MP denuncia empresa por ração contaminada que matou cavalos avaliados em mais de R$ 82,5 milhões

Denúncia aponta falhas no controle da matéria-prima e presença de substâncias altamente tóxicas na alimentação dos animais; Ministério Público pede bloqueio de bens para garantir eventual reparação do prejuízo milionário

Um dos episódios sanitários mais graves já registrados na equinocultura brasileira ganhou um novo e importante capítulo. O Ministério Público de Alagoas (MPAL) denunciou a Nutratta Nutrição Animal e dois de seus responsáveis pela morte de 80 cavalos da raça Mangalarga Marchador no Haras Nova Alcatéia, em Atalaia (AL). O prejuízo atribuído somente às perdas no criatório ultrapassa R$ 82,5 milhões.

A dimensão do caso, entretanto, vai além da cifra milionária. Os animais integravam um trabalho de mais de 50 anos de criação e seleção genética, o que transforma a perda em algo difícil de recompor apenas financeiramente: morreram indivíduos que carregavam combinações genéticas construídas ao longo de gerações e que poderiam continuar produzindo descendentes dentro do plantel.

Segundo a denúncia apresentada pela 2ª Promotoria de Justiça de Atalaia, as mortes estão relacionadas ao fornecimento das rações NutriMax e Forragem Horse. O promotor Ary Lages Filho também requereu à Justiça o sequestro e a indisponibilidade de bens móveis e imóveis, ativos financeiros e participações societárias da empresa e dos denunciados, buscando assegurar patrimônio para uma eventual reparação dos danos.

É importante destacar que se trata de uma denúncia do Ministério Público, que ainda deverá ser apreciada pelo Judiciário. A responsabilização criminal definitiva depende do andamento do processo, com direito de defesa aos denunciados.

Cavalos apresentaram sinais neurológicos e insuficiência hepática

O que chamou atenção desde os primeiros episódios foi a gravidade e a semelhança dos sinais apresentados pelos animais.

De acordo com as informações reunidas na investigação, os cavalos desenvolveram sintomas como letargia, ataxia, marcha em círculos, compressão da cabeça, cegueira e insuficiência hepática. Laudos mencionados pelo MP apontam falência orgânica compatível com intoxicação alimentar.

A investigação ganhou respaldo técnico de alcance nacional. Em julho de 2025, o próprio Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) informou que análises realizadas pelos Laboratórios Federais de Defesa Agropecuária haviam detectado alcaloides pirrolizidínicos, incluindo monocrotalina, nas amostras investigadas.

Segundo o Ministério, essas substâncias estão associadas a plantas do gênero Crotalaria e são incompatíveis com a segurança da alimentação animal.

Como uma planta tóxica teria chegado à ração

Esse é um dos pontos centrais para compreender a dimensão do episódio.

As investigações conduzidas pelo Mapa apontaram que a contaminação ocorreu por falhas no controle da matéria-prima, que continha resíduos de plantas do gênero Crotalaria. Esses vegetais podem conter alcaloides pirrolizidínicos, entre eles a monocrotalina.

De acordo com o órgão federal, essas substâncias não são permitidas na formulação de rações. Sua presença pode ocorrer pelo emprego indevido de matérias-primas ou pela contaminação de ingredientes autorizados.

O problema é especialmente grave porque os compostos identificados são hepatotóxicos. O Mapa explica que eles podem provocar danos ao fígado e seus efeitos variam conforme fatores como dose ingerida, duração da exposição e condição do animal.

No caso levado agora pelo MPAL à Justiça, as informações reunidas no processo apontam que a origem estaria relacionada a resíduo de soja contaminado utilizado no processo produtivo. A fiscalização também teria encontrado problemas de armazenamento, falta de segregação de matérias-primas e deficiências no controle da produção.

Tragédia de Alagoas fazia parte de um problema muito maior

Os 80 animais do Haras Nova Alcatéia representam uma das maiores perdas concentradas conhecidas no episódio, mas não foram os únicos cavalos atingidos.

Em 23 de julho de 2025, o Mapa atualizou oficialmente para 284 o número de equinos mortos após o consumo de rações fabricadas pela Nutratta. Na ocasião, o Ministério manteve a suspensão total da fabricação de rações pela empresa até que fossem comprovadas as correções das irregularidades identificadas pela fiscalização.

Antes disso, o órgão já havia investigado propriedades em Minas Gerais, São Paulo, Rio de Janeiro e Alagoas. Um dado particularmente relevante para estabelecer a relação epidemiológica chamou atenção dos técnicos: nas propriedades investigadas, os equinos que adoeceram ou morreram haviam consumido os produtos investigados, enquanto animais que não ingeriram as rações permaneceram saudáveis, mesmo alojados nos mesmos ambientes.

O Ministério classificou o episódio como inédito em sua história. Em julho de 2025, o secretário de Defesa Agropecuária, Carlos Goulart, afirmou que nunca havia sido identificada anteriormente pelo órgão a presença daquela substância em ração para equinos.

Mapa chegou a determinar recolhimento nacional

A resposta regulatória começou antes mesmo da conclusão de todas as análises.

Em junho de 2025, o Mapa determinou o recolhimento em todo o território nacional dos produtos destinados a equídeos fabricados pela Nutratta a partir de 21 de novembro de 2024.

Com o avanço da investigação e a identificação de novas irregularidades, as medidas foram ampliadas.

Em julho daquele ano, o Ministério informou que havia instaurado processo administrativo fiscalizatório, lavrado auto de infração e ampliado a suspensão cautelar inicialmente aplicada às rações para equídeos para alcançar produtos destinados a todas as espécies animais.

Na atualização de 23 de julho, o Mapa informou ainda que uma decisão judicial que havia permitido parcialmente a retomada da fabricação e comercialização de rações não destinadas a equídeos tinha sido revogada, fazendo voltar a valer a suspensão total imposta pelo órgão.

Por que 80 cavalos podem representar R$ 82,5 milhões?

O valor chama atenção, mas precisa ser compreendido dentro da realidade econômica da criação de animais de genética superior.

Em um criatório especializado, o patrimônio não é calculado simplesmente pelo número de cavalos existentes. Pedigree, desempenho próprio, produção dos descendentes, capacidade reprodutiva, valorização comercial e raridade genética podem fazer determinados indivíduos atingirem cifras muito superiores à média do mercado.

No caso do Haras Nova Alcatéia, o próprio histórico do plantel pesa nessa avaliação. Segundo o MPAL, trata-se de um trabalho de mais de cinco décadas dedicado à seleção do Mangalarga Marchador.

Isso significa que a morte de uma matriz ou reprodutor não elimina apenas o valor comercial daquele animal. Pode interromper também uma linhagem planejada, futuros acasalamentos, produção de embriões, coberturas, participação em exposições e a geração de descendentes que sustentariam economicamente o projeto nos anos seguintes.

É justamente essa característica que torna perdas envolvendo plantéis de seleção genética diferentes de uma simples avaliação baseada no preço médio de um cavalo.

MP aponta crimes ambiental e contra as relações de consumo

Na nova etapa judicial do caso, o MPAL aponta possível enquadramento por crime ambiental, com base no artigo 56 da Lei nº 9.605/1998, e por crime contra as relações de consumo, previsto no artigo 7º, inciso IX, da Lei nº 8.137/1990.

O pedido de indisponibilidade patrimonial também mostra a dimensão econômica que o processo assumiu.

Caso seja acolhida pela Justiça, a medida busca preservar bens que possam responder por eventual reparação futura. Isso não significa, contudo, condenação antecipada: tanto as acusações quanto os valores e responsabilidades ainda estão sujeitos à apreciação judicial.

Caso expôs um ponto crítico da alimentação de cavalos

Mais do que uma disputa judicial envolvendo um criatório e uma fabricante, o episódio tornou-se um marco para a discussão sobre rastreabilidade e controle de matérias-primas na indústria de alimentação animal.

Em cadeias de alta genética, nas quais um único animal pode concentrar valor econômico significativo, uma falha aparentemente localizada em um ingrediente pode gerar consequências irreversíveis.

O caso também mostrou a importância de preservar lotes e embalagens quando surgem suspeitas de intoxicação, interromper rapidamente o fornecimento do alimento suspeito e buscar avaliação veterinária e comunicação aos órgãos oficiais. Em investigações desse tipo, rastrear qual produto foi consumido, seu lote, data de fabricação e origem pode ser determinante para estabelecer a causa do problema.

Desde 2025, portanto, o episódio deixou de ser apenas a história da morte de cavalos valiosos. Tornou-se um caso de alcance nacional envolvendo 284 mortes oficialmente confirmadas pelo Mapa, medidas sanitárias contra uma fabricante de alimentação animal e, agora, uma denúncia criminal relacionada especificamente à perda de 80 Mangalarga Marchador e a um prejuízo superior a R$ 82,5 milhões em Alagoas.

Para a equinocultura brasileira, o desfecho judicial será acompanhado de perto. Afinal, além da responsabilização pelos animais perdidos, o processo coloca no centro da discussão algo essencial para qualquer criação profissional: a confiança de que aquilo que entra no cocho seja seguro, rastreável e produzido dentro dos padrões exigidos para alimentação animal.

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