Governo admite possibilidade real de faltar insumos no Brasil

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plantio da soja
Foto: Nicoli Nayara Mendes

Ministério da Agricultura reconhece que primeiros sinais de escassez começaram a aparecer em maio deste ano e que a segunda safra de grãos pode ser a mais comprometida

Bloomberg Línea — O Ministério da Agricultura admitiu hoje que a escassez de defensivos agrícolas e fertilizantes é uma possibilidade real ainda para a safra 2021/22, que começa a ser plantada no Brasil. Os primeiros sinais da falta de matérias-primas começaram a aparecer nos meses de maio e junho deste ano, indicando que as indústrias poderiam ser impactadas e ter dificuldades em entregar os produtos a tempo e nas quantidades esperadas pelos produtores.

O sentimento do governo brasileiro é que para o plantio que está sendo realizado desde o final de setembro e início de outubro não haja problemas de desabastecimento. Contudo, as atenções se voltam para a segunda safra, quando o plantio ocorre no final do ano e início do próximo.

“No caso dos fertilizantes, o cenário é real de eventual falta, não para essa primeira safra de verão, mas sim para as safras seguintes. Nos defensivos, também há uma possibilidade real. Na primeira safra de verão a gente não observou nenhuma situação extremamente relevante. É possível que tenha ocorrido alguma falta? É, mas não chegou aos nossos ouvido”, disse Carlos Gularte, diretor do departamento de sanidade vegetal e insumos agrícolas do Ministério da Agricultura, durante uma audiência pública da Comissão de Agricultura, Pecuária, Abastecimento e Desenvolvimento Rural da Câmara dos Deputados.

Por que está faltando insumos?

A falta de insumos, especialmente de defensivos, está diretamente relacionada aos problemas de energia na China. Com uma necessidade de importar 76% dos ingredientes ativos utilizados nas formulações dos químicos utilizados na agricultura, a China é, sozinha, responsável por garantir 32% da importação. Estados Unidos e Índia são outras duas importantes origens, com 11% do fornecimento cada.

Com a necessidade dos chineses em cumprir as metas climáticas do acordo de Paris, muitas províncias do país asiático onde estão instaladas as fábricas que produzem as moléculas químicas passaram a ter um acesso limitado à energia, reduzindo a oferta. Aliado a esse fator pode ser incluído ainda a diminuição das rotas marítimas por conta da pandemia e a menor disponibilidade de contêineres para o transporte das cargas.

Diante do quadro e da importância que a China tem no mercado, o próprio Ministério da Agricultura reconhece a necessidade de se manter relações comerciais saudáveis com o país. “Esse não é um problema só do Brasil. A China é uma fábrica de ativos para o mundo. A gente tem que trabalhar em um relacionamento bilateral com a China para que, se for faltar, falte o menos possível [para o Brasil]”, disse Gularte.

Falta de transparência

Principais prejudicados pelo “apagão” de insumos, os agricultores acusam os demais elos da cadeia de falta de transparência e comunicação. “Fica claro para nós, se olharmos para a logística de uma molécula, isso era esperado desde o ano passado. Na verdade, o que faltou foi diálogo e transparência de que realmente iria acontecer o problema”, afirma Fabrício Rosa, diretor-executivo da Associação dos Produtores de Soja do Brasil (Aprosoja), ao lembrar que as empresas disseram que não faltaria produto.

As indústrias se defendem. Para Christian Lohbauer, presidente da CrofLife Brasil, uma conjunção de fatores negativos criou o que ele chamou de “tempestade perfeita”. “Não dava para prever. Poderia se ter uma ideia de que poderia haver escassez, mas uma combinação tão grande de fatores negativos ao mesmo tempo não tem como prever. Temos que lidar de forma serena”, afirma.

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