Exportação de gado vivo atinge 1,03 milhão de bovinos e se aproxima de novo recorde

Embarques crescem 30,19% no acumulado de 2026, apesar da queda em setembro; Scot Consultoria projeta exportação de gado vivo de 1,3 milhão de cabeças no ano, com reflexos na disputa por animais no mercado brasileiro

A exportação brasileira de bovinos vivos ultrapassou 1 milhão de cabeças nos primeiros nove meses de 2026 e já se aproxima do volume embarcado durante todo o ano passado. Segundo levantamento da Agrifatto, com base em dados da Secretaria de Comércio Exterior (Secex), o Brasil vendeu ao exterior 1,03 milhão de animais entre janeiro e setembro, crescimento de 30,19% sobre o mesmo período de 2025 e recorde para esse intervalo.

O avanço mantém o segmento como uma alternativa relevante de comercialização para a pecuária brasileira. Nas regiões atendidas pelos exportadores, a demanda internacional acrescenta compradores à disputa pelos lotes e pode dar sustentação aos preços. A Scot Consultoria projeta embarques de 1,3 milhão de cabeças em 2026, volume que representaria um novo recorde anual. O desempenho, porém, convive com oscilações importantes: depois do pico de agosto, as vendas externas recuaram em setembro.

Em nove meses, embarques quase alcançam todo o ano anterior

De acordo com a Agrifatto, o volume exportado até setembro corresponde a 97,84% de tudo o que o Brasil embarcou em 2025. Pelas contas da consultoria, faltam aproximadamente 22,8 mil cabeças para superar o resultado do ano passado inteiro.

Esse desempenho ajuda a dimensionar a expansão do mercado. Mesmo com a desaceleração no último mês, o acumulado permanece acima do registrado em igual período de 2025.

A projeção da Scot Consultoria reforça a perspectiva de crescimento, mas deve ser entendida como estimativa para o fechamento do ano, e não como volume já contratado ou realizado. Seu cumprimento dependerá do ritmo das compras internacionais e dos embarques no último trimestre.

Setembro recua após o recorde de agosto

O Brasil exportou 123,83 mil bovinos vivos em setembro, queda de 27,48% em relação a agosto, quando os embarques haviam atingido recorde histórico mensal. Na comparação com setembro de 2025, a retração foi de 9,72%, segundo a Agrifatto.

A receita das vendas externas somou US$ 175,57 milhões. O resultado ficou 27,97% abaixo de agosto, mas foi 18,68% superior ao registrado um ano antes.

A diferença entre o comportamento do volume e do faturamento merece atenção: o Brasil embarcou menos animais do que em setembro de 2025, mas recebeu mais pelas vendas. Segundo a Agrifatto, a valorização dos bovinos exportados explica o avanço da receita na comparação anual.

Portanto, setembro trouxe duas leituras complementares. Houve perda de ritmo nos embarques, inclusive frente ao mesmo mês do ano anterior, enquanto o faturamento mostrou maior valor comercial dos animais negociados.

Turquia lidera as compras e concentra quase metade dos embarques

A Turquia permaneceu como principal destino dos bovinos vivos brasileiros em setembro, com a aquisição de 58,82 mil cabeças, equivalentes a 47,50% do total exportado no mês.

As compras turcas recuaram 5,49% sobre agosto, mas corresponderam a 2,6 vezes o volume de setembro de 2025, conforme a Agrifatto. Marrocos apareceu na segunda posição, seguido pelo Líbano.

DestinoBovinos adquiridos em setembro
Turquia58,82 mil cabeças
Marrocos26,31 mil cabeças
Líbano10,99 mil cabeças
Egito9,53 mil cabeças
Iraque9,22 mil cabeças
Arábia Saudita3 mil cabeças

Juntos, Turquia e Marrocos responderam por 68,75% dos animais embarcados em setembro. Essa concentração torna o desempenho desses compradores especialmente relevante para o resultado brasileiro.

O mês também mostrou mudanças expressivas entre os destinos. As aquisições do Iraque caíram 73,86%, passando de 35,28 mil cabeças em agosto para 9,22 mil em setembro. A Arábia Saudita reduziu suas compras de 14,83 mil para 3 mil animais.

Em sentido contrário, o Egito ampliou as aquisições de 2,30 mil para 9,53 mil cabeças. A movimentação evidencia que o ritmo das exportações depende tanto do volume comprado quanto da composição dos destinos atendidos.

Pará e Rio Grande do Sul concentram a oferta exportada

O Pará segue na liderança nacional das exportações de bovinos vivos. Segundo a Agrifatto, o estado embarcou 60,40 mil cabeças em setembro e respondeu por 55,68% do total brasileiro no acumulado de 2026.

O Rio Grande do Sul ocupa a segunda posição, com 23,15% de participação nos embarques do ano.

A concentração regional ajuda a explicar por que os efeitos dessa demanda são mais perceptíveis em determinadas praças. A presença de compradores voltados ao mercado internacional amplia as possibilidades de venda para produtores inseridos nessas operações, mas a intensidade da concorrência depende do perfil dos animais e das condições de cada negócio.

Demanda externa pode fortalecer a negociação do pecuarista

Na avaliação apresentada pela Scot Consultoria, a concorrência dos exportadores pelas boiadas tende a sustentar os preços da arroba e da reposição, especialmente em Pará, Rio Grande do Sul, São Paulo e Tocantins. O analista Lorenzo Cracco comentou esse cenário em entrevista ao canal Tempo e Dinheiro.

A análise relaciona a demanda dos países compradores à redução de rebanhos locais e à necessidade de abastecimento de suas indústrias frigoríficas. No caso do Iraque, também aponta a limitada estrutura de bovinocultura de corte como fator que favorece as importações.

Para o produtor brasileiro, o efeito mais direto é a possibilidade de contar com mais uma alternativa de comercialização. Quando diferentes compradores disputam animais com características semelhantes, o pecuarista pode ganhar espaço para negociar.

Esse benefício, contudo, varia entre propriedades e regiões. Preço líquido, frete, exigências do comprador e condições de pagamento precisam entrar na comparação das propostas. Um mercado exportador aquecido pode favorecer a venda, enquanto a valorização da reposição também aumenta o custo de quem precisa recompor o rebanho.

O quadro de 2026 combina, assim, expansão no acumulado, maior receita na comparação anual de setembro e oscilações nas compras de destinos importantes. Para a pecuária, a oportunidade está em aproveitar a demanda adicional com atenção à margem de cada operação.

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