Goiás perde mais uma posição no ranking da produção de leite

Goiás perde mais uma posição no ranking da produção de leite

Foto Divulgação.

O Brasil, que já havia reduzido sua produção de leite em 1,4% de 2014 para 2015, a teve reduzida novamente em 2,85% de 2015 para 2016.

Consultando o IBGE 2016 fiquei muito surpreso com os dados apresentados. Estas quedas são muito fortes para um país que cresceu linearmente acima de 4% nos anos anteriores.

Os custos elevados da ração em 2015 e 2016 foram motivos fortes para a queda da produção, já que os preços praticados pelo mercado bateram recordes. Mas o que mais nos chama atenção na estatística do IBGE 2016 é a queda da produção em Goiás de 13,86% em 2016 comparada com 2015, que o arremessou para a quinta posição no ranking dos estados como mostra a figura abaixo.

Minas Gerais continuou como maior produtor de leite do país, apesar de ter produzido, em 2016, 1,9% menos do que em 2015 (8,97 bilhões de litros). Em segundo lugar, se encontra o Estado do Paraná, com produção de 4,73 bilhões de litros de leite em 2016, crescimento de 1,5% comparado a 2015. Em terceiro, o Rio Grande do Sul, com pequena elevação na produção de 0,30%. E na quarta posição ficou Santa Catarina, com 3,11 bilhões de litros. Com esta produção, a região Sul deteve 37% da produção nacional ultrapassando a região Sudeste com 34,3%.

Com relação aos municípios, a liderança foi de Castro, no Paraná, que atingiu a marca de 255 milhões de litros, região com uma atividade de produção de leite, tecnológica e economicamente comparável às melhores do mundo.

A redução percentual da produção em Goiás de 13,86% em 2016 comparada com 2015 apenas foi menor que o Espírito Santo e o Mato Grosso do Sul, cujas quedas foram, respectivamente de 20,88 e 20,35%. No Centro-Oeste, a produção caiu 13,8%, com destaque para o Estado de Mato Grosso do Sul (-20,35%).

Em Goiás, um estado com tanta vocação pela sua condição de clima, solos férteis e topografia favorável precisamos fazer uma análise mais profunda deste cenário. Este dado nos remete até a questioná-lo, considerando o tamanho da queda e tendo em vista o crescimento ininterrupto de 43% de 2007 a 2013, como mostra o gráfico a seguir. Em valores absolutos, foram 472 milhões de litros a menos em 2016, número maior que toda a produção anual do MS ou do ES, respectivamente de 346,3 e 371,3 milhões de litros.

Não se pode omitir uma possível fuga de dados que se supõe existir pelo elevado número de pequenas fábricas de queijos clandestinas. Supõe-se que este número tenha crescido nos últimos anos. Esta realidade prejudica o setor como um todo, pelos riscos sanitários e pela competição ilegal com as empresas organizadas e inspecionadas que recolhem todos os tributos.

Qual a possível explicação para este cenário de um mesmo estado que em 1996, ocupou a 2ª posição dentre os 27 estados da Federação?

Primeiramente, observamos que as três posições perdidas foram ocupadas pelos estados da região Sul do país: Rio Grande do Sul, Paraná e Santa Catarina. É fato que estes estados apresentam vocação para a atividade leiteira em função do tamanho pequeno das propriedades e do modelo familiar de atuação. Entretanto, as vantagens dos estados do Sul do país, onde chove praticamente o ano todo e cujo inverno reúne as boas condições para o cultivo das forrageiras temperadas podem ser facilmente compensadas pelas boas condições tropicais para a produção de pastos e suplementos forrageiros tropicais no período de chuvas do Centro Oeste. Enquanto uma forrageira temperada como azevém (Lolium multiflorum) produz dez toneladas de matéria seca por hectare, uma gramínea tropical como Mombaça (Panicum maximum cv. Mombaça), por exemplo, tem uma capacidade produtiva muito superior, de pelo menos o dobro, em função do seu sistema fisiológico de crescimento.

Outra vantagem apresentada pelo produtor de leite goiano é o tamanho da área média das fazendas de 87 ha, conforme Diagnóstico da FAEG de 2009. As fazendas produtores do Rio Grande do Sul são muito menores, cujo tamanho estimado é de cerca de 15 ha, com imobilização de muito capital por hectare de terra.

Analisando aspectos relacionados com a cadeia do leite podemos admitir que ações isoladas têm sido realizadas pelo setor em Goiás tendo em vista a sua sustentabilidade. O SENAR GOIÁS, por exemplo, criou o SENAR MAIS para dar assistência técnica aos produtores, que juntamente com cooperativas e indústrias de laticínios, estão procurando promover o desenvolvimento do setor produtivo de leite. Atualmente, 1.600 produtores de leite, organizados em 90 grupos, em todo o estado, recebem assistência técnica através do SENAR MAIS Leite. Cada grupo tem um técnico habilitado para fazer intervenção técnica e gerencial. Neste modelo os custos de produção são monitorados e cada produtor elabora, juntamente com o técnico, um planejamento estratégico para ao menos os próximos dois anos.

Fazendo um paralelo com os estados do Sul, é interessante destacar ações fundamentadas em conceitos de cadeias produtivas executadas naquela região. Coincidentemente, são nos três estados do país que mais tem crescido a produção, onde os seus segmentos da cadeia buscam entendimentos através dos Conselhos paritários entre a indústria e o produtor (Conseleites). Mais recentemente, os mesmos estados, até se organizaram, ainda melhor, para debaterem o agronegócio leiteiro por meio da criação da Aliança Láctea Sul Brasileira com o objetivo de fortalecer e consolidar a cadeia produtiva do leite. Outro ponto que vale a pena destacar é que nos referidos estados, a assistência técnica através da EMATER é um destaque.

Também é possível encontrar no mercado da região Sul programas de desenvolvimento amparados por linhas de crédito conquistadas pelo setor para financiar a melhoria da atividade. É também importante ressaltar que boa parte dos produtores do Sul do país estão organizados em cooperativas, muitas das quais bastante robustas, apesar de serem independentes. Neste modelo de organização podemos chamar novamente atenção para a assistência técnica. A cooperativa Castrolanda, por exemplo, contribui muito para isso, oferecendo a seus associados um serviço técnico muito forte dedicado aos produtores nas diferentes cadeias de produção trabalhadas.

Na Chácara Nossa Senhora Aparecida da D. Neide Barreto e do Sr. Benedito, que visitamos em agosto deste ano, para realizar um trabalho com técnicos do MAPA e da Castrolanda, em treinamento pelo SENAR nacional (foto abaixo), eram quatro os técnicos que periodicamente a visitam: um técnico especialista na qualidade do leite e que faz o acompanhamento das Boas Práticas Agropecuárias (BPAs), outro cuida da produção de forrageiras, outro levanta os dados para fazer gestão dos fornecedores, além do técnico que faz o acompanhamento econômico. A assistência veterinária é realizada por veterinários conveniados com a cooperativa.

Visita à Chácara Nossa Senhora Aparecida, da D. Neide Barreto e Sr. Benedito, Castro-PR

A densidade de coleta é outro ponto que joga a favor do Sul e contra o nosso estado de Goiás. Com baixa escala de produção nas fazendas e distâncias elevadas para coletar o leite é esperado que o custo logístico se eleve reduzindo ganhos da cadeia e o consequente desestímulo para todos que atuam nela.

Ao contrário, nos estados da região Sul, a produção de leite é bastante concentrada. No Paraná, na região das Gerais, por exemplo, em uma pequena região temos uma das melhores densidades de coleta de leite do Brasil. Na Castrolanda e na Frísia estima-se que sejam coletados acima de 200 litros de leite por km rodado.

A proposta que deixamos aqui é que os segmentos envolvidos com a cadeia de leite goiana busquem, imediatamente, fazer um debate para entender este quadro e planejar estrategicamente uma retomada do setor, que é tão importante para a economia regional.

Autor: Antônio Carlos de Souza Lima Jr. Goiânia – GoiásA SL Consultoria em Agronegócios é uma empresa criada em agosto de 2014, com sede em Goiânia, tendo a expertise em negócios relacionados com a Cadeia do Leite como seu pilar central. Ela foi projetada pelo seu sócio proprietário, que atuou por 23 ano;

Fonte: MilkPoint