Embrapa analisa 423 cultivares de soja e encontra característica importante em apenas 15% delas

Análise genética identificou tecnologia STS em 62 cultivares disponíveis no mercado; característica amplia as opções de manejo com sulfonilureias, especialmente diante de plantas daninhas difíceis

A oferta de cultivares de soja cresceu junto com a sofisticação genética da cultura no Brasil. Mas uma análise da Embrapa mostra que uma característica importante para o manejo de plantas daninhas está presente em apenas uma parcela dos materiais disponíveis.

Pesquisadores da Embrapa Soja avaliaram geneticamente 423 cultivares comercializadas entre 2021 e 2026 e identificaram 62 com alterações associadas à tecnologia Soja Tolerante às Sulfonilureias (STS) — aproximadamente 15% do total analisado.

Na prática, cultivares STS apresentam tolerância a determinados herbicidas do grupo das sulfonilureias, ampliando as ferramentas disponíveis para o manejo de plantas daninhas difíceis.

Mas há uma ressalva fundamental: STS não significa tolerância a qualquer herbicida ou a qualquer sulfonilureia. Aplicações devem respeitar produtos registrados, doses, estágios da cultura e recomendações agronômicas.

Como a Embrapa identificou as 62 cultivares

Os pesquisadores utilizaram genotipagem de DNA para identificar alterações relacionadas à tolerância.

Foram analisados os genes ALS1 e ALS2, associados ao mecanismo que permite às plantas STS tolerarem determinados herbicidas do grupo das sulfonilureias.

Após utilizar cultivares conhecidas como STS e uma cultivar sensível como padrões, os marcadores foram aplicados aos 423 materiais.

O resultado mostrou que 62 cultivares apresentaram pelo menos uma das alterações ALS1 ou ALS2, enquanto as outras 361 não apresentaram as alterações procuradas pelo método.

Afinal, o que significa STS?

STS vem de Sulfonylurea Tolerant Soybean, ou Soja Tolerante às Sulfonilureias.

Esses herbicidas atuam sobre a enzima ALS, envolvida na produção de aminoácidos essenciais às plantas. Em uma soja sensível, determinadas aplicações podem provocar fitotoxicidade e perdas de produtividade.

As cultivares STS possuem alterações genéticas que conferem tolerância a determinados produtos desse grupo.

Outro ponto importante é que STS não é sinônimo de transgenia. A tecnologia foi obtida por mutagênese induzida e seleção convencional, podendo estar presente inclusive em cultivares convencionais.

Tecnologia amplia opções contra plantas daninhas

A característica ganha importância diante do avanço de plantas daninhas resistentes a herbicidas.

Buva, capim-amargoso e espécies de caruru estão entre os desafios encontrados em diferentes regiões produtoras. Nesse cenário, diversificar mecanismos de ação tornou-se parte importante das estratégias de manejo.

A STS adiciona uma alternativa à chamada “caixa de ferramentas” do produtor, mas não substitui o manejo integrado.

O uso repetitivo de um mesmo mecanismo de ação também pode aumentar a pressão de seleção. Por isso, rotação de herbicidas, plantas de cobertura, dessecação adequada, rotação de culturas e controle das plantas antes da produção de sementes continuam fundamentais.

Efeito também chega à cultura seguinte

Conhecer a tecnologia presente na soja também ajuda no planejamento da sucessão de culturas.

Resíduos de determinados herbicidas podem afetar culturas sensíveis plantadas posteriormente, fenômeno conhecido como carryover. Além disso, plantas voluntárias de soja podem surgir no milho, algodão e outras culturas.

A identificação correta da cultivar permite planejar melhor os mecanismos de ação disponíveis durante e depois do ciclo da soja.

Como saber se a soja plantada é STS?

A Embrapa pretende atualizar anualmente o monitoramento, incorporando novas cultivares lançadas no mercado.

Para o produtor, a orientação prática é conferir a descrição oficial da cultivar, as tecnologias associadas à semente e a recomendação técnica antes das aplicações.

Não é possível concluir que uma soja seja STS apenas porque ela possui tolerância a outro herbicida ou outra tecnologia genética.

Escolha da cultivar vai além da produtividade

O levantamento também mostra a diversidade genética disponível atualmente. A escolha da soja já não depende apenas do teto produtivo.

Ciclo, adaptação regional, resistência a doenças e nematoides, arquitetura da planta e tecnologias herbicidas passaram a fazer parte da decisão.

Em áreas com histórico complexo de plantas daninhas, a genética presente na semente pode influenciar todo o programa de herbicidas da propriedade.

E os números da Embrapa deixam isso evidente: entre 423 cultivares analisadas, somente 62 — cerca de 15% — apresentaram as alterações relacionadas à tecnologia STS.

Antes de definir como controlar as plantas daninhas, portanto, o produtor precisa saber exatamente qual tecnologia está presente na soja plantada em cada talhão.

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