Extratos vegetais aliviam calor em bovinos, mas não garantem mais peso

Pesquisa brasileira aponta que suplementação melhora o conforto térmico e favorece o ganho de peso inicial, mas os benefícios não se mantêm até o fim do confinamento.

O uso de compostos naturais na alimentação de bovinos tem despertado interesse crescente entre pesquisadores e nutricionistas que buscam alternativas para reduzir os efeitos do estresse térmico sobre a produção animal. Em um país de clima predominantemente tropical, onde as temperaturas elevadas podem comprometer o consumo de alimentos, a eficiência produtiva e o bem-estar dos rebanhos, estratégias nutricionais capazes de favorecer a adaptação ao calor representam uma possibilidade relevante para a pecuária.

Uma pesquisa brasileira publicada em 16 de outubro de 2026 na revista científica Ruminants trouxe novas evidências sobre essa possibilidade. O trabalho, desenvolvido por pesquisadores da Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc), demonstrou que uma formulação contendo extratos vegetais pode favorecer determinadas respostas fisiológicas e comportamentais de bovinos submetidos a condições de calor.

Os animais suplementados apresentaram temperatura superficial mais baixa, menor frequência respiratória durante a noite e maior proporção de ruminação, indicadores associados às respostas de termorregulação e ao comportamento dos bovinos.

O resultado produtivo, entretanto, exige atenção. Embora tenha ocorrido aumento do ganho de peso em determinados momentos do confinamento, a vantagem não se manteve ao longo dos 80 dias avaliados. Ao final do experimento, não houve diferença estatisticamente significativa no peso corporal, no ganho médio diário acumulado ou na eficiência alimentar entre os tratamentos.

A descoberta é importante justamente por demonstrar que melhorar indicadores relacionados ao conforto térmico não significa, necessariamente, produzir mais carne ou obter melhor retorno econômico.

Pesquisa brasileira avaliou bovinos durante 80 dias de confinamento

O experimento foi conduzido entre 5 de fevereiro e 25 de abril de 2025, nas instalações experimentais da Udesc, em Guatambu, no oeste de Santa Catarina.

Os pesquisadores utilizaram 33 bovinos machos castrados da raça Holandesa, com aproximadamente 10 meses de idade e peso inicial médio de 307,1 quilos.

Os animais foram distribuídos em três grupos, com 11 bovinos em cada tratamento:

  • Grupo controle: recebeu dieta convencional, sem o aditivo fitogênico e sem os antibióticos promotores de desempenho avaliados.
  • Grupo fitogênico: recebeu a mesma alimentação, acrescida da formulação contendo extratos vegetais e outros componentes funcionais.
  • Grupo combinado: recebeu o aditivo fitogênico associado à monensina e à virginiamicina, compostos utilizados na nutrição de bovinos para modular a fermentação ruminal e auxiliar o desempenho.

A dieta foi formulada para permitir ganho médio de aproximadamente 1,4 quilo por animal ao dia, sendo composta por cerca de 35% de volumoso, principalmente silagem de milho, e 65% de concentrado.

Durante o experimento, foram acompanhados indicadores de crescimento, consumo alimentar, metabolismo, comportamento, temperatura corporal e frequência respiratória.

Um detalhe importante é que os bovinos permaneceram em instalações com ventiladores e sistema de aspersão de água, utilizados em determinados horários. Esses equipamentos foram temporariamente desligados durante as avaliações fisiológicas e comportamentais para permitir a observação das respostas ao calor.

Portanto, a pesquisa não avaliou o aditivo como substituto integral das estruturas de resfriamento, mas como uma possível ferramenta nutricional complementar.

O que havia na formulação com extratos vegetais?

O produto estudado reunia diferentes ingredientes com potenciais funções metabólicas e fisiológicas.

Entre os componentes vegetais estavam extratos de pimenta, chá-verde, alecrim e alcachofra, além de L-carnitina.

A pimenta contém capsaicinoides, substâncias investigadas por sua interação com receptores envolvidos na percepção térmica e na regulação vascular.

O chá-verde, o alecrim e a alcachofra fornecem compostos bioativos estudados por suas propriedades antioxidantes e por possíveis efeitos sobre o metabolismo.

Entretanto, há uma particularidade essencial para interpretar os resultados: o aditivo não era composto exclusivamente por extratos vegetais.

A formulação continha também bicarbonato de sódio e carbonatos de cálcio e potássio, responsáveis pela maior parte de sua composição. Esses ingredientes podem participar do equilíbrio ácido-base e eletrolítico, especialmente em situações nas quais os animais precisam aumentar os mecanismos de dissipação de calor.

A dose proposta pelo fabricante para a formulação utilizada era de 100 gramas por animal ao dia.

Como os ingredientes foram administrados conjuntamente, os pesquisadores não conseguiram determinar qual componente foi responsável por cada resposta observada. Isso impede atribuir os benefícios exclusivamente aos extratos botânicos.

Temperatura superficial caiu quase 2 °C nos animais suplementados

Uma das descobertas mais relevantes da pesquisa está relacionada à temperatura da superfície corporal.

Na média das avaliações, os bovinos do grupo controle apresentaram 31,37 °C, enquanto os animais que receberam o aditivo fitogênico registraram 29,41 °C.

A diferença foi de aproximadamente 1,96 °C.

No grupo que recebeu o fitogênico associado à monensina e à virginiamicina, a temperatura superficial média foi de 29,03 °C.

Os pesquisadores também identificaram redução na frequência respiratória noturna.

Nos animais do grupo controle, foram registrados, em média, 44,75 movimentos respiratórios por minuto durante a noite. Entre os suplementados apenas com o fitogênico, o indicador caiu para 42,45 movimentos por minuto.

Essas diferenças foram estatisticamente significativas no estudo.

Os resultados sugerem alterações favoráveis nas respostas de termorregulação, especialmente na temperatura da superfície corporal e na atividade respiratória noturna.

Entretanto, a temperatura retal não apresentou diferenças significativas entre os tratamentos.

Essa distinção é fundamental: a redução da temperatura superficial não comprova, isoladamente, que os animais estavam com menor temperatura corporal interna.

O conjunto das medições indica uma resposta fisiológica diferente ao ambiente térmico, mas não permite concluir que o suplemento tenha reduzido a temperatura central dos bovinos.

Animais também apresentaram mudanças no comportamento

Além das respostas fisiológicas, os pesquisadores observaram alterações no comportamento dos bovinos.

Os grupos suplementados apresentaram maior proporção de observações de ruminação em relação ao controle.

O resultado é relevante porque o comportamento ingestivo e a ruminação podem ser afetados pelo desconforto térmico.

Quando submetidos a temperaturas elevadas, bovinos frequentemente modificam seus períodos de alimentação, repouso e atividade, buscando reduzir a produção interna de calor e facilitar sua dissipação.

No experimento, o grupo que recebeu o fitogênico associado aos antibióticos também apresentou maior proporção de tempo deitado e menor proporção de tempo em pé.

Entre os animais que receberam somente o fitogênico, o comportamento ficou em posição intermediária.

Essas observações reforçam a possibilidade de que a formulação tenha influenciado respostas relacionadas ao bem-estar, embora não sejam suficientes para estabelecer uma melhora geral e contínua do conforto térmico em todas as condições de criação.

Ganho de peso melhorou no início, mas benefício desapareceu ao longo do confinamento

O desempenho produtivo foi o ponto que revelou os limites da suplementação.

Entre o 15º e o 46º dia de confinamento, os bovinos que receberam apenas a formulação fitogênica apresentaram ganho médio diário de 1,29 kg, diante de 1,16 kg observados no grupo controle.

A diferença corresponde a aproximadamente 130 gramas adicionais por animal ao dia naquele intervalo.

O ganho de peso acumulado nesse período também foi superior, passando de 35,9 kg no grupo controle para 40 kg no grupo fitogênico.

A vantagem, portanto, existiu em uma fase específica do experimento.

Entretanto, quando os pesquisadores avaliaram o período completo de desempenho após a adaptação, entre os dias 15 e 80, o cenário mudou.

O ganho médio diário foi de:

  • 1,42 kg/dia no grupo controle;
  • 1,43 kg/dia no grupo suplementado apenas com fitogênicos;
  • 1,40 kg/dia no grupo que recebeu fitogênicos associados aos antibióticos.

As diferenças não foram estatisticamente significativas.

Ao término dos 80 dias, os pesos médios foram de 411 kg, 417 kg e 412 kg, respectivamente. Apesar das diferenças numéricas, a análise estatística não confirmou superioridade de nenhum tratamento em relação aos demais.

O consumo de matéria seca e a eficiência alimentar também permaneceram semelhantes.

Na prática, isso significa que não foi possível demonstrar que a inclusão contínua do produto durante todo o confinamento resultou em maior desempenho produtivo.

O grupo combinado apresentou maior ganho durante os primeiros 15 dias, mas esse resultado também precisa ser interpretado com cautela, pois a presença de monensina e virginiamicina impede atribuir a resposta exclusivamente ao fitogênico.

Por que o efeito positivo não durou até o final?

Uma das explicações discutidas pelos pesquisadores está relacionada à própria mudança das condições ambientais ao longo do experimento.

O trabalho começou no verão e terminou no outono, período em que as temperaturas naturalmente diminuíram no Sul do Brasil.

Durante as primeiras semanas, quando os animais estiveram expostos a maior carga térmica, foram observadas as principais diferenças no ganho de peso.

Depois de aproximadamente 50 dias, houve redução progressiva das condições ambientais associadas ao calor.

Esse comportamento climático levanta uma hipótese: o aditivo poderia produzir respostas mais evidentes justamente nos momentos em que os bovinos enfrentam maior desafio térmico.

Entretanto, a pesquisa não conseguiu determinar se a perda do efeito produtivo ocorreu pela redução do calor, pela adaptação dos animais ao confinamento ou pela própria duração limitada da resposta ao suplemento.

Os autores destacam a necessidade de novos experimentos em situações de calor mais intenso e persistente.

Outra limitação foi a indisponibilidade de registros contínuos de temperatura e umidade dentro das instalações durante todo o período. Para caracterizar as condições ambientais gerais, a equipe utilizou também informações de uma estação meteorológica situada a aproximadamente 17,5 quilômetros da propriedade experimental.

Além disso, o número de animais foi relativamente pequeno e a avaliação foi realizada com bovinos Holandeses, o que exige cautela antes de extrapolar os resultados para grandes confinamentos comerciais ou rebanhos predominantemente zebuínos.

O que a descoberta representa para a pecuária brasileira?

O estudo ganha relevância em um cenário no qual o controle do estresse térmico se tornou um dos desafios da intensificação pecuária.

O Brasil reúne sistemas produtivos bastante diferentes, desde a criação extensiva a pasto até confinamentos de grande escala, frequentemente instalados em regiões sujeitas a temperaturas elevadas.

Mesmo animais adaptados ao clima tropical podem sofrer consequências fisiológicas e produtivas quando a temperatura, a umidade e a radiação solar ultrapassam sua capacidade de dissipação de calor.

A Embrapa destaca que o desconforto térmico pode provocar aumento da frequência respiratória, redução do consumo alimentar, alterações comportamentais e comprometimento do desempenho.

Nesse contexto, a possibilidade de utilizar ingredientes nutricionais para favorecer determinadas respostas fisiológicas merece investigação.

Entretanto, a adoção desses produtos deve considerar três aspectos:

Primeiro, o efeito sobre o bem-estar não deve ser confundido automaticamente com maior ganho de peso. Um animal pode apresentar alterações favoráveis nos indicadores fisiológicos sem demonstrar desempenho superior na balança.

Segundo, a fase de utilização pode ser tão importante quanto a composição do produto. Os resultados sugerem que a suplementação estratégica em períodos de maior desafio térmico ou adaptação alimentar merece investigação específica.

Terceiro, o retorno econômico ainda precisa ser demonstrado. Sem aumento sustentado de ganho de peso ou eficiência alimentar, o custo adicional por animal deve ser cuidadosamente avaliado.

Para o pecuarista, a pergunta não é apenas se determinado aditivo funciona biologicamente, mas se ele entrega benefícios mensuráveis que justifiquem sua inclusão na dieta.

Sombra, água e ambiência continuam sendo fundamentais

Um dos principais cuidados na interpretação da pesquisa é evitar que os resultados sejam utilizados para apresentar aditivos nutricionais como substitutos das medidas convencionais de controle térmico.

O sombreamento, a disponibilidade de água, a ventilação adequada e o planejamento dos horários de manejo continuam sendo componentes fundamentais da produção animal em regiões quentes.

Estudos brasileiros demonstram que a oferta de sombra pode diminuir a exposição à radiação solar e melhorar as condições térmicas dos bovinos.

Essa discussão também aparece em levantamentos sobre a estrutura dos confinamentos nacionais.

Conforme reportagem publicada pelo Compre Rural sobre sombreamento no confinamento bovino, dados do Confina Brasil 2025, da Scot Consultoria, apontaram que 74,1% das propriedades avaliadas não possuíam cobertura nas baias de engorda.

O dado evidencia o espaço existente para melhorias estruturais no setor.

A relação entre ambiente e produtividade também foi abordada em outra análise publicada pelo Compre Rural sobre bovinos fora da zona de conforto térmico, destacando que a tentativa de manter a temperatura corporal em condições adversas pode consumir energia que seria utilizada na produção.

Dessa forma, os extratos vegetais e outras estratégias nutricionais devem ser compreendidos como possibilidades complementares dentro de um programa mais amplo de manejo térmico, e não como soluções isoladas.

Pesquisa abre caminho para suplementação mais estratégica

A principal contribuição do trabalho da Udesc está na diferenciação entre uma resposta fisiológica favorável e um benefício produtivo comprovado.

Os resultados indicaram que a formulação avaliada conseguiu modificar determinados parâmetros relacionados à termorregulação e ao comportamento dos bovinos, além de favorecer temporariamente o ganho de peso.

Por outro lado, não houve comprovação de vantagem produtiva sustentada ao longo dos 80 dias de confinamento.

Essa conclusão abre espaço para uma nova linha de investigação: em vez de fornecer os mesmos aditivos continuamente, pode ser mais interessante estudar seu uso em momentos específicos, especialmente durante a entrada dos animais no confinamento e em períodos de maior exposição ao calor.

Para confirmar essa possibilidade, ainda serão necessários experimentos com mais animais, diferentes grupos genéticos, condições térmicas mais severas, avaliações econômicas e comparações que permitam separar os efeitos de cada ingrediente.

Para a pecuária brasileira, a mensagem é objetiva: a nutrição pode contribuir para a adaptação dos bovinos ao calor, mas a decisão de utilizar um suplemento deve considerar o conjunto de evidências sobre bem-estar, desempenho e custo-benefício.

A pesquisa representa um avanço na compreensão dessas alternativas, sem transformar resultados preliminares em promessas de produtividade que os próprios dados ainda não sustentam.

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