Maciez e sabor: Garantia de qualidade da carne Angus

Raça conquista criadores do Sudeste e Centro-Oeste que buscam aliar maciez da carne Angus à adaptabilidade do zebu.

Uma carne de qualidade, macia, saborosa e com garantia de procedência. Estas são, atualmente, as características mais procuradas pelos consumidores. A carne da raça Angus atende plenamente estes requisitos, figurando entre as melhores do mundo. Os animais destacam-se por terem excelente fertilidade, precocidade, longevidade, rusticidade e facilidade de parto, além de alto índice de marmoreio.

As carcaças com espessura de gordura entre 3 e 6 milímetros, estabelecida como padrão ideal pela Associação Brasileira de Angus (ABA) para conquistar o carimbo de padrão de acabamento dado pelo Programa Carne Angus Certificada em 2003, são um exemplo. Progressivamente, o Carne Angus foi ganhando destaque entre os criadores gaúchos e logo se estendeu a outros estados, como Paraná e São Paulo, fiel retrato do crescimento da preferência pela raça. Segundo o gerente do programa, Fernando Velloso, o Frigorífico Mercosul, no Rio Grande do Sul, foi o pioneiro no abate do gado Angus com certificação. “No início, o abate de Angus do Mercosul representava apenas 7% do total de animais. Hoje, este índice está na faixa de 23%”.

Desde que foi criado, o programa evoluiu e foi ingressando progressivamente nas regiões Sudeste e Centro-Oeste, onde se concentra o maior número de cabeças de gado do país, com predominância da raça Nelore. O aumento da procura pela raça ocorreu por meio dos cruzamentos industriais. Assim, buscouse aliar características diferentes em prol de uma carne saborosa, mas com volume suficiente para distribuição no Brasil e (por que não?) no exterior. Dos zebuínos, buscou-se a adaptabilidade ao clima tropical e rusticidade, a tolerância ao calor e a alta conversão alimentar. Dos europeus Aberdeen Angus, a qualidade de carne e o alto índice de marmoreio, além da facilidade de parto e precocidade.

Este cruzamento consiste em inseminar o sêmen de touros Angus em vacas Nelore, o que resulta em animais com melhor acabamento e maior precocidade em relação ao zebuíno, além da facilidade de adaptação ao clima da região central – característica que os Angus não conseguiriam sozinhos. O bezerro contém 50% de sangue de cada uma das raças e uma carcaça com a possibilidade de superar 500 kg. Mas para manter um padrão de qualidade, a ABA faz algumas exigências em relação ao animal meio-sangue Angus abatido no Centro-Oeste. Por ser meio-sangue zebuíno, é obrigatório que o animal seja abatido mais jovem. O animal pode atingir no máximo dois dentes, em torno de 18 a 20 meses. “Temos feito muitas degustações deste produto do Centro- Oeste e é de altíssima qualidade por ser de gado de cruza Angus e superjovem”, diz Velloso. Em contrapartida, os animais no Rio Grande do Sul, como são quase puros, podem ser abatidos com até quatro dentes e idade ao redor de dois anos e meio.

Presidente da ABA, Joaquim Mello: “A melhor propaganda é a de boca em boca”

Retrato fiel deste crescimento na procura pela raça nas maiores praças de gado de corte no país são os números do último relatório oficial da Associação Brasileira de Inseminação Artificial (Asbia). De acordo com a pesquisa referente a 2008, a raça Aberdeen Angus contabilizou 1,047 milhão de doses no ano passado, 20% acima em relação a 2007. Hoje a raça representa 25% do mercado nacional. Segundo o presidente da ABA, Joaquim Francisco Bordagorry de Assumpção Mello, o trabalho da Associação no sentido de fomentar a utilização da raça fez com que a venda de sêmen atingisse esta marca. “O resultado satisfatório por parte dos criadores é o principal motivo para aumentar a venda de sêmen Angus pelo país. Não adianta ter toda uma estrutura de trabalho se os resultados não são satisfatórios. A melhor propaganda é a de boca em boca”, destaca Mello. Ele acrescenta que o trabalho para aumentar a produção é o de cada vez mais fomentar a raça através de palestras técnicas, convênios com companhias de inseminação, dias de campo e concursos de carcaça.

Raça registrou mais de 1 milhão de doses de sêmen comercializadas em 2008

Um dos motivos que influenciaram o aumento na procura por sêmen Angus foram os sinais de melhora no setor pecuário, que possibilitaram ao pecuarista investir em animais de maior qualidade. Houve casos de centrais de inseminação que chegaram a registrar incremento superior a 30% no ano passado. A vantagem, segundo especialistas, é que o meio-sangue Angus produz entre 20% e 25% a mais do que um anelorado. Além disso, a necessidade de terminar o animal mais cedo em função do alto custo da terra e da diminuição no número de matrizes também é fator determinante.

Estudos endossam que a carne Angus é mais macia em relação a outras raças. A docente da Universidade de São Paulo (USP) em Pirassununga, Angélica Pereira, elaborou sua tese de doutorado a partir de testes comparativos de progênie com a inseminação do sêmen de um touro da raça Brahman, 14 Nelore e mais dois da raça Aberdeen Angus em 400 vacas comerciais da raça Nelore.

Meio-sangue Angus produz de 20% a 25% mais que um anelorado

O desmame dos animais ocorreu em torno dos 260 dias e os machos dessa progênie foram castrados aos 483 dias de idade. Estes animais foram pesados e submetidos às mesmas condições ambientais (recriados em sistema extensivo até aproximadamente 16 a 19 meses). Posteriormente, os bovinos foram confinados na Usina Vale do Rosário, em Orlândia/SP, e os 306 animais foram divididos em oito lotes (quatro lotes de fêmeas e quatro lotes de machos). Os exemplares foram confinados com idade média de 18 a 19 meses, por aproximadamente quatro meses, recebendo rações com alto teor de concentrado (bagaço de canade- açúcar cru e hidrolisado, milho e soja).

Ao final das experiências, Angélica pôde constatar que houve superioridade dos animais cruzados em relação aos zebuínos puros quanto a algumas características de qualidade da carne, principalmente maciez.
Parcerias de sucesso

Após o lançamento do Programa Carne Angus Certificada, e depois de verem os resultados, alguns frigoríficos perceberam que havia um mercado em potencial para o meiosangue Angus e começaram a investir nos produtos destas criações. Em 2007, o frigorífico Marfrig lançou o “Programa Marfrig Fomento Pecuária” para financiar o pecuarista a entregar animais de acordo com as exigências do mercado: acabamento no mínimo mediano e animais precoces, sendo com zero dente inteiro e até dois dentes para castrados e fêmeas. O programa só iniciou efetivamente em outubro do ano passado com a Inseminação Artificial por Tempo Fixo (IATF) e convencional com sêmen Angus PO em mais de 30 mil vacas Nelore. O gerente de Fomento Pecuária do Marfrig, Luciano de Andrade, espera obter ao redor de 20 mil cabeças com este primeiro programa.

Inicialmente foram cadastrados aproximadamente 50 pecuaristas com bom nível gerencial, sendo a maioria dos estados de Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e São Paulo. Cada produtor disponibilizou entre 250 e 500 cabeças para inseminação. “Nossa intenção é ‘pulverizar’ o programa e trabalhar com o produtor de porte médio. Não queremos grandes criadores que possam inseminar até 5 mil cabeças, pois corremos o risco de ficarmos dependentes dele”, explica Andrade.

A escolha dos pecuaristas obedeceu a um critério rígido. Segundo Andrade, o Marfrig aceitou criadores com capacidade de inseminar no mínimo cem vacas para compensar os custos de logística e frete. “Eles não podem constar na lista de trabalho escravo e responder a processos por crimes ao meio ambiente”, acrescenta o gerente do Marfrig. Outra exigência foi a assinatura de um contrato de três vias para evitar possíveis complicações, ficando uma cópia com o frigorífico, outra com o criador e uma terceira com o médico veterinário responsável por avaliar a propriedade antes do fechamento do contrato.

Uma das vantagens da parceria é o bônus recebido pelo criador ao entregar os animais para abate. O Marfrig garante um valor indexado com o da arroba Esalq/Cepea mais 15% para o bezerro, a fêmea e a novilha no valor do boi gordo; e o novilho no valor do boi gordo mais 3,5%. “Queremos valorizar estes criadores que seguiram corretamente o programa e renovar o contrato a cada ano. Em outubro ou novembro, quando acontece nova inseminação, o produtor estará autorizado a renovar o contrato”, garante. Conforme Andrade, a ideia é fazer o cruzamento somente entre Angus e Nelore e, futuramente, aumentar o número de animais financiados para até 1,5 mil exemplares por pecuarista.

Fonte: Churrasco Nobre.

Bônus pago pelos frigoríficos incentiva investimento na raça

O Marfrig comercializa o produto para churrascarias que oferecem cortes nobres, restaurantes de alta gastronomia e casas especializadas. “Para que possamos oferecer um produto de qualidade, precisamos de carcaças que possam atender plenamente as necessidades do nosso cliente”, comenta Andrade. Além do mercado interno, o frigorífico exporta o produto com o selo da ABA, estando, inclusive, habilitado para vender à Europa. Para conseguir ampliar as vendas externas, o Marfrig pretende rastrear a carne meio-sangue Angus, informando a procedência, data de nascimento e vacinação dos animais.

A crescente preferência de pecuaristas pela raça e dos consumidores pela carne de Aberdeen Angus impulsionou a formação de outras parcerias com a indústria no país. Além dos grandes frigoríficos, como Mercosul e Marfrig, os criadores podem contar com a VPJ Beef, de Goiás, que recebe os animais meio-sangue Angus fornecidos pela VPJ Pecuária. A desossa e a distribuição acontecem em São Paulo. O Grupo VPJ conquistou a certificação da ABA após cumprir uma série de etapas de acompanhamento e qualificação do processo de produção.

Aumento da preferência de criadores pela raça fez surgir novas parcerias

A parceria funciona de forma semelhante ao programa do frigorífico Marfrig. A VPJ Pecuária fecha uma parceria com os produtores, que adquirem o sêmen de touros Angus a preço subsidiado e se comprometem a entregar os animais desmamados ou prontos para serem abatidos, desde que sejam comprovadamente meio-sangue Angus. A propriedade disponibiliza 12 touros que ficam na Central Bela Vista, localizada no município de Pardinho, em São Paulo, onde é feita a coleta de sêmen. A inseminação, por sua vez, é realizada na VPJ Pecuária, localizada em Nova Crixás/GO.

A VPJ Pecuária garante a compra de 100% dos exemplares a um valor entre 5% e 10% acima da cotação na região. Somente em Goiás, a inseminação atinge entre 15 e 20 mil vacas, sendo que o programa fica próximo de 30 mil ventres Nelore. De acordo com o médico veterinário e gerente-geral de Pecuária da VPJ Pecuária, Adriano Oliveira, o sêmen utilizado é oriundo dos touros da própria fazenda, onde o trabalho de seleção já supera 15 anos. A VPJ iniciou a compra de sêmen nos Estados Unidos e no Canadá, mas o trabalho de seleção continua ainda hoje com a importação do produto dos EUA e também da Argentina.

O trabalho para selecionar os melhores animais é feito com base nos marcadores de DNA, que mostram através dos genes quais as possibilidades de produção de um touro ou uma vaca, e a DEP (Diferença Esperada na Progênie), que permite analisar o desempenho de cada bezerro ou novilha e selecionar os touros que passaram características acima da média. “Toda esta análise vai permitir saber se o meio-sangue poderá ter a qualidade exigida pelo mercado”, destaca Oliveira. A demanda pela carne da VPJ Beef é crescente. O crescimento no ano passado foi de 30% em relação a 2007. “Há cinco anos esta situação era completamente diferente, pois os frigoríficos se recusavam a aceitar este produto. Porém, a partir da criação de uma cadeia sólida e da comprovação de que a carne tem uma qualidade diferenciada, houve um “boom” do cruzamento industrial no país que não parou mais”, explica o gerente da VPJ Pecuária. O mercado de venda de sêmen da VPJ também apresentou um crescimento de 30% em 2008 quando comparado com o ano anterior.

“Comercializamos um corte de picanha Angus Prime entre 950 gramas e 1,1 kg a um valor de R$ 47,00 o quilo e há demanda para absorver uma produção ainda maior”, salienta. O mercado atendido inicialmente foi o de restaurantes, entretanto grandes redes de supermercados também mostraram interesse pelos cortes de carne de qualidade. A VPJ Beef atende, além dos restaurantes, a rede Wall-Mart, o Supermercado Muffatto, no Paraná, e casas especializadas em carnes nobres localizadas em São Paulo e Rio de Janeiro.
No Rio Grande do Sul, o Frigorífico Nossa Senhora da Gruta, localizado em Herval, aderiu ao programa Carne Angus Certificada no final do ano passado. O frigorífico apresenta outro perfil em relação aos demais, pois comercializa carne 100% Angus, é de menor porte e o proprietário possui uma casa especializada em cortes de carne da raça em Porto Alegre. Através do Programa Reprodutivo da Gruta são comprados touros Angus e repassados para 78 produtores da região do município. Outra forma de seleção da matériaprima é através da compra de novilhos Angus de propriedades criadoras da raça no Rio Grande do Sul.

De olho no mercado

A ABA incentiva esta mudança. “O programa deixou de ser exclusivamente gaúcho com uma única indústria para atender outros estados, e a consequência é que passou a ter uma dimensão maior. Além disso, houve uma mudança no perfil dos parceiros, deixando de atender apenas grandes frigoríficos para trabalhar também com outros de caráter particular”, salienta Velloso. Hoje, há entre 20 e 25 pontos de comercialização de carne Angus certificada no país.

A demanda pela carne Angus está aquecida no Rio Grande do Sul, São Paulo e Rio de Janeiro. “Tornamos o produto mais disponível para diferentes consumidores. Hoje São Paulo e Rio de Janeiro têm públicos com muito interesse em consumir esta carne de qualidade, que é considerada elitizada. E, com isso, houve uma nova forma de se relacionar com estes frigoríficos, como os diferentes índices de bonificação”, comenta Velloso. Ele cita que nos Estados Unidos, por exemplo, há mais de 40 marcas da carne Angus e todas contam com a certificação do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA, em inglês). “A ABA está caminhando na mesma direção, porém numa dimensão menor. Os Estados Unidos são uma referência para todos”, acrescenta.

Fernando Velloso: “O programa Carne Angus Certificada deixou de ser exclusivamente gaúcho”

Velloso tem como referência a grande disponibilidade nas gôndolas do produto importado do Uruguai e da Argentina, mesmo a um preço superior em relação ao nacional. “Isto significa que há uma lacuna na demanda, pois ainda é competitivo trazer produto do exterior similar ao vendido aqui. E se ocuparmos uma parte do mercado deste produto importado será um grande ganho.”

Susana Salvador destaca resultados do investimento em genética

Susana Salvador, presidente do Conselho Técnico da ABA, explica que a qualidade do produto final é resultado de um amplo investimento em genética. Há quatro anos foi criado o Conselho Técnico da Angus com o objetivo de fornecer informações objetivas das progênies. O conselho, formado por criadores e técnicos, divulga um sumário anual dos touros jovens aprovados nos padrões exigidos pela ABA. “Um grande campeão em uma feira ou exposição só é escolhido quando a progênie é aprovada, e o sumário é a ferramenta número um para apontar a melhor genética”, resume Susana.

Fonte: (Revista AG, Agosto/Setembro)

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