Endividamento aperta o agro e faz recuperação judicial disparar entre produtores

Pedidos avançaram 21,9% no primeiro trimestre de 2026, com forte crescimento entre produtores rurais constituídos como pessoa jurídica

A recuperação judicial no agro voltou a ganhar força no início de 2026. Entre janeiro e março, foram registrados 474 pedidos ligados ao setor, volume 21,9% superior ao observado no mesmo período do ano passado, segundo dados da Serasa Experian.

O aumento ocorre em um momento de maior pressão financeira sobre parte dos produtores brasileiros. Custos elevados, juros ainda altos, maior comprometimento da renda e critérios mais rígidos para concessão de crédito têm reduzido a margem de manobra de propriedades e empresas rurais. Embora o número tenha superado os 408 pedidos registrados no último trimestre de 2025, ele ainda ficou distante do pico de 628 ocorrências contabilizado entre julho e setembro daquele ano.

Recuperação judicial no agro cresce entre produtores PJ

O avanço mais expressivo ocorreu entre produtores rurais que exercem a atividade por meio de pessoa jurídica.

Foram 196 solicitações no primeiro trimestre, crescimento de 73,5% na comparação anual. Esse foi o maior aumento entre os diferentes perfis acompanhados pelo levantamento.

Já entre produtores classificados como pessoa física foram contabilizados 182 pedidos, recuo de 6,7% em relação ao mesmo intervalo de 2025.

Dentro desse grupo, produtores sem imóvel rural registrado concentraram 60 processos. Pequenos proprietários responderam por 44 casos, enquanto grandes e médios somaram 41 e 37 solicitações, respectivamente.

Mato Grosso concentra maior volume de processos

A distribuição regional mostra maior incidência nos principais polos de produção agropecuária do país.

Mato Grosso apareceu na liderança, com 135 pedidos, seguido por Goiás, com 73; Paraná, com 50; e Mato Grosso do Sul, com 38.

O resultado coloca alguns dos maiores produtores de grãos do Brasil entre os estados com maior quantidade de processos.

Na divisão por atividade econômica, o cultivo de soja teve 137 registros, enquanto a criação de bovinos contabilizou 42.

Juros e inadimplência aumentam pressão sobre o produtor

A deterioração financeira também aparece em outros indicadores do setor.

A inadimplência entre produtores rurais chegou a 8,8% no primeiro trimestre de 2026, segundo a Serasa Experian. O cenário ocorre enquanto a taxa Selic permanece em patamar elevado, encarecendo operações de crédito e renegociações feitas fora das linhas subsidiadas.

Na prática, propriedades com alta necessidade de capital para custeio ficam mais expostas quando receitas, preços agrícolas e margens não acompanham o custo das obrigações financeiras.

O problema pode atingir inclusive operações produtivas. Uma safra elevada, por exemplo, não significa necessariamente boa rentabilidade quando há forte comprometimento com financiamentos, insumos, arrendamentos e investimentos anteriores.

Safra elevada contrasta com dificuldades financeiras

O avanço da recuperação judicial no agro ocorre paralelamente a uma perspectiva positiva para a produção nacional.

A Conab projeta a safra brasileira de grãos 2025/26 em aproximadamente 360,1 milhões de toneladas. A estimativa para a soja chega a 180,6 milhões de toneladas.

Esse contraste evidencia que volume produzido e situação financeira são fatores distintos. A sustentabilidade econômica da atividade também depende de preço, produtividade, estrutura de custos, nível de endividamento e condições de financiamento.

Os dados do crédito rural reforçam esse cenário. Entre julho de 2025 e março de 2026, as contratações de custeio e investimento apresentaram retração na comparação com o ciclo anterior, segundo informações divulgadas pelo Ministério da Agricultura.

Setor já vinha de recorde em 2025

A pressão observada neste ano sucede um período de forte crescimento dos processos judiciais.

Em 2025, o agronegócio brasileiro contabilizou 1.990 solicitações de recuperação judicial, maior volume registrado pela série da Serasa Experian iniciada em 2021.

O avanço levou o tema também para o campo regulatório. Em 2026, o Conselho Nacional de Justiça estabeleceu novas orientações para processos envolvendo produtores rurais, com o objetivo de aumentar a padronização das decisões e a segurança jurídica.

Planejamento financeiro ganha importância no campo

Apesar de funcionar como instrumento legal para reorganização de passivos, a recuperação judicial tende a ser tratada como uma alternativa extrema.

Antes desse estágio, especialistas defendem medidas como renegociação de vencimentos, revisão dos custos da operação, controle de caixa e adequação dos investimentos à capacidade financeira de cada propriedade.

Com crédito mais seletivo e maior endividamento acumulado, a gestão financeira deve permanecer entre os principais desafios do agronegócio ao longo de 2026.

VEJA MAIS:

ℹ️ Conteúdo publicado pela estagiária Ana Gusmão sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira

Quer ficar por dentro do agronegócio brasileiro e receber as principais notícias do setor em primeira mão? Para isso é só entrar em nosso grupo do WhatsApp (clique aqui) ou Telegram (clique aqui). Você também pode assinar nosso feed pelo Google Notícias

Não é permitida a cópia integral do conteúdo acima. A reprodução parcial é autorizada apenas na forma de citação e com link para o conteúdo na íntegra. Plágio é crime de acordo com a Lei 9610/98.

Siga o Compre Rural no Google News e acompanhe nossos destaques.
LEIA TAMBÉM