Raça originária dos Alpes suíços chama atenção pela divisão perfeita das cores, mas também possui aptidão para carne, produção de cabritos e manejo de áreas montanhosas
A cabra Valais Blackneck parece ter sido pintada exatamente pela metade. Da cabeça até a região central do corpo, a pelagem é intensamente preta; dali para trás, torna-se branca. O contraste é tão definido que alcança até os cascos: os dianteiros são escuros e os traseiros, claros. A aparência, porém, não é apenas uma curiosidade visual. Trata-se de uma raça suíça de montanha criada há gerações no cantão de Valais e utilizada principalmente para produção de carne, criação de cabritos e manejo de terrenos íngremes.
Conhecida oficialmente como Walliser Schwarzhalsziege, ou cabra de pescoço preto do Valais, a raça combina pelagem longa, grandes chifres, rusticidade e capacidade de caminhar por ambientes montanhosos. São características que ajudaram o animal a permanecer ligado à pecuária tradicional dos Alpes suíços.
Divisão entre preto e branco faz parte do padrão da raça
O contraste impressionante não acontece aleatoriamente. O padrão utilizado pelos criadores determina que a transição entre a porção preta e branca ocorra na região da última costela, próximo ao centro do corpo.
Na avaliação dos animais, são toleradas variações de apenas cerca de 3 centímetros em relação ao ponto considerado ideal. A separação deve permanecer bem definida, sem uma mistura excessiva das duas cores.
Na frente, cabeça, pescoço, tórax, membros e cascos apresentam pigmentação preta. Já na parte posterior predominam os pelos brancos, incluindo os membros traseiros.
Além da divisão da pelagem, machos e fêmeas apresentam chifres, outro elemento marcante do padrão racial. A pelagem é longa e pode chegar muito próxima ao solo em alguns exemplares.
Cabra Valais Blackneck é criada principalmente para carne
Apesar da aparência ornamental, a raça possui utilização produtiva.
A organização suíça ProSpecieRara, que atua na conservação de raças tradicionais, classifica como principais usos da Valais Blackneck a produção de carne e o manejo da paisagem. Entre os objetivos de seleção também aparece uma boa capacidade de engorda dos animais.
Programas de criação utilizados na Alemanha descrevem a Valais Blackneck como uma cabra robusta, de maturação relativamente tardia e capaz de manter bom desempenho para carne mesmo em sistemas extensivos de alimentação e criação.
Os cabritos apresentam potencial de crescimento relevante. Um programa oficial alemão para a raça informa ganhos próximos de 200 gramas por dia durante as primeiras 12 semanas de vida.
Na própria Suíça, o acompanhamento da raça dá grande importância ao desempenho dos cabritos. Isso acontece justamente porque, diferentemente das grandes raças leiteiras suíças, a Valais Blackneck é normalmente mantida com os filhotes junto às mães.
Ela produz leite? Sim, mas essa não é sua principal função atualmente
Como qualquer cabra criada para alimentar seus cabritos, a fêmea produz leite. Há inclusive registros zootécnicos mostrando que a raça possui uma produção que poderia ser aproveitada.
A Associação de Criadores de Caprinos de Baden-Württemberg, na Alemanha, apresenta uma referência de aproximadamente 500 quilos de leite em 200 dias, com cerca de 3,8% de gordura e 2,8% de proteína, números atribuídos a dados suíços.
Uma referência acadêmica sobre raças caprinas também descreve valores na faixa de 380 a 400 quilos de leite em aproximadamente 200 dias para pequenas raças suíças, entre elas a Valais Blackneck.
Esses números, contudo, precisam ser interpretados com cuidado.
Na criação suíça moderna, a Valais Blackneck normalmente não é ordenhada comercialmente. A Federação Suíça de Criadores de Caprinos informa explicitamente que a maioria dos animais não passa por ordenha e, por isso, a raça é submetida principalmente à avaliação do desenvolvimento dos cabritos, e não ao controle leiteiro típico das raças especializadas.
Isso também aparece nas estatísticas oficiais de 2025. A Valais Blackneck não está entre as raças apresentadas na tabela suíça de lactação padrão, que acompanha animais especializados ou utilizados mais regularmente para produção leiteira.
Portanto, ela produz leite, mas sua importância econômica atual está muito mais associada à produção de cabritos, carne e outros usos da propriedade do que à atividade leiteira intensiva.

Cabra Valais Blackneck ajuda a aproveitar áreas de difícil acesso
Outra função importante da cabra Valais Blackneck ocorre praticamente sem passar por uma indústria: o próprio pastejo.
A raça é considerada extremamente segura ao se movimentar em terrenos montanhosos. Nas regiões do Valais, pode acessar encostas e áreas inclinadas nas quais outros sistemas de criação encontram maior dificuldade.
Ao consumir vegetação nessas áreas, os animais ajudam no controle de arbustos e na manutenção de paisagens abertas, transformando vegetação existente em alimento e contribuindo para o manejo de áreas rurais.
A ProSpecieRara coloca justamente “manejo da paisagem” ao lado da produção de carne entre os principais usos da raça.
Esse tipo de utilização acrescenta uma função econômica e ambiental à criação, especialmente em propriedades alpinas onde mecanizar determinadas áreas pode ser difícil ou caro.
Pelagem impressiona, mas não deve ser confundida com lã comercial
A quantidade de pelos da Valais Blackneck chama tanta atenção quanto sua coloração.
O animal apresenta pelagem longa por praticamente todo o corpo, com pelos também abundantes na região do peito, cabeça e faces. Em exemplares selecionados, a cobertura pode se estender quase até o chão.
Mas existe uma diferença importante: pelagem longa não significa necessariamente produção comercial de fibra.
Nas fontes oficiais suíças consultadas, a pelagem da Valais Blackneck é descrita principalmente como uma proteção contra vento e condições climáticas adversas. A própria Federação Suíça alerta que esses pelos exigem cuidados específicos dos criadores.
Não há indicação oficial de que a raça seja criada para produção de fibras equivalentes ao mohair da cabra Angorá ou ao cashmere.
Por isso, apesar de ser possível encontrar usos artesanais de peles de caprinos, seria incorreto apresentar a Valais Blackneck como uma raça cuja principal fonte de renda está na venda dos pelos. Carne, criação, conservação genética, manejo de áreas e turismo possuem respaldo documental muito mais consistente.

Aparência também se transformou em atração turística
Uma característica que não entra diretamente na balança da produção rural pode agregar valor à criação: a própria aparência.
A ProSpecieRara informa que muitos exemplares são mantidos atualmente por criadores tradicionais e também aparecem em parques de animais e atividades ligadas ao turismo local.
Não é difícil entender o motivo. Os grandes chifres, os pelos compridos e a divisão quase geométrica entre preto e branco tornam o animal altamente reconhecível.
Em propriedades que trabalham com agroturismo, visitas, educação ambiental ou preservação de raças, essa característica pode se transformar em um diferencial adicional, embora não seja possível estabelecer um valor econômico único para esse uso.
Genética explica parte da aparência incomum
A coloração da Valais Blackneck também já chamou a atenção da ciência.
Um estudo publicado na revista PLOS Genetics analisou características genéticas relacionadas à coloração de diferentes raças caprinas e incluiu a Valais Blackneck entre os animais estudados.
Os pesquisadores observaram que a região posterior branca apresenta um padrão associado à ausência de melanócitos, células responsáveis pela produção de pigmentação, nessa parte da pele. Isso ajuda a explicar por que o branco aparece de forma tão intensa, em vez de representar simplesmente pelos de outra tonalidade.
A seleção feita por sucessivas gerações de criadores ajudou a conservar justamente os animais nos quais essa divisão ocorre no ponto considerado ideal pelo padrão da raça.
População registrada caiu na Suíça em 2025
Apesar de facilmente reconhecível, a raça representa uma população relativamente pequena dentro da criação caprina suíça.
O relatório estatístico mais recente da Federação Suíça de Criadores de Caprinos registra 1.461 animais Valais Blackneck no livro genealógico em 2025. Em 2024 eram 1.530.
Isso representa 69 animais a menos, uma redução aproximada de 4,5% em um ano.
A diferença se torna ainda maior quando observado um período mais longo. Em 2015, o livro genealógico registrava 1.999 exemplares. Dez anos depois, eram 1.461, uma queda de cerca de 27%.
Os dados não representam necessariamente todas as cabras existentes no mundo, mas mostram a evolução da população oficialmente registrada pela entidade suíça responsável pelo livro genealógico.
Em relação à reprodução, 827 fêmeas registradas tiveram crias em 2025, resultando em 1.014 cabritos nascidos, média próxima de 1,2 filhote por parto registrada pela própria federação.
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ℹ️ Conteúdo publicado pela estagiária Ana Gusmão sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira
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