Mercado físico registra recuos em importantes regiões pecuárias, enquanto escalas ainda relativamente curtas e contratos acima de R$ 360/@ na B3 mostram que a pressão sobre o boi gordo encontra resistência
O mercado do boi gordo voltou a enfrentar pressão baixista, com frigoríficos testando preços menores em diferentes regiões do país. O movimento ganhou força diante de uma combinação de demanda doméstica enfraquecida, ritmo mais moderado das exportações e maior facilidade de algumas indústrias para completar as escalas de abate. Outro fator relevante dentro da precificação é o retorno “precoce” da China as compras, mirando nova estratégia para garantir o abastecimento com a carne brasileira.
Apesar das quedas, o cenário ainda está longe de indicar uma desvalorização generalizada da arroba. A oferta de animais terminados permanece relativamente ajustada e os pecuaristas vêm administrando as vendas, enquanto o mercado futuro continua negociando níveis consideravelmente superiores aos observados no físico.
Segundo levantamento da Agrifatto, seis das 17 praças acompanhadas pela consultoria registraram queda na terça-feira (25): São Paulo, Minas Gerais, Mato Grosso, Pará, Paraná e Santa Catarina. Nas demais regiões monitoradas, os preços ficaram estáveis.
Boi gordo cai em São Paulo e outras regiões
A pressão também apareceu no levantamento da Scot Consultoria, que identificou baixas em São Paulo, Minas Gerais, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Goiás.
Na praça paulista, referência para o mercado nacional, o boi comum foi cotado a R$ 343/@, enquanto o chamado “boi-China” ficou em R$ 346/@, considerando valores brutos e a prazo.
Os números da Safras & Mercado também mostram um mercado pressionado. As referências divulgadas pela consultoria apontaram:
- São Paulo: R$ 341,58/@;
- Goiás: R$ 332,25/@;
- Minas Gerais: R$ 334,65/@;
- Mato Grosso do Sul: R$ 336,09/@;
- Mato Grosso: R$ 326,35/@.
Fernando Henrique Iglesias, analista da Safras & Mercado, observa que frigoríficos de maior porte encontram atualmente menor dificuldade para preencher as escalas, inclusive pelo uso de animais provenientes de parcerias e confinamentos próprios.
Oferta de boiada ainda coloca um piso no mercado
Há, porém, um fator importante impedindo uma queda mais intensa.
Segundo a Agrifatto, a oferta restrita de animais terminados limita a capacidade dos frigoríficos de ampliar os recuos. As escalas de abate permanecem relativamente curtas, girando ao redor de sete dias na média nacional.
Do lado do produtor, a estratégia tem sido evitar colocar grandes volumes de boiada no mercado ao mesmo tempo. Pecuaristas estão fracionando a comercialização dos lotes terminados, buscando preservar poder de negociação diante das tentativas de compra abaixo das referências.
Na prática, o mercado vive uma disputa: os frigoríficos tentam aproveitar o consumo mais fraco para reduzir a arroba, enquanto a oferta ainda controlada de boiada dificulta uma queda mais profunda.
Carne bovina também perde força no atacado
A dificuldade não está apenas na compra do gado.
O mercado atacadista apresenta enfraquecimento, pressionado pelo consumo doméstico e pela competitividade das proteínas concorrentes. Segundo a Safras & Mercado, há espaço para novos ajustes negativos no curto prazo.
O quarto traseiro permaneceu em R$ 26/kg, o dianteiro em R$ 20/kg, enquanto a ponta de agulha recuou R$ 0,20, para R$ 18,80/kg.
Esse comportamento ajuda a explicar a postura mais cautelosa das indústrias. Com menor capacidade de repassar preços no atacado, frigoríficos aumentam a pressão sobre a principal matéria-prima.
B3 mantém arroba acima de R$ 360
É justamente no mercado futuro que aparece um dos pontos mais interessantes do momento.
Enquanto o físico sofre pressão, o contrato do boi gordo para outubro de 2026 encerrou a sessão de segunda-feira (24) em R$ 364,80/@, segundo os dados citados pela Agrifatto.
A diferença mostra que o mercado ainda precifica um cenário distinto para o pico da entressafra. A menor disponibilidade sazonal de animais terminados a pasto pode devolver sustentação às cotações, especialmente se a demanda melhorar.
Além disso, permanecem especulações envolvendo a China e eventuais antecipações de compras de carne bovina brasileira. A Safras & Mercado, entretanto, considera improváveis algumas operações comentadas no mercado envolvendo rotas logísticas mais longas para chegada do produto somente em 2027, principalmente pelo custo adicional.
Até onde a arroba pode cair?
No curto prazo, a pressão dos frigoríficos continua sendo o principal vetor baixista, especialmente se o consumo doméstico permanecer enfraquecido. Mas os próprios dados das consultorias mostram que ainda existem obstáculos para uma queda mais forte.
Escalas próximas de sete dias, oferta controlada de animais terminados e produtores evitando concentrar vendas funcionam como elementos de sustentação.
Por isso, mais importante do que observar apenas a queda diária da arroba será acompanhar até onde os frigoríficos conseguem alongar suas escalas pagando preços menores. Caso a indústria encontre resistência na oferta justamente com a aproximação do período mais apertado da entressafra, a pressão atual pode perder força.
Por enquanto, o recado do mercado é claro: o boi gordo está pressionado no físico, mas a distância para os preços negociados na B3 mostra que a disputa pelo rumo da arroba nos próximos meses continua aberta.
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