Fazenda de 5,9 mil hectares no Pantanal vira cenário de abandono de quase 600 bovinos

Impasse envolvendo antigo e atual proprietário deixa centenas de animais em uma fazenda de Corumbá; denúncia relata escassez de alimento, dificuldade de acesso à água e bovinos em condição corporal preocupante

Uma disputa pela retirada de um rebanho colocou uma propriedade de 5,9 mil hectares no Pantanal sul-mato-grossense no centro de uma nova controvérsia. Na Fazenda Vai Quem Quer, localizada em Corumbá (MS), uma denúncia aponta que cerca de 600 bovinos permanecem na área mesmo após a mudança de proprietário, com parte dos animais enfrentando condições consideradas críticas.

O caso envolve o pecuarista Ricardo Pereira Cavassa, atual responsável pela propriedade, e o antigo ocupante, Vilmar Silveira. Segundo informações apresentadas às autoridades, centenas de cabeças de gado teriam permanecido no imóvel após a transferência definitiva da fazenda.

O ponto mais preocupante está em uma área de apenas 24 hectares, onde 420 animais estariam concentrados. O cenário coincide com a estação seca no Pantanal, período em que a oferta natural de pastagem e água já tende a diminuir.

Abandono de cerca de 600 bovinos acende alerta no Pantanal

De acordo com o boletim de ocorrência registrado sobre o caso, 420 bovinos permanecem reunidos em uma área de 24 hectares.

Na prática, isso representa uma concentração aproximada de 17,5 animais por hectare naquele trecho. Esse número, isoladamente, não permite determinar se uma pastagem está tecnicamente superlotada, já que a capacidade de suporte varia conforme produtividade do capim, categoria animal, solo, época do ano e manejo.

No caso da Fazenda Vai Quem Quer, entretanto, a denúncia aponta que a oferta de alimento e água já seria insuficiente para atender adequadamente ao rebanho.

Imagens relacionadas ao episódio mostram animais aparentemente magros, reforçando a preocupação sobre a condição nutricional das cabeças mantidas na propriedade.

Uma avaliação conclusiva sobre o estado sanitário dos bovinos, contudo, depende de inspeção técnica realizada por veterinários ou pelas autoridades responsáveis pela fiscalização.

Cerca de 600 bovinos permaneceram após mudança de proprietário

A origem do problema está diretamente relacionada à mudança de controle da Fazenda Vai Quem Quer.

A propriedade passou oficialmente para Ricardo Pereira Cavassa em 24 de junho de 2026, após uma disputa judicial que se arrastava havia anos.

Quando assumiu novamente a área, Ricardo afirma ter encontrado um grande número de bovinos pertencentes ao antigo ocupante da fazenda.

Uma tentativa de resolver a situação sem intervenção judicial teria ocorrido semanas depois. Em 16 de julho, foi estabelecido um prazo de 30 dias para que o rebanho fosse removido.

Segundo o atual proprietário, o período terminou sem que a retirada fosse concluída.

Além das 420 cabeças concentradas nos 24 hectares, outras aproximadamente 200 permaneceriam em uma área de invernada.

Com isso, o número total relacionado ao impasse fica na casa das 600 cabeças de gado.

Identificação dos animais também virou motivo de preocupação

O levantamento feito dentro da propriedade revelou outra questão ainda sem esclarecimento definitivo.

Durante a conferência do rebanho e das cercas, teriam sido encontrados bovinos com diferentes tipos de identificação, incluindo animais sem marca aparente e outros com sinais associados a propriedades da região.

Dos 420 bovinos avaliados inicialmente, o proprietário estima que 43 poderiam não pertencer ao antigo ocupante da Fazenda Vai Quem Quer.

Entre as propriedades mencionadas no levantamento estão Santa Fé do Rosário, Santa Helena, Dona Arminda e Fazenda Baía do Mondego.

A informação ainda depende de apuração oficial.

Até o momento, não há conclusão pública das autoridades que permita afirmar a origem de cada animal ou estabelecer eventual responsabilidade por irregularidades envolvendo a identificação do rebanho.

Seca aumenta pressão sobre alimentação e água

O período em que o caso ocorre também exige atenção redobrada dos pecuaristas do Pantanal.

Durante os meses mais secos, a redução das chuvas interfere diretamente na disponibilidade de forragem e na reposição de água em determinadas áreas.

Boletins climáticos do Centro de Monitoramento do Tempo e do Clima de Mato Grosso do Sul (Cemtec) já apontavam irregularidade na distribuição das precipitações em diferentes pontos do Estado durante o inverno de 2026.

Para sistemas de criação extensiva, esse cenário exige planejamento para ajustar o número de animais à disponibilidade da pastagem e, quando necessário, complementar a alimentação.

No caso da situação envolvendo cerca de 600 bovinos, a estiagem pode agravar um problema que, segundo a denúncia, já existiria em razão da concentração excessiva de animais em uma área reduzida.

Bem-estar animal entra no centro da discussão

Independentemente da disputa patrimonial envolvendo o rebanho, a condição dos bovinos passou a ser uma das principais preocupações do episódio.

As diretrizes de boas práticas utilizadas na pecuária brasileira estabelecem que animais de produção precisam ter acesso adequado a água, alimentação, conforto e condições sanitárias compatíveis com seu bem-estar.

Restrições prolongadas podem provocar perda de peso, queda de imunidade e maior vulnerabilidade a problemas sanitários.

Por isso, a definição de quem é responsável pelo rebanho não elimina a necessidade de garantir condições mínimas aos animais enquanto o conflito é solucionado.

Órgãos públicos foram procurados para acompanhar o caso

Diante da permanência dos animais, Ricardo afirma ter comunicado diferentes autoridades.

Entre os órgãos citados estão a Agência Estadual de Defesa Sanitária Animal e Vegetal de Mato Grosso do Sul (Iagro), a Polícia Militar Ambiental, a Polícia Militar Rural e o Ibama.

O atual proprietário busca uma solução que permita a remoção regular dos animais sem que ele próprio tenha de transportar ou transferir um rebanho cuja propriedade afirma não possuir.

A situação exige cautela justamente porque movimentar animais de terceiros sem respaldo administrativo ou judicial poderia gerar uma nova disputa.

Enquanto o impasse continua, a condição das cabeças permanece como o ponto mais urgente.

Fazenda já havia aparecido em disputa de grande repercussão

A Fazenda Vai Quem Quer já era conhecida fora do setor pecuário antes mesmo do problema envolvendo os bovinos.

A propriedade esteve ligada a uma disputa judicial que acabou aparecendo nas investigações da Operação Ultima Ratio, deflagrada pela Polícia Federal em 2024.

A operação apura suspeitas relacionadas à negociação irregular de decisões judiciais em Mato Grosso do Sul.

A disputa pela propriedade envolveu Ricardo Cavassa e o casal Lydio de Souza Rodrigues e Neiva Rodrigues Torres, em uma negociação que previa a troca da fazenda pantaneira por imóveis rurais situados em Iguape, no litoral paulista.

Posteriormente, questionamentos sobre as condições jurídicas e ambientais dos imóveis oferecidos no negócio deram origem a um longo processo.

O caso também resultou em denúncia por estelionato apresentada pelo Ministério Público de Mato Grosso do Sul.

Em junho de 2026, uma decisão da Quarta Turma do Superior Tribunal de Justiça (STJ) modificou o cenário jurídico da disputa e permitiu que Cavassa retomasse oficialmente a Fazenda Vai Quem Quer.

Novo capítulo agora envolve o destino do rebanho

Pouco tempo depois da definição sobre a posse da propriedade, a fazenda voltou às atenções por um problema completamente diferente.

Agora, o centro da discussão não está apenas nas terras, mas no destino de centenas de bovinos que permanecem no local.

Enquanto as partes discutem quem deve realizar a retirada, a prioridade passa a ser assegurar condições adequadas ao rebanho e identificar corretamente todos os animais encontrados na propriedade.

A atuação das autoridades também será fundamental para esclarecer a procedência das cabeças, definir as responsabilidades envolvidas e impedir que a disputa entre os proprietários resulte em prejuízo ainda maior ao bem-estar dos animais.

ℹ️ Conteúdo publicado pela estagiária Ana Gusmão sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira

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