Grupo Frigorífico G.O., de Várzea Grande, afirma que valorização do boi para abate, aumento dos custos e dificuldade de repassar preços reduziram margens e pressionaram o caixa; recuperação envolve 48 credores
A combinação entre boi mais caro, custos operacionais elevados e dificuldade para repassar integralmente os aumentos ao preço da carne aparece no centro da crise financeira que levou o Grupo Frigorífico G.O., de Várzea Grande (MT), à recuperação judicial.
O processamento do pedido foi aceito pelo juiz Márcio Aparecido Guedes, da 1ª Vara Cível de Cuiabá. O grupo informou aproximadamente R$ 33 milhões em dívidas, considerando tanto os créditos submetidos à recuperação quanto aqueles que ficam fora do processo.
O caso chama atenção por ocorrer justamente em Mato Grosso, maior estado produtor de bovinos do país e uma das principais bases da indústria frigorífica brasileira, e expõe uma equação conhecida do setor: a valorização da arroba beneficia o pecuarista vendedor, mas pode comprimir rapidamente a margem das indústrias que dependem da compra de animais para manter suas linhas de abate.
Crise teria começado com a valorização do boi em 2024
Segundo os requerentes, as dificuldades financeiras começaram a ganhar força a partir de 2024. A explicação apresentada no processo aponta que a valorização da arroba aumentou o custo de aquisição dos bovinos destinados ao abate sem que o frigorífico conseguisse repassar integralmente esse avanço ao consumidor.
A decisão judicial reproduz esse diagnóstico ao mencionar aumento do preço dos animais, elevação dos custos operacionais, retração das margens de comercialização e redução da liquidez. Na atividade pecuária integrada ao grupo, também foram apontadas despesas maiores com alimentação animal, combustíveis, medicamentos veterinários, biossegurança e outros insumos.
É um ponto importante para entender o caso. A alta do boi gordo, isoladamente, não significa necessariamente prejuízo para um frigorífico. O problema aparece quando a matéria-prima sobe em velocidade ou intensidade maior do que a capacidade da indústria de melhorar suas receitas com carne, miúdos, couro e demais produtos.
No caso do Grupo Frigorífico G.O., a pressão teria avançado até atingir o capital de giro. Segundo os autos, foram adotadas medidas como antecipação de recebíveis, renegociação de obrigações, alongamento de prazos e utilização de capital próprio, mas elas não teriam sido suficientes para restabelecer a liquidez.
Dívida chega a cerca de R$ 33 milhões
O passivo diretamente sujeito à recuperação judicial é de R$ 29.045.079,16, distribuído entre 48 credores. Outros R$ 4.052.341,30 correspondem a créditos que não integram o processo recuperacional.
Somados, os valores levam o endividamento informado para aproximadamente R$ 33 milhões. Atualmente, o grupo mantém 11 empregados.
O Grupo Frigorífico G.O. reúne a G.O. Comércio e Distribuição de Carnes Bovinas e Suínas Ltda. e os produtores rurais Vilson Gonçalves de Oliveira e Sandra Regina Dantas. A Justiça autorizou que os três sejam tratados como um único devedor na recuperação.
A perícia identificou integração entre as operações: os produtores possuem 90% e 10% do capital da empresa, utilizam o mesmo endereço como sede e aparecem como avalistas de operações de crédito. Além disso, a Fazenda Guanandi fornece bovinos ao frigorífico. Por isso, haverá uma única relação de credores e um único plano de recuperação.
Frigorífico continuará operando
A recuperação judicial não significa o encerramento imediato das atividades. Pelo contrário, o mecanismo busca criar condições para que uma empresa considerada economicamente viável reorganize suas dívidas enquanto mantém a operação.
Um laudo de constatação prévia apontou regularidade e continuidade efetiva das atividades comerciais, elemento considerado antes do deferimento do processamento da recuperação.
A Justiça também reconheceu como essenciais 37 bens ligados diretamente à atividade, entre eles caminhões refrigerados, câmaras frias, contêineres refrigerados, equipamentos para processamento de carne, tratores, implementos agrícolas, o curral da Fazenda Guanandi e o imóvel da planta frigorífica.
Outros cinco bens ficaram fora dessa proteção: uma Fiat Toro, duas motocicletas Honda, uma máquina destinada à produção de hambúrguer e o imóvel utilizado como escritório administrativo. O próprio rebanho também não foi considerado instrumento essencial de produção para essa finalidade jurídica.
Grupo terá 60 dias para apresentar plano
As execuções relacionadas aos créditos submetidos ao processo foram suspensas. O grupo terá 60 dias, contados da publicação da decisão, para apresentar seu plano de recuperação judicial.
Antes disso, será publicado edital para que os credores possam apresentar habilitações ou contestar os valores relacionados. A decisão é de primeira instância e ainda pode ser objeto de recurso.
O administrador judicial nomeado foi o advogado Leo Spinelli. A remuneração foi fixada em 3% do passivo submetido à recuperação, equivalente a R$ 871.352,37, a ser paga em 35 parcelas mensais.
O que o caso revela sobre o mercado do boi
Embora a recuperação seja uma situação específica do Grupo Frigorífico G.O. e não possa ser interpretada como sinal de crise generalizada da indústria frigorífica, o episódio mostra como a mudança do ciclo pecuário pode produzir efeitos diferentes dentro da mesma cadeia.
Para o pecuarista, uma arroba valorizada tende a representar maior receita na comercialização. Para o frigorífico, entretanto, o animal é a principal matéria-prima. Quando o custo de reposição aumenta e a indústria encontra resistência para transferir essa alta ao atacado e ao varejo, o spread entre compra do boi e venda da carne pode ficar pressionado.
Esse equilíbrio ganha ainda mais importância para plantas menores e operações regionais, que normalmente possuem menor escala de abate e menor capacidade de diluir custos do que grandes grupos.
No caso de Várzea Grande, os próprios requerentes relacionaram a deterioração financeira ao aumento do custo do boi e de outros insumos, seguido pela necessidade crescente de financiamento do caixa.
A recuperação judicial agora abre uma nova etapa: o plano que será apresentado aos credores mostrará como o Grupo Frigorífico G.O. pretende reorganizar aproximadamente R$ 29 milhões em créditos submetidos ao processo e preservar suas operações em Mato Grosso.
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