Entre os temas abordados estiveram a influência da polinização na produtividade do melão, o papel das variedades crioulas na adaptação da agricultura às mudanças climáticas e a expansão da Vespa velutina.
A importância das abelhas para a produção de alimentos, a conservação de variedades agrícolas tradicionais e os riscos representados por espécies exóticas invasoras estiveram no centro das discussões realizadas nesta sexta-feira (6), na Embrapa Alimentos e Territórios, em Maceió (AL). O encontro “Conexões Brasil–EUA: polinização, biodiversidade e adaptação às mudanças climáticas” reuniu pesquisadores brasileiros e norte-americanos para compartilhar conhecimentos sobre os desafios da produção agrícola diante das mudanças ambientais e fortalecer a cooperação científica internacional.
A programação contou com apresentações dos professores Alan Walters e Steven Still, da Southern Illinois University (SIU), dos Estados Unidos. Entre os temas abordados estiveram a influência da polinização na produtividade do melão, o papel das variedades crioulas na adaptação da agricultura às mudanças climáticas e a expansão da Vespa velutina, espécie invasora que ameaça populações de abelhas e pode comprometer os serviços de polinização. A visita também abriu espaço para identificar novas possibilidades de colaboração entre pesquisadores da universidade norte-americana e da Embrapa Alimentos e Territórios, dando continuidade a uma parceria científica já existente na área de polinização com o pesquisador da Embrapa Alimentos e Territórios Isac Bomfim.
Abelhas e produtividade do melão

O pesquisador Alan Walters, da Southern Illinois University, apresenta estudos sobre a influência da polinização na produtividade e na qualidade do melão cultivado no Nordeste brasileiro.
Em sua apresentação, Alan Walters abordou resultados de estudos sobre a polinização do melão no Nordeste brasileiro, com destaque para áreas produtoras no Vale do São Francisco, região que abrange Petrolina (PE) e Juazeiro (BA), e em Mossoró (RN). As pesquisas buscam compreender como a atividade dos polinizadores influencia a formação, a qualidade e a produtividade dos frutos.
Os experimentos compararam flores submetidas à polinização natural, realizada por insetos, com flores polinizadas manualmente. Entre os resultados apresentados, Walters destacou diferenças na formação de frutos, indicando a existência de um déficit de polinização nas condições avaliadas.
As pesquisas também investigaram a frequência de visitação das abelhas, o comportamento de coleta de pólen e néctar e a influência da vegetação existente no entorno das plantações. Segundo o Walters, a disponibilidade de outras fontes de alimento na paisagem pode alterar a distribuição das abelhas e, consequentemente, sua presença nas flores do melão.
O tema ganha relevância diante das mudanças nas condições climáticas, que podem modificar os períodos de floração das plantas e a atividade dos polinizadores.
As investigações terão continuidade a partir deste sábado (7), em Petrolina (PE), onde os pesquisadores norte-americanos, acompanhados pelo pesquisador da Embrapa Isac Bomfim, realizarão novas avaliações em campos de produção de melão amarelo. Será o terceiro ano de atividades dessa linha de pesquisa na região. “Nós vamos avaliar o serviço de polinização das abelhas e como está a influência das mudanças climáticas”, explicou Isac.
Nesta etapa, a equipe pretende medir a densidade de abelhas nas plantações e monitorar, ao longo do dia, a quantidade de indivíduos que deixam as colmeias durante o período de polinização. O objetivo é verificar a relação entre a atividade das colônias e a presença efetiva das abelhas nos cultivos.
De acordo com Isac, nem sempre as abelhas que saem das colmeias se dirigem às plantações de melão. Elas também podem buscar alimento em espécies nativas que florescem no mesmo período. Compreender essa dinâmica permitirá avaliar seus possíveis impactos sobre a produtividade e desenvolver estratégias para aprimorar o manejo da polinização.
Variedades crioulas e adaptação às mudanças climáticas
Em outra apresentação, Walters destacou a importância da conservação de variedades agrícolas tradicionais, também conhecidas como variedades crioulas, para a adaptação da agricultura às mudanças ambientais. O pesquisador compartilhou experiências de estudos desenvolvidos no Marrocos, especialmente com populações locais de hortaliças e outras culturas, como cebola, cenoura, melão, melancia e abóbora.
As pesquisas evidenciaram a redução do cultivo e da conservação de sementes tradicionais entre agricultores de comunidades estudadas. Em levantamento realizado em 2014, os pesquisadores estimaram a perda de aproximadamente 85% das variedades locais ao longo das duas décadas anteriores, nas áreas investigadas.
Walters ressaltou que essas variedades representam importantes reservas de diversidade genética, acumulada ao longo de gerações de seleção e cultivo pelos agricultores. Essa diversidade pode favorecer a adaptação das plantas a condições ambientais específicas e contribuir para o desenvolvimento de sistemas agrícolas mais resilientes.
A conservação das sementes também está relacionada à autonomia dos agricultores, à manutenção de práticas tradicionais e à transmissão de conhecimentos entre gerações.
Espécie invasora ameaça polinizadores

O pesquisador Steven Still, da Southern Illinois University, aborda os riscos da expansão da Vespa velutina, espécie exótica invasora que ameaça as abelhas e os serviços de polinização.
Os riscos associados à introdução de espécies exóticas também foram abordados durante o encontro. O professor Steven Still apresentou informações sobre a vespa-asiática (Vespa velutina) espécie predadora de abelhas que se expandiu da Ásia para diferentes regiões da Europa e foi detectada nos Estados Unidos.
Still explicou que a vespa pode capturar abelhas em pleno voo ou permanecer nas proximidades das colmeias, aguardando a saída e a chegada das operárias. Além da predação direta, sua presença pode inibir a atividade das abelhas, reduzindo a coleta de pólen e néctar e comprometendo o abastecimento alimentar das colônias.
O pesquisador apresentou experiências internacionais de monitoramento e controle da espécie, incluindo o uso de armadilhas, drones, câmeras térmicas e dispositivos de rastreamento para localizar ninhos.
Também chamou a atenção para os efeitos ambientais de determinadas técnicas de controle. Estudos apresentados durante a palestra demonstraram que armadilhas pouco seletivas podem capturar grandes quantidades de insetos de outras espécies, evidenciando a necessidade de desenvolver métodos que reduzam os impactos sobre a biodiversidade.
Ao concluir, Still defendeu a identificação precoce de espécies invasoras, o fortalecimento da vigilância e a articulação entre pesquisadores, apicultores e instituições públicas. “É um desafio para a apicultura e para a agricultura, mas também uma oportunidade de ampliar nossos conhecimentos sobre entomologia e vigilância de insetos, trabalhar em conjunto e desenvolver pesquisas multinacionais”, afirmou.
Cooperação científica e desafios compartilhados
Para o chefe-adjunto de Pesquisa e Desenvolvimento da Embrapa Alimentos e Territórios, Edy Sousa de Brito, o encontro demonstrou como diferentes países enfrentam desafios semelhantes relacionados à produção agrícola, à conservação da biodiversidade e à continuidade das atividades no campo.
Brito destacou a importância das parcerias científicas já existentes na área de polinização e a preocupação dos pesquisadores com a conservação das variedades crioulas. Também relacionou as experiências apresentadas sobre o Marrocos e os Estados Unidos a questões presentes na agricultura brasileira, como o envelhecimento dos agricultores, a sucessão geracional nas propriedades rurais e a transmissão de conhecimentos. “A gente consegue ver como os problemas são gerais e como a gente pode interagir também”, afirmou.
Na avaliação de Isac Bomfim, a visita representa uma oportunidade de ampliar a colaboração entre a Embrapa Alimentos e Territórios e a Southern Illinois University. Além da continuidade das pesquisas sobre polinização, os professores norte-americanos apresentaram outras linhas de investigação desenvolvidas na universidade, com potencial de aproximação com as áreas de atuação da Unidade.
“Além de continuar trabalhando com eles, espero que a gente tenha a chance de envolver outros colegas da Embrapa, como também outros colegas deles, de outras áreas afins”, destacou.
A perspectiva é que o intercâmbio de conhecimentos contribua para fortalecer pesquisas conjuntas e desenvolver soluções voltadas à conservação da biodiversidade, à adaptação às mudanças climáticas e à sustentabilidade da produção de alimentos.
Fonte: Embrapa
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ℹ️ Conteúdo publicado por Myllena Seifarth sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira
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