ILPF na Caatinga muda produção de ovinos e mantém rebanho por 90 dias de seca só com água e sal

Sistema desenvolvido pela Embrapa combina vegetação nativa e produção de forragem para aumentar a capacidade produtiva no Semiárido sem abrir mão da conservação da Caatinga; pesquisas agora avançam sobre desempenho dos animais e emissões de metano

Produzir mais dentro de uma região marcada por longos períodos de estiagem, altas temperaturas e limitações na oferta de alimento é um dos grandes desafios da pecuária no Semiárido brasileiro. Uma tecnologia estudada pela Embrapa Caprinos e Ovinos, em Sobral (CE), mostra que a resposta pode estar justamente na integração entre produção e conservação: a ILPF na Caatinga.

Os primeiros resultados chamam atenção. Em uma área experimental de seis hectares, a produção chegou a 42 toneladas de forragens, quantidade suficiente para sustentar 21 ovinos durante 90 dias do período seco, utilizando apenas água e sal mineral como complemento. O trabalho faz parte de uma linha de pesquisa iniciada em 2017 e adaptada especificamente às condições da Caatinga.

Mais do que simplesmente aumentar a quantidade de alimento disponível, a proposta é reorganizar o uso da propriedade. O sistema intercala faixas de vegetação nativa preservada com áreas destinadas às culturas forrageiras, permitindo que lavoura, criação animal e componente florestal funcionem de maneira integrada.

O que é a ILPF na Caatinga?

A Integração Lavoura-Pecuária-Floresta já é conhecida em outras regiões brasileiras, mas sua aplicação no Semiárido exige uma lógica própria. Em vez de simplesmente reproduzir modelos utilizados em grandes propriedades mecanizadas do Cerrado, a tecnologia precisa considerar escassez hídrica, irregularidade das chuvas, tamanho das propriedades e, principalmente, a conservação da vegetação nativa.

Segundo publicação da Embrapa, o objetivo é integrar o uso sustentável da Caatinga a espécies forrageiras adaptadas, incluindo palma, guandu, sorgo, milheto e capins resistentes, além de pastagens associadas a componentes arbóreos, como as leguminosas.

Em material técnico anterior, a própria instituição descreve o ILPF Caatinga como uma proposta que reúne produção agrícola, pecuária e uso sustentável da mata nativa, possibilitando formar reservas de alimento para os animais e até criar outras fontes de renda para o produtor, incluindo o manejo sustentável da madeira.

A lógica, portanto, não é retirar a Caatinga para produzir mais. É justamente transformar a vegetação nativa em parte funcional de um sistema produtivo planejado, conciliando produção animal, oferta de alimento e conservação.

42 toneladas de forragem e três meses atravessando a seca

É justamente durante a seca que o potencial do sistema ganha importância.

Nos experimentos conduzidos pela Embrapa Caprinos e Ovinos, as faixas de Caatinga preservada foram intercaladas com culturas destinadas à alimentação dos animais. Os resultados iniciais produziram as 42 toneladas de forragem que permitiram manter os 21 ovinos durante 90 dias, entre os períodos mais críticos para a disponibilidade de alimento.

A estratégia pode representar uma mudança importante para propriedades dependentes da compra de suplementação justamente na época em que as pastagens naturais perdem capacidade de sustentar os animais.

Para o pesquisador da Embrapa Fernando Henrique Albuquerque, um dos desafios é aumentar a disponibilidade de alimento sem transformar o ganho de produtividade em pressão adicional sobre o bioma.

“Precisamos aumentar a produção de forragem para permitir maiores lotações sem degradar a Caatinga.”

A declaração consta da publicação oficial da Embrapa sobre os trabalhos conduzidos em Sobral.

Pesquisa agora olha para cordeiros, matrizes e metano

A tecnologia ainda está avançando.

Depois dos resultados iniciais, a área experimental foi ampliada e a pesquisa passou a avaliar sistemas destinados à terminação de cordeiros e ao manejo de matrizes, acompanhando o desempenho dos animais e também aspectos ambientais da atividade.

Atualmente, segundo a Embrapa, a área experimental abriga 120 matrizes da raça Santa Inês. Os pesquisadores também estudam eficiência alimentar e emissão de metano entérico.

Para medir essas emissões, é utilizada a técnica do gás traçador SF6 (hexafluoreto de enxofre), que permite estimar a emissão diária de metano pelos animais. A pesquisa busca compreender se a maior eficiência alimentar proporcionada pelos sistemas integrados também pode contribuir para reduzir a intensidade das emissões da produção.

A expectativa é chegar a um modelo capaz de combinar ganho de peso adequado, menor dependência de suplementação externa e sustentabilidade ambiental, especialmente durante o período seco, quando normalmente aumentam as dificuldades nutricionais dos rebanhos.

Foto: Fernanda Birolo

Produzir mais sem degradar a Caatinga

Esse talvez seja o ponto mais importante da ILPF na Caatinga.

No Semiárido, intensificação produtiva não pode significar simplesmente aumentar o número de animais na mesma área. Sem planejamento, isso poderia provocar sobrepastejo, redução da cobertura vegetal e perda progressiva da capacidade produtiva.

A proposta pesquisada pela Embrapa segue na direção contrária: aumentar a quantidade e a qualidade do alimento produzido dentro da propriedade para permitir maior eficiência no uso da terra, preservando parte da vegetação nativa como componente do próprio sistema.

Material técnico público da instituição explica que o redesenho da ILPF Caatinga pode trabalhar com faixas produtivas intercaladas por faixas de vegetação nativa. A Embrapa destaca que esse tipo de configuração possibilita produção animal, aproveitamento sustentável de recursos florestais e conservação de parcela relevante da vegetação, que também participa da dieta e do bem-estar dos rebanhos, principalmente durante a seca.

Uma tecnologia desenhada para o Semiárido

O potencial da ILPF na Caatinga ganha ainda mais relevância porque não se trata apenas de transportar para o Nordeste um modelo desenvolvido para outra realidade.

A tecnologia vem sendo construída considerando justamente as particularidades da região.

Além da experiência com ovinos em Sobral, a Embrapa desenvolve no Agreste sergipano o Sistema Glória de Produção de Leite, baseado na integração de palma forrageira, gliricídia e sorgo. Nesse modelo, os resultados divulgados pela instituição apontam produção de 236,8 toneladas de massa verde por hectare/ano, das quais 176 toneladas correspondem à palma, além de produção estimada em 4,1 toneladas de proteína bruta por hectare/ano.

Foto: Embrapa

São experiências diferentes, mas que seguem um princípio semelhante: diversificar as fontes de alimento para reduzir a vulnerabilidade da produção às condições climáticas do Semiárido.

A gliricídia, por exemplo, além de contribuir para a alimentação dos animais e oferecer sombra, atua na fixação de nitrogênio e pode favorecer a fertilidade do solo. Isso ajuda a diminuir a dependência de fertilizantes químicos e aumenta a complementaridade entre os componentes produtivos.

ILPF na Caatinga pode ser uma estratégia para produzir onde a seca dita as regras

A pesquisa ainda precisa avançar sobre indicadores econômicos, desempenho animal e impactos ambientais antes que seus resultados possam ser extrapolados para diferentes condições produtivas.

Mas os dados já divulgados pela Embrapa mostram uma direção importante: a Caatinga não precisa ser vista como obstáculo à intensificação da pecuária, mas como componente de um sistema desenhado para produzir dentro dos limites do Semiárido.

Ao combinar vegetação nativa, forrageiras adaptadas, planejamento alimentar e manejo dos animais, a ILPF na Caatinga busca aumentar a quantidade de alimento disponível justamente quando ele se torna mais escasso.

E, em uma região onde atravessar a seca costuma definir boa parte do resultado econômico da criação, conseguir manter animais durante 90 dias somente com a forragem produzida no sistema, água e sal mineral ajuda a dimensionar o potencial da tecnologia — sem perder de vista que se trata de resultado experimental e que a própria Embrapa continua trabalhando para aperfeiçoar o modelo.

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