Pesquisa da USP acompanhou propriedades rurais do Rio Grande do Sul e identificou maior estabilidade produtiva em áreas que combinaram diferentes culturas e plantas de cobertura
A diversificação de culturas pode fazer diferença na produtividade agrícola mesmo diante de condições climáticas severas. Uma pesquisa da Universidade de São Paulo (USP), realizada em 13 propriedades comerciais do Rio Grande do Sul, identificou lavouras com rendimentos até 76% superiores à média estadual durante três safras marcadas por estiagens e chuvas extremas.
O levantamento, desenvolvido pelo Centro de Estudos de Carbono em Agricultura Tropical (CCARBON), comparou sistemas agrícolas com diferentes níveis de diversidade vegetal entre 2022 e 2025. Nas áreas menos diversificadas, o rendimento ficou apenas 8% acima da média do estado, com oscilações de produtividade entre 33% e 39%. Continue a leitura e acompanhe o Compre Rural, onde informação de qualidade ajuda a fortalecer quem vive e produz no campo.
Diversificação de culturas fez diferença em três safras extremas
Os pesquisadores acompanharam áreas cultivadas com soja, milho, trigo e canola, associadas a espécies de cobertura como aveia, centeio, ervilhaca, milheto e nabo-forrageiro.
O período permitiu observar o comportamento das lavouras sob condições contrastantes. Nas safras 2022/2023 e 2024/2025, a precipitação chegou a ficar 54% abaixo dos padrões históricos. Já em 2023/2024, o volume de chuva superou a média em até 40%.
Para compreender os resultados, a equipe avaliou 78 amostras de solo, considerando características químicas, físicas e biológicas. A pesquisa foi conduzida no âmbito do trabalho de mestrado de Viviana Meneghini, sob orientação do professor Maurício Roberto Cherubin, da Esalq-USP.
Os resultados foram divulgados em artigo publicado on-line em outubro de 2026 na revista científica Agriculture, Ecosystems & Environment.
Raízes e microrganismos ajudam o solo a armazenar água
Um dos principais resultados foi a relação entre diversidade vegetal e capacidade de armazenamento de água.
O estudo identificou que sistemas com diferentes espécies favorecem a formação de canais naturais no solo, conhecidos como bioporos. Essas estruturas surgem principalmente da atividade das raízes e facilitam a circulação de água e o crescimento radicular das culturas seguintes.
A atividade dos microrganismos também contribui para a ciclagem de nutrientes e para a manutenção das funções biológicas do solo.
O benefício foi observado inclusive em terrenos com menor teor de argila, indicando que o manejo pode contribuir para melhorar a disponibilidade hídrica mesmo em condições físicas menos favoráveis.
Essa relação entre qualidade do solo e resistência à estiagem também aparece em estudos sobre indicadores de manejo do solo para avaliação do risco climático na soja.
Nem mesmo a diversificação elimina os prejuízos climáticos
Apesar dos resultados positivos, a pesquisa também revelou limitações importantes.
Durante as enchentes de 2024, 44% dos agricultores que adotavam sistemas diversificados precisaram modificar o planejamento agrícola. O excesso de umidade e os atrasos na colheita levaram parte deles a substituir plantas de cobertura pelo trigo comercial, buscando recuperar receitas.
O episódio demonstra que melhorar a estrutura do solo não elimina os impactos de desastres climáticos de grande intensidade.
Para os produtores, os resultados reforçam a importância de planejar a rotação de culturas, preservar a cobertura vegetal e acompanhar a qualidade física e biológica das áreas produtivas.
A adoção dessas estratégias exige considerar as características de cada propriedade, as condições de plantio e o custo de implantação. Experiências brasileiras com manejo conservacionista em solos arenosos também demonstram a importância de adaptar as práticas agrícolas ao ambiente.
A pesquisa acrescenta evidências sobre o papel da biodiversidade vegetal na agricultura de sequeiro, especialmente em regiões sujeitas à alternância entre períodos de escassez e excesso de chuvas.
O próximo desafio é transformar esse conhecimento em estratégias economicamente viáveis, capazes de manter a produtividade sem comprometer o planejamento das safras.
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ℹ️ Conteúdo publicado pela estagiária Ana Gusmão sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira
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