Embrapa alerta para doença do trigo que pode chegar à próxima safra pelas sementes

Bactéria favorecida pelo excesso de chuva ameaça a sanidade das lavouras no Sul do Brasil; sem defensivos registrados para o controle, pesquisadores reforçam que a prevenção começa na escolha das sementes.

Uma doença que vem chamando a atenção de pesquisadores nas lavouras de trigo do Sul do Brasil pode representar um problema que vai além da colheita atual. A Embrapa Trigo emitiu um alerta, em 22 de outubro, sobre o risco de propagação da queima bacteriana das folhas, enfermidade associada à bactéria Pseudomonas syringae pv. syringae, que pode sobreviver nas sementes e ser transmitida às plantas da próxima safra.

A preocupação surge em um momento especialmente delicado para a triticultura brasileira. O excesso de chuvas, a elevada umidade e as temperaturas amenas têm favorecido o aparecimento de doenças nas lavouras, principalmente no Rio Grande do Sul. O aspecto mais preocupante, entretanto, não está apenas nas lesões observadas nas folhas: sementes contaminadas podem transportar a bactéria para um novo ciclo de produção, inclusive para áreas onde o problema ainda não foi identificado.

Diferentemente de diversas doenças provocadas por fungos, a bacteriose exige uma estratégia de manejo específica. Segundo a Embrapa, não existem defensivos agrícolas registrados no Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) para controlar essa bacteriose no trigo. Assim, a escolha da origem das sementes, a identificação correta dos sintomas e o acompanhamento técnico ganham importância decisiva.

Excesso de chuva cria ambiente favorável à doença no trigo

O desenvolvimento da bacteriose está diretamente relacionado às condições ambientais. Conforme explica o pesquisador da Embrapa Trigo, João Leodato Nunes Maciel, períodos prolongados de chuva, combinados com alta umidade e temperaturas entre 15°C e 20°C, favorecem a multiplicação da bactéria responsável pela queima bacteriana das folhas.

O microrganismo pode estar presente naturalmente na superfície das plantas, sem necessariamente provocar sintomas. Entretanto, quando encontra condições favoráveis, sua população aumenta e as toxinas produzidas contribuem para o aparecimento de lesões nas folhas.

É justamente essa característica que torna a doença mais difícil de perceber em suas fases iniciais. A simples presença da bactéria não significa que haverá danos expressivos, mas o desequilíbrio provocado pelo ambiente pode favorecer sua manifestação.

Nas lavouras, os sintomas incluem manchas translúcidas e lesões com aparência de queimadura, que podem ser confundidas com problemas provocados por outros agentes.

A identificação correta é fundamental porque, nesta mesma época, os produtores também enfrentam pressão de doenças fúngicas, como ferrugens, oídio e manchas foliares.

Bactéria pode sobreviver nas sementes e comprometer o próximo plantio

O principal ponto do alerta da Embrapa está relacionado à capacidade de sobrevivência e disseminação de Pseudomonas syringae pv. syringae.

A bactéria pode permanecer em diferentes ambientes, incluindo superfícies vegetais, solo, restos culturais e sementes. Quando o material contaminado é utilizado no plantio, existe a possibilidade de transmissão do microrganismo para as novas plantas.

Nesse caso, os sintomas podem aparecer ainda nas primeiras folhas, normalmente como lesões de aspecto encharcado, com coloração que varia entre verde-acinzentado e marrom-claro.

A Embrapa esclarece, porém, que a presença dessa bactéria nas sementes não tem sido associada à podridão ou à morte das raízes.

Essa distinção é importante: o risco sanitário está relacionado à introdução e ao desenvolvimento da bacteriose, e não necessariamente à perda de germinação ou à morte das plantas.

Para os produtores que multiplicam sementes na própria propriedade, a recomendação merece atenção especial. A seleção de material baseada exclusivamente na aparência dos grãos não permite confirmar sua condição sanitária.

A presença da bactéria nas sementes pode ser identificada por testes laboratoriais, o que oferece uma ferramenta importante para orientar decisões em lotes suspeitos.

Fungicidas não controlam a bacteriose

Um dos aspectos mais relevantes do comunicado técnico é a ausência de uma solução química registrada para o controle da doença na cultura do trigo.

Embora os fungicidas sejam fundamentais no manejo de diversas enfermidades do cereal, sua ação é direcionada a fungos, não à bactéria responsável pela queima bacteriana.

Isso significa que pulverizações realizadas com o objetivo específico de eliminar Pseudomonas syringae pv. syringae não oferecem o controle esperado.

Entretanto, a Embrapa ressalta que o aparecimento da bacteriose não justifica interromper o manejo das demais doenças.

Lavouras suscetíveis à ferrugem, às manchas foliares e às doenças de espiga continuam dependendo de monitoramento e, quando tecnicamente indicado, da aplicação de fungicidas registrados.

O pesquisador João Leodato Nunes Maciel também alerta para a necessidade de não superestimar o potencial de dano da bactéria, principalmente em áreas onde diferentes patógenos podem estar presentes simultaneamente.

Outro ponto importante envolve os tratamentos de sementes. Segundo a Embrapa, não há produtos bactericidas oficialmente registrados para controlar esse agente nas sementes de trigo. Estudos com tratamentos preventivos, como a termoterapia, ainda não apresentaram resultados suficientes para recomendar a prática como alternativa tecnicamente viável.

Como evitar que a doença avance para a safra de 2027

Diante das limitações de controle, a prevenção passa a ser o principal instrumento de manejo.

A orientação central da Embrapa é utilizar sementes livres da bactéria, preferencialmente provenientes de lavouras onde a ocorrência da doença tenha sido baixa.

Para os produtores, algumas medidas merecem prioridade:

  • Monitorar os talhões: observar o aparecimento de lesões foliares, especialmente após períodos prolongados de umidade.
  • Identificar corretamente a doença: buscar avaliação de um engenheiro-agrônomo e diagnóstico laboratorial quando houver suspeita.
  • Avaliar a origem das sementes: evitar utilizar para multiplicação lotes de áreas com ocorrência relevante da bacteriose sem avaliação sanitária.
  • Manter a rastreabilidade: registrar os talhões de origem, as condições sanitárias e os lotes destinados ao plantio.
  • Planejar o manejo integrado: considerar o histórico fitossanitário das áreas, a rotação de culturas e a presença de restos culturais que possam favorecer a sobrevivência de patógenos.

O uso de cultivares resistentes também pode representar uma estratégia importante. Contudo, a própria Embrapa reconhece que ainda existem poucas informações disponíveis no Brasil sobre a reação das variedades de trigo à queima bacteriana, o que limita recomendações específicas.

Trigo brasileiro enfrenta safra menor e pressão sobre a qualidade

O alerta fitossanitário chega em um contexto de redução da produção nacional.

De acordo com o levantamento da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), divulgado em 15 de outubro, a produção brasileira de trigo em 2026 está estimada em aproximadamente 5,7 milhões de toneladas, queda de 27,2% em comparação com a safra anterior.

O recuo está relacionado principalmente à diminuição da área cultivada e da produtividade média, não havendo evidência de que a bacteriose seja responsável por essa redução nacional.

No Rio Grande do Sul, um dos principais polos produtores do cereal, o cenário também exige cautela.

Segundo dados divulgados pela Emater/RS-Ascar em 22 de outubro, a colheita alcançou 19% da área cultivada, enquanto 35% das lavouras estavam em enchimento de grãos e 45% em maturação.

A estimativa estadual aponta para aproximadamente 2,16 milhões de toneladas de trigo, uma redução de 37,48% em relação à produção registrada em 2025.

Além da preocupação com doenças, parte das áreas colhidas apresenta problemas de qualidade, como redução do peso hectolitro e ocorrência de grãos avariados ou chochos.

Embora esses indicadores não possam ser atribuídos diretamente à bacteriose, demonstram a complexidade enfrentada pelos triticultores nesta temporada.

O produtor precisa administrar simultaneamente os riscos climáticos, a qualidade comercial dos grãos, os custos de produção e a sanidade do material que será utilizado no próximo ciclo.

Risco sanitário também pode representar prejuízo econômico

Na prática, a preocupação com sementes contaminadas ultrapassa a questão agronômica.

Para propriedades que produzem sementes destinadas ao próprio consumo ou à comercialização, a ocorrência de bacteriose pode exigir avaliações adicionais, seleção rigorosa de áreas de multiplicação e mudanças no planejamento do próximo plantio.

A necessidade de substituir um lote de sementes inicialmente reservado, por exemplo, pode elevar os custos de implantação da lavoura. Da mesma forma, introduzir material contaminado em uma área sem histórico conhecido da doença pode ampliar a exposição sanitária da propriedade.

Existe ainda uma consequência para o planejamento regional: a circulação de lotes contaminados pode contribuir para transportar o agente causador entre áreas de produção.

Isso não significa que todas as lavouras afetadas terão perdas expressivas ou que toda semente proveniente de uma região chuvosa esteja contaminada. O risco depende da presença do patógeno, das condições ambientais, da suscetibilidade das plantas e da qualidade sanitária do lote utilizado.

O comunicado da Embrapa não apresenta uma estimativa nacional de prejuízos econômicos provocados especificamente pela queima bacteriana das folhas.

Portanto, qualquer projeção de perdas financeiras generalizadas seria precipitada.

Prevenção começa antes da semeadura

O alerta da Embrapa reforça uma mudança importante na forma de encarar o manejo fitossanitário do trigo: parte dos riscos da safra seguinte pode estar sendo definida enquanto a safra atual ainda está no campo.

Quando uma bactéria consegue sobreviver nas sementes e nos resíduos vegetais, as decisões tomadas durante a colheita e a seleção do material de plantio passam a ter consequências sobre o próximo ciclo.

Para o triticultor, o desafio não é apenas preservar a produtividade e a qualidade dos grãos em 2026, mas também evitar que problemas sanitários encontrados nesta temporada sejam transportados para 2027.

A principal mensagem da Embrapa é que, diante da ausência de produtos registrados para controlar a bacteriose, investir em sementes sadias e diagnóstico correto é mais seguro do que depender de intervenções depois que a doença já se estabeleceu.

Em uma atividade cada vez mais pressionada por custos elevados, riscos climáticos e exigências de qualidade, a sanidade das sementes deixa de ser apenas um detalhe técnico e se consolida como uma decisão estratégica para a produtividade e a rentabilidade do trigo brasileiro.

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