Leite de camela vira “ouro branco”, atrai o agro mundial e promete ser mais nutritivo que o de vaca

Das fazendas tecnológicas do Oriente Médio às cadeias leiteiras emergentes da África e da Ásia, o leite de camela deixa de ser tradição regional e passa a ocupar espaço no mercado global de alimentos funcionais

O leite de camela está deixando de ser uma curiosidade consumida em regiões desérticas para se transformar em um dos produtos mais observados pelo agronegócio mundial. Chamado por produtores e entusiastas de “ouro branco”, o alimento movimenta uma cadeia que combina tradição pastoril, tecnologia de ordenha, processamento industrial e apelo nutricional em mercados cada vez mais atentos a alternativas ao leite de vaca.

Enquanto o Brasil ainda associa produção leiteira principalmente a bovinos, caprinos e búfalos, países da África, do Oriente Médio e da Ásia avançam em uma frente pouco conhecida por aqui: a pecuária leiteira de camelos. Segundo a FAO, os camelos são criados para produção de leite na África e na Ásia, e a população global desses animais supera 41 milhões de cabeças. A entidade também aponta que o Quênia é o maior produtor mundial de leite de camela, seguido por Somália e Paquistão.

Essa cadeia, antes muito ligada ao consumo local, passou a ser vista como oportunidade comercial. Documento do Codex Alimentarius, ligado à FAO e à OMS, informa que a produção global de leite cru de camela chegou a 4,116 milhões de toneladas em 2022, com liderança de Quênia, Somália e Paquistão. O mesmo material destaca que o avanço do comércio internacional aumenta a necessidade de padrões de qualidade, segurança e rotulagem.

O que torna o leite de camela diferente do leite de vaca

A fama de produto premium vem principalmente da composição nutricional. Revisões científicas indicam que o leite de camela possui teores relevantes de proteínas, minerais, vitamina C e compostos bioativos. Uma análise publicada na base científica PMC aponta que o leite de camela pode conter 3,0 a 7,5 mg de vitamina C por 100 g, contra 0,8 a 2 mg por 100 g no leite bovino.

Outro ponto que desperta interesse é a lactose. O leite de camela ainda contém lactose, portanto não deve ser tratado como “zero lactose”. Porém, estudos de composição mostram variação de 3,3% a 5,8% de lactose no leite de camela, enquanto o leite de vaca aparece na faixa de 4,8% a 4,9%. Isso ajuda a explicar por que o produto é divulgado como alternativa para parte dos consumidores sensíveis ao leite bovino, embora pessoas com intolerância devam avaliar a tolerância individual e buscar orientação profissional.

Fazendas de leite de camela viram indústria de alta tecnologia

Leite de camela vira "ouro branco", atrai o agro mundial e promete ser mais nutritivo que o de vaca
Saudita tira leite de camela. Foto: ©Eric Lafforgue/Hans Lucas/AFP

O salto mais impressionante está no modelo de produção. Em países como Emirados Árabes Unidos, Arábia Saudita, Somália e Quênia, a imagem do camelo como animal apenas nômade vem sendo substituída por estruturas com ordenha mecanizada, controle sanitário, nutrição planejada e processamento industrial.

A Camelicious, marca dos Emirados Árabes Unidos, informa que nasceu após pesquisas iniciadas em 2003, com unidade concluída em 2006, e opera com mais de 6 mil camelos em uma estrutura integrada de produção de leite de camela.

Na Somália, a modernização também ganhou escala. Reportagem da Associated Press mostrou que a Beder Camel Farm, próxima a Mogadíscio, aumentou a produtividade com assistência veterinária, melhor alimentação e práticas higiênicas de ordenha. Segundo a fazenda, cada camela chega a produzir até 10 litros por dia, o dobro do rendimento associado a métodos tradicionais.

Por que o leite de camela virou artigo de luxo

O mercado internacional descobriu no leite de camela uma combinação rara: produto exótico, narrativa de origem, perfil nutricional diferenciado e aplicação em categorias de maior valor agregado, como leite pasteurizado, pó, iogurtes, bebidas fermentadas, sorvetes e até cosméticos.

Relatório da Grand View Research estimou o mercado global de produtos de leite de camela em US$ 14,3 bilhões em 2024, com projeção de chegar a US$ 24 bilhões até 2030, crescimento anual médio de 9,4% entre 2025 e 2030. O Oriente Médio e a África concentraram 58,9% da receita global em 2024.

Esse avanço reforça a leitura de que o produto não compete apenas por volume, mas por valor. O leite de camela entra em um território parecido com o de outros alimentos premium: menor escala, preço mais alto, forte apelo de diferenciação e consumidores dispostos a pagar por atributos funcionais.

Leite de camela é mesmo mais nutritivo?

A resposta mais segura é: em alguns nutrientes, sim; em outros, não necessariamente. O leite de camela se destaca por vitamina C, minerais, proteínas específicas e ausência de beta-lactoglobulina, uma proteína associada a alergias ao leite bovino. Documento do Codex também cita maior presença de beta-caseína e características que podem favorecer digestibilidade em comparação ao leite bovino.

Por outro lado, a composição varia conforme raça, alimentação, manejo, região, estação do ano e fase de lactação. Portanto, chamar o leite de camela de “mais nutritivo que o de vaca” exige cuidado jornalístico. O correto é afirmar que ele pode ser mais rico em determinados componentes, especialmente vitamina C e alguns compostos bioativos, mas não substitui automaticamente o leite bovino em todos os critérios nutricionais.

Uma nova fronteira para a pecuária em regiões áridas

O crescimento do leite de camela também tem relação com mudanças climáticas e adaptação produtiva. Em regiões secas, camelos são valorizados por suportarem calor, escassez de água e longos períodos de pastagem limitada. Isso faz do animal uma alternativa estratégica para áreas onde a bovinocultura sofre com estiagens severas.

A Organização das Nações Unidas declarou 2024 como o Ano Internacional dos Camelídeos, justamente para destacar o papel desses animais na segurança alimentar, na renda de comunidades rurais e no uso sustentável de ecossistemas áridos e semiáridos.

O “ouro branco” ainda é nicho, mas cresce rápido

Apesar do entusiasmo, o leite de camela ainda está longe de ser uma commodity global como o leite de vaca. A produção depende de rebanhos específicos, manejo especializado, logística refrigerada e padrões sanitários consistentes. Além disso, parte importante do consumo ainda ocorre em mercados locais e informais.

Mesmo assim, a direção é clara: o leite de camela está passando de tradição regional para produto global de alto valor. Para o agronegócio, o fenômeno mostra que a próxima grande oportunidade pode não estar apenas em produzir mais do mesmo, mas em transformar culturas alimentares antigas em cadeias modernas, rastreáveis e rentáveis.

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ℹ️ Conteúdo publicado pela estagiária Ana Gusmão sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira

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