Morte de 240 novilhas Braford expõe risco de intoxicação no pasto após seca; vídeo

Caso registrado na Argentina teve suspeita de intoxicação por nitratos em azevém; episódio evidencia um risco que também exige atenção dos pecuaristas brasileiros

A morte de 240 novilhas Braford em uma propriedade próxima a Curuzú Cuatiá, na província de Corrientes, na Argentina, revelou uma ameaça que pode passar despercebida em períodos de escassez de alimento: a presença de compostos tóxicos na própria forragem. Os animais, com peso entre 220 e 240 quilos, estavam em uma área de azevém, e a principal hipótese divulgada foi de intoxicação por nitratos, em um contexto de seca severa. O episódio foi noticiado no início de julho de 2023, e não corresponde a uma ocorrência recente.

O caso ajuda a compreender por que os efeitos da estiagem sobre a pecuária vão além da redução da oferta de pasto. Sob determinadas condições, o estresse hídrico compromete o crescimento das plantas e favorece o acúmulo de nitratos. Assim, uma área implantada para aliviar a falta de alimento pode exigir avaliação técnica antes de receber o rebanho, especialmente quando há histórico de seca e adubação nitrogenada.

Um lote inteiro afetado e prejuízo milionário

Os relatos publicados à época situavam a propriedade a aproximadamente 12 quilômetros de Curuzú Cuatiá. O estabelecimento reunia cerca de 900 bovinos, mas a mortandade informada estava concentrada no lote de 240 novilhas de reposição.

As perdas foram estimadas em mais de 24 milhões de pesos argentinos, em valores de 2023. O montante correspondia às avaliações divulgadas naquele momento e não deve ser apresentado como prejuízo calculado a preços atuais.

Além do valor dos animais, a perda de fêmeas destinadas à reposição pode comprometer o planejamento de uma fazenda de cria. A recomposição do plantel demanda recursos e tempo, enquanto a retirada dessas futuras matrizes altera a expectativa de produção de bezerros.

Apesar da compatibilidade entre o cenário descrito e a intoxicação por nitratos, as notícias consultadas não apresentam um laudo conclusivo sobre a causa das 240 mortes. A suspeita foi divulgada como hipótese, condição que precisa ser preservada ao relatar o episódio.

Por que o pasto pode acumular nitratos

O nitrato faz parte da nutrição vegetal. Em condições favoráveis, as plantas absorvem esse composto e o utilizam na formação de proteínas. O problema aparece quando condições adversas reduzem a capacidade de crescimento e de utilização do nitrogênio, permitindo seu acúmulo nos tecidos vegetais.

Seca, danos por geada e outros fatores de estresse podem favorecer esse processo. A concentração também depende da espécie forrageira, da disponibilidade de nitrogênio e das condições de manejo.

Em comunicado publicado em 21 de junho de 2023, antes da divulgação da mortandade em Curuzú Cuatiá, o Instituto Nacional de Tecnologia Agropecuária da Argentina, o INTA, já abordava esse risco:

“As condições particulares deste ano podem ter gerado acúmulo de nitratos nos recursos forrageiros”, informou o instituto, em tradução livre.

A orientação destacava que as maiores concentrações podem estar nos colmos e na base das plantas, especialmente em estágios iniciais de desenvolvimento.

Como a intoxicação afeta os bovinos

Nos ruminantes, os microrganismos do rúmen transformam nitrato em nitrito. Quando a ingestão é excessiva, o nitrito pode se acumular e alterar a hemoglobina, formando meta-hemoglobina, que tem capacidade reduzida de transportar oxigênio.

O resultado é um quadro de falta de oxigenação dos tecidos. Os animais podem apresentar respiração acelerada, fraqueza, tremores, dificuldade para caminhar e colapso, com possibilidade de morte nos casos graves.

A ocorrência depende da concentração presente no alimento, da quantidade consumida e das condições dos animais. Por isso, a confirmação exige avaliação veterinária e investigação laboratorial; a presença de bovinos mortos em uma pastagem, isoladamente, não estabelece o diagnóstico. Análises de amostras dos animais podem ajudar a esclarecer a causa.

A volta da chuva exige atenção

A chuva após uma estiagem não significa que a forragem esteja imediatamente liberada para consumo. A recuperação do crescimento vegetal leva tempo, e o risco pode permanecer no período inicial após o retorno das precipitações.

Uma orientação técnica da Universidade de Nebraska, publicada em maio de 2026, reforça que o risco de intoxicação pode ser elevado durante a seca ou logo após as chuvas que interrompem a estiagem. A instituição recomenda analisar as forragens sob estresse antes do pastejo ou da colheita.

Esse cuidado também vale para alimentos conservados. Transformar a forragem em feno não elimina de forma confiável os nitratos. Portanto, o histórico da área precisa acompanhar a avaliação do alimento, mesmo depois do corte e do armazenamento.

O que o produtor brasileiro pode aprender com o caso

Para propriedades brasileiras que utilizam azevém, aveia e outras forrageiras sujeitas ao acúmulo de nitratos, o episódio argentino oferece uma referência sobre a importância de associar planejamento alimentar e avaliação sanitária.

Entre os cuidados respaldados pelas orientações técnicas estão:

  • Analisar a forragem antes de utilizá-la, sobretudo após seca e em áreas com maior disponibilidade de nitrogênio.
  • Avaliar, com assistência técnica, a necessidade de adiar o pastejo quando houver suspeita de concentração elevada.
  • Evitar pastejo excessivamente baixo, que aumenta o consumo da base das plantas.
  • Não considerar o feno produzido em uma área sob estresse automaticamente seguro.
  • Diante de dificuldade respiratória ou colapso após o consumo, acionar imediatamente o médico-veterinário, evitando movimentação desnecessária dos animais.

A morte das novilhas em Curuzú Cuatiá permanece como um episódio de grande impacto, cuja causa foi tratada nas fontes consultadas como suspeita de intoxicação. Para o pecuarista, a lição prática é incorporar o risco de nitratos à avaliação de pastagens sob estresse: a disponibilidade de alimento precisa ser acompanhada da verificação de sua segurança para o rebanho.

Quer ficar por dentro do agronegócio brasileiro e receber as principais notícias do setor em primeira mão? Para isso é só entrar em nosso grupo do WhatsApp (clique aqui) ou Telegram (clique aqui). Você também pode assinar nosso feed pelo Google Notícias.

Siga o Compre Rural no Google News e acompanhe nossos destaques.
RESUMIR COM:
LEIA TAMBÉM
NEWSLETTER COMPRERURAL

Receba as nossas
principais notícias

Conteúdo sobre o agronegócio, direto no seu e-mail.

🔒 Não enviamos spam. Você pode cancelar quando quiser.