região de Andradina e Araçatuba já foi a terra do boi gordo.

A “Terra do Rei do Gado” está perdendo sua maior fazenda de criação e seleção de gado de corte. A fazenda Progresso, que foi do pioneiro Oswaldo Fujiwaha, vai virar um “mar de cana” após mais de cinco décadas produzindo carne.

São mais de 1.500 hectares que deixam de ser utilizados na criação e engorda de gado, para se transformar em agricultura do agronegócio do etanol e do açúcar.

Fazenda Progresso
Estrutura cara ficará totalmente sem uso. (Foto: Noroeste Rural)

Atualmente a propriedade pertence ao Grupo Yabuta, com sede em Bastos. O gerente da fazenda em Andradina, Hilton Yamashiba confirmou a decisão da empresa em trocar pastagens por canavial. Segundo ele trata-se de ciclos da agro economia que já passou em São Paulo pelo café, algodão e gado. Na opinião dele esses são tempos da cana porque ela é muito mais rentável e de fácil gestão, pois a terra é arrendada e o fazendeiro só recebe o dinheiro no final do mês.

Mas Hilton não esconde uma ponta de tristeza. Entre elas o fim da pesquisa e aprimoramento de raças como nelore e tabapuã. Entre os grandes touros da linhagem Progresso que fez história está o nelore “Papa da Progresso”, entre os recordistas na produção de sêmen e vencedor de vários prêmios em exposições agropecuários que também deixavam Andradina famosa e conhecida pela qualidade de seu rebanho.

Fazenda Progresso
Pastagens extensivas estão se reduzindo cada vez mais (Foto: Noroeste Rural)

Toda essa história está ganhando um ponto final. A fazenda Progresso também deixa de criar suínos. A reportagem do jornal Noroeste Rural encontrou o último lote de porcos preparados para o embarque.

Ainda não se sabe qual destino da estrutura que durante muitos anos serviu para o manejo do gado, como barracões e currais. Em algumas fazendas da região que tiveram mudança para a cana, currais, cercas, porteiras e até casas foram demolidas para dar lugar à plantação. Em Castilho houve registro de aterro de pequenos açudes e do corte de árvores.

O fim da cultura do boi

Capataz, peão boiadeiro, inseminador, laçador, essas funções vão deixar de existir na Fazenda Progresso. No passado os caipiras cantaram “Mágoa de Boiadeiro”, para marcar o fim das boiadas com a chegada dos caminhões. Agora a agricultura moderna do agronegócio industrial demite mais uma leva de operários que trabalharam na lida com o boi e que deixa para trás, outras culturas como a linguagem, os costumes e manias, a culinária e um pedaço de todas nossas tradições.

Os mais jovens ainda esperam trabalhar com o gado em outros estados, mas outros vão colocar um ponto final também na profissão. É o caso de Paulo Pereira que passou na fazenda os últimos 50 anos de sua vida. “Será um baque”, afirmou. Foi ajudante no curral, depois peão e atualmente era um dos inseminadores de matrizes da fazenda. Agora tudo será saudade. Ele vai se aposentar e morar na cidade.

O escritório da fazenda já tem ar de despedida. A construção antiga, em madeira, ajuda trazer um clima de nostalgia e saudade antecipada. Sobre um dos armários está uma coleção de troféus. Foram conquistados pelo time de futebol, formado pela população de trabalhadores que morava nas casas da colônia rural.

Editorial: Risco ambiental

Em breve, quando o capim for substituído pela lavoura de cana, o solo passará a receber produtos altamente tóxicos para a população aquática. A fazenda Progresso está localizada numa área de influência da bacia do Rio Aguapeí (Rio Feio) com extensas planícies e muitas nascentes e lagoas. Existe mais uma dezena de lagos na propriedade e hoje estão todos piscosos, cheios de vida. Será que a lavoura de cana não irá destruir essa natureza? Essa é a questão.

Fonte Hoje Mais Andradina

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