Estudo genético busca desvendar acidificação do dendê

Estudo genético busca desvendar acidificação do dendê

Pesquisadores da Embrapa Agroenergia querem descobrir quais genes estão por trás de uma característica que, há anos, é um problema na cadeia produtiva do dendê: a acidificação do óleo. Esse fator faz com que as indústrias tenham que processar muito rapidamente os frutos colhidos, ou o óleo, que é o produto principal, começa a perder qualidade até o uso ficar inviável.

Após a colheita, o prazo para processamento dos frutos é de aproximadamente 48 horas. Isso no caso do dendê de origem africana (Elaeis guineenses), uma das espécies da planta mundialmente conhecida como palma-de-óleo. O dendê africano é cultivado largamente na Malásia e na Indonésia. No Brasil, muitos plantios utilizam um híbrido obtido a partir do cruzamento dessa planta com a espécie nativa das Américas Central e do Sul, a Elaeis oleífera, conhecida popularmente como caiaué. Desenvolvido pela Embrapa, este híbrido, o BRS Manicoré, produz frutos em que a acidificação do óleo demora mais a ocorrer – cerca de cinco a sete dias. Ainda assim, este é um prazo apertado. A acidez do óleo deprecia a qualidade e, além de provocar perdas, limita as áreas de plantio, que têm que estar próximas o suficiente das usinas para que o produto não se deteriore em longos percursos pelas estradas.

Isso impacta diversas cadeias produtivas. Ao contrário do que pode parecer aos brasileiros, o óleo de dendê não é apenas uma iguaria utilizada na rica culinária baiana. Ele é, sim, o óleo mais consumido no mundo. Mesmo quem nunca experimentou uma moqueca ou um acarajé, certamente, o consome em biscoitos, margarinas, produtos de panificação, óleo para fritura em fast foods, e outros derivados para a indústria alimentícia, sem falar em cosméticos, produtos de limpeza e de higiene pessoal.

Conhecer os mecanismos genéticos envolvidos na acidificação do óleo de palma pode viabilizar e acelerar o desenvolvimento de variedades que preservem por mais tempo a qualidade dos frutos e do óleo. Para tanto, estão sendo analisados os genomas das duas espécies de palma-de-óleo, a africana e a nativa das Américas.

A pesquisadora da Embrapa Agroenergia Letícia Jungmann Cançado explica que trabalhos anteriores realizados por outras instituições de pesquisa já comprovaram que, embora microrganismos tenham papel na acidificação do óleo nos frutos, mecanismos fisiológicos determinados pelo DNA da própria planta são os principais responsáveis. À primeira vista, a etapa inicial do trabalho de Letícia até parece um caça-palavras em meio ao emaranhado de letras A, C, G e T, correspondentes às bases dos genomas do caiaué e do dendê. Utilizando ferramentas de bioinformática, ela busca identificar, nas duas espécies, sequências que possam corresponder a genes responsáveis pela acidificação do óleo e entender como eles são ligados e/ou desligados.

Com esse levantamento baseado em pesquisa de dados informatizados, a equipe já obteve os primeiros resultados. Alguns genes foram identificados e, agora, os pesquisadores vão ao campo e às bancadas do laboratório para verificar como eles se comportam em plantas das duas espécies. “A equipe envolvida no projeto desenhou uma metodologia multidisciplinar que compreende genômica, estudos de expressão gênica, proteômica e estudos enzimáticos que, combinados a análises da qualidade do óleo, permitem avaliar quais genes estão sendo expressos e em que condições”, conta a pesquisadora.

A expectativa é que as informações geradas pelo trabalho consigam acelerar programas para obter variedades menos sujeitas ao problema da acidificação. “Quando você tem informação genética, fica muito mais fácil controlar a característica na planta, seja por melhoramento via cruzamentos, seja pelo emprego de Biotecnologia”, explica.

Esse trabalho faz parte de um amplo projeto de desenvolvimento de tecnologia para a cultura do dendê, liderado pela Embrapa Agroenergia e custeado pela Financiadora de Estudos e Projetos (Finep). Envolve várias unidades da Embrapa, além de universidades e centros de pesquisa espalhados pelo Brasil. As ações vão desde a genética até o processamento dos frutos e o aproveitamento de coprodutos e resíduos.

Por Vivian Chies direto da Embrapa

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