Irracionalidade no caso da carne fraca, alguém ficou doente?

Por Dr. Drauzio Varella, Folha de S. Paulo

“Doutor, o senhor viu que esses caras colocam papelão e ácido ascórbico na salsicha”, disse o taxista que me trouxe de Cumbica.

Há quatro dias, fora do país, eu estava a par do teor das declarações feitas por um delegado da Polícia Federal, mas desconhecia as repercussões populares da denúncia.

Consegui explicar que o ácido ascórbico não era uma substância corrosiva, mas a prosaica vitamina C. Quanto ao papelão nos embutidos, minha descrença não foi suficiente para convencê-lo.

No final, ele sentenciou:

“Não é à toa que o povo diz: ‘O peixe morre pela boca’.”

A analogia com os seres humanos está justificada, de fato, no caso dos que ingerem mais calorias do que necessitam para cobrir as exigências energéticas do organismo. Como a evolução nos ensinou a não desprezar nem uma caloria sequer, aquelas em excesso serão armazenadas sob a forma de gordura.

Em tempos de mesa farta, comer ad libitum deu origem à epidemia de obesidade que assola diversos países, inclusive o nosso. Estão acima do peso saudável pelo menos 52% dos brasileiros adultos.

Mas, descontados os excessos alimentares que a longo prazo nos matam de doenças do coração, derrames cerebrais, diabetes e câncer, mortes pela boca não costumam ocorrer com mulheres e homens modernos, mais afeitos aos óbitos por complicações cardiovasculares e oncológicas.

Primeiro, porque descendemos de ancestrais sobreviventes das epidemias de fome que nos assolam desde que descemos das árvores nas savanas da África, cerca de 6 milhões de anos atrás. Durante milênios disputamos com urubus, hienas e outros carnívoros as carcaças dos animais encontrados pelo caminho.

É quase certo que muitos tenham perdido a vida ao ingerir toxinas resultantes do processo de putrefação e bactérias que se multiplicam em tecidos mortos. No entanto, conseguiram escapar com vida e levar vantagem reprodutiva aqueles dotados de defesas naturais capazes de neutralizar substâncias nocivas e combater os germes ingeridos.

Por mecanismo darwiniano de competição e seleção natural, deles herdamos a competência e a versatilidade de nosso sistema imunológico.

Depois da Segunda Guerra Mundial, os avanços da agropecuária e da tecnologia de armazenagem permitiram levar a grandes massas populacionais alimentos de alto valor nutritivo. Pela primeira vez na história da humanidade os bolsões de fome ficaram restritos às regiões mais miseráveis.

Segundo, porque os países desenvolveram medidas rígidas de controle sanitário da cadeia alimentar, capazes de impedir que cheguem à mesa produtos deteriorados ou com contaminantes capazes de colocar a vida em risco. As desobediências a essas regras se tornaram exceções.

A reação imediata ao pronunciamento do delegado responsável pelas investigações transformou um simples caso de corrupção de alguns fiscais e empresários numa ameaça à saúde pública com repercussões internacionais, porque somos muito atentos à qualidade e à procedência dos alimentos que levamos para casa.

A mais improvável suspeita de contaminação química ou bacteriológica levantada por um boato qualquer se dissemina pelos meios eletrônicos com a velocidade da luz.

As histórias da “vaca louca”, do leite com formol e do “Toddynho assassino” são exemplos recentes.

No caso da carne, a queda imediata nas vendas aconteceram sem que ninguém se dignasse a fazer a pergunta mais elementar numa situação como essa: “Alguém ficou doente?” “Alguém engasgou com o papelão ou teve o esôfago corroído pelo ácido ascórbico?”

Se uma pessoa ao menos tivesse se intoxicado ou perdido a vida, a Polícia Federal teria mantido em sigilo a investigação por dois anos, sem agir para evitar outras vítimas?

Essa questão da carne vermelha, que tantos prejuízos tem causado às exportações e ao mercado interno num dos raros setores da economia que resistia à crise econômica, demonstra como é irracional o comportamento da sociedade diante de boatos e ameaças falsas que envolvem a alimentação.

A abordagem de um tema dessa importância, pelos meios de comunicação de massa, exige responsabilidade e análise criteriosa das possíveis consequências. Não é tarefa para principiantes.

Reproduzido da Folha de S. Paulo

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