Embargos ao frango colocam US$ 139 milhões em embarques em risco, estima Safras

China e México representam 18% da receita brasileira com carne de frango in natura; consultoria projeta retomada em novembro, mas alerta para restrição após mais longa a Santa Catarina, Newcastle no Rio Grande do Sul

As restrições comerciais após o foco de doença de Newcastle em Santa Catarina colocam em risco o calendário de embarques de 55,7 mil toneladas de carne de frango, equivalentes a US$ 138,7 milhões, segundo estimativa da Safras Consultoria. Em relatório divulgado nesta terça-feira (20), a consultoria calcula o impacto potencial da interrupção das vendas à China e ao México, dois mercados que, juntos, responderam por 18% da receita brasileira com exportações do produto entre janeiro e setembro de 2026.

O levantamento aponta possibilidade de reabertura nacional em novembro, tomando como referência os prazos observados após o episódio de Newcastle no Rio Grande do Sul, em 2024. Para Santa Catarina, porém, a recuperação pode ser mais demorada. A retomada das compras do Brasil não significa, necessariamente, a liberação simultânea do estado onde ocorreu o foco, diferença que pode prolongar os efeitos sobre a indústria e os produtores catarinenses.

O Compre Rural já havia mostrado como o foco de Newcastle em Santa Catarina poderia afetar as exportações de aves e pressionar preços. O novo relatório dimensiona a exposição financeira e apresenta cenários para a recuperação dos mercados.

China e México compraram US$ 1,53 bilhão até setembro

Segundo a Safras, com base em dados da Secretaria de Comércio Exterior (Secex), os dois países importaram 618,8 mil toneladas de carne de frango in natura brasileira nos primeiros nove meses do ano, movimentando US$ 1,53 bilhão.

A participação conjunta foi de 14,3% do volume exportado, abaixo dos 18% registrados em receita. Essa diferença mostra por que a interrupção preocupa: são compradores que, na média do período, pagaram mais por tonelada do que o conjunto dos destinos brasileiros.

MercadoVolume de janeiro a setembroReceita no períodoPreço médio
China447,9 mil toneladasUS$ 1,16 bilhãoUS$ 2.581/t
México170,9 mil toneladasUS$ 377,1 milhõesUS$ 2.206/t
Média de todos os destinos brasileiros——US$ 1.966/t
Fonte: Safras Consultoria, com dados da Secex. Recorte de carne de frango in natura, incluindo inteiros e partes.

A China concentra a maior exposição. Sozinha, respondeu por 13,6% da receita brasileira nesse recorte. Já o México tem importância para os cortes e também para outros segmentos da cadeia avícola alcançados pelas restrições sanitárias.

Embargos ao frango brasileiro: Safras projeta retomada em novembro, sem data garantida

No cenário apresentado pela consultoria, a suspensão mexicana e o autoembargo previsto no protocolo sanitário com a China são considerados a partir de 19 de outubro.

Aplicando os intervalos observados em 2024, a Safras trabalha com retomada mexicana por volta de 9 de novembro e chinesa por volta de 14 de novembro. As datas são projeções da consultoria, condicionadas à evolução sanitária e às decisões dos países compradores.

“A variável-chave é a regionalização”, destaca a Safras no relatório.

Na prática, regionalizar significa permitir que áreas brasileiras não afetadas voltem a exportar, mantendo restrições sobre a região ou o estado relacionado à ocorrência. Esse mecanismo pode reduzir o impacto nacional, mas deixar uma parcela importante da produção ainda sem acesso aos compradores.

A consultoria aponta fatores capazes de atrasar esse calendário, como a identificação de novos focos e a necessidade de esclarecimentos técnicos aos importadores.

Santa Catarina pode enfrentar uma segunda etapa de perdas comerciais

Santa Catarina responde por pouco mais de 20% das exportações brasileiras de frango, conforme o relatório. Por isso, uma eventual reabertura que exclua o estado manteria uma parcela relevante da cadeia sob pressão.

A Safras estima que essa exclusão poderia deixar 13,8 mil toneladas e US$ 34,1 milhões em embarques por mês fora dos dois mercados. O cálculo pressupõe que a participação catarinense nas vendas à China e ao México seja semelhante à sua fatia nas exportações nacionais.

Para a reabilitação de Santa Catarina pela China, o documento trabalha com um cenário central no segundo semestre de 2027, mas classifica a incerteza como muito alta. O próprio precedente gaúcho foi afetado por acontecimentos posteriores, incluindo a gripe aviária de 2025, o que limita sua utilização como previsão para o caso atual.

Não há, portanto, prazo assegurado para a liberação catarinense. A duração dependerá do controle sanitário, das exigências documentais e da avaliação dos parceiros comerciais.

Pés e miúdos têm menos alternativas de mercado

A possibilidade de redirecionar cargas reduz parte do impacto, mas essa saída não funciona da mesma forma para todos os produtos.

Segundo a Safras, a maior dificuldade está nos pés e miúdos destinados à China, que têm menos alternativas comerciais capazes de oferecer remuneração equivalente. Para esses itens, encontrar outro comprador pode exigir descontos ou mudanças no planejamento industrial.

Os cortes vendidos ao México também precisam de realocação, embora possam encontrar alternativas em outros destinos ou no mercado brasileiro.

“Os valores medem receita deslocada, não perda líquida”, ressalta a consultoria.

A distinção é essencial: os US$ 138,7 milhões estimados não representam prejuízo definitivo já registrado. São receitas associadas a embarques potencialmente afetados durante o período projetado de suspensão. A perda efetiva dependerá do volume redirecionado, dos preços obtidos e dos custos adicionais.

O que pode mudar para produtores e frigoríficos

Uma restrição prolongada tende a exigir ajustes na destinação dos produtos, na armazenagem e no planejamento de produção. Se parte da mercadoria antes destinada à exportação permanecer no país, a oferta doméstica pode aumentar em determinadas regiões.

Na avaliação da Safras, esse movimento pode provocar pressão temporária sobre os preços de frango e peru no Sul, especialmente se Santa Catarina continuar impedida de acessar os dois compradores após a reabertura nacional.

Para a cadeia produtiva, o ponto decisivo será a combinação entre rapidez no controle do foco, regionalização das restrições e capacidade de redirecionar as vendas sem grandes descontos. A recuperação do mercado nacional pode ocorrer antes de a operação catarinense voltar à normalidade.

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