MPT investiga desaparecimento de trabalhador rural em fazenda na divisa entre MT e Pará

Trabalhador sumiu há mais de duas décadas enquanto atuava na região de Novo Progresso; documentos do processo agora serão analisados pelo Ministério Público do Trabalho sob a ótica dos direitos humanos.

Mais de duas décadas depois do desaparecimento de trabalhador rural Antônio Carlos Godoi dos Santos, ocorrido em 2003 durante uma atividade profissional na região amazônica, o caso ganhou uma nova frente de apuração. O Tribunal Regional do Trabalho de Mato Grosso encaminhou informações ao Ministério Público do Trabalho para que possíveis violações de direitos humanos ligadas ao episódio sejam examinadas.

A movimentação não significa que o desaparecimento tenha ocorrido recentemente. O fato que trouxe o episódio novamente à discussão em 2026 foi a decisão do TRT-MT de levar o conjunto de informações ao MPT, ampliando o alcance de um processo que, até então, vinha sendo discutido principalmente na esfera da responsabilidade trabalhista.

Caso ocorrido em 2003 volta às autoridades

Antônio Carlos trabalhava nas proximidades de Novo Progresso, no Pará, quando deixou de ser visto. A filha dele, ainda criança na época, levou a história à Justiça do Trabalho anos depois, por meio de ação apresentada em 2021.

O processo reuniu elementos sobre as condições encontradas naquela região no início dos anos 2000. Os autos descrevem uma área marcada por disputas de terra, violência e exploração clandestina de madeira, cenário considerado de elevado risco para quem trabalhava no local.

A documentação também levou o Tribunal a considerar que os acontecimentos poderiam ter uma dimensão maior do que a reparação individual solicitada pela família.

Desaparecimento de trabalhador rural será analisado pelo MPT

A remessa das informações foi formalizada pelo Ofício 252/2026, assinado pelo presidente do TRT-MT, desembargador Aguimar Peixoto. O material foi destinado à chefia regional do Ministério Público do Trabalho com solicitação de análise pela unidade especializada em acompanhamento de obrigações relacionadas aos direitos humanos no trabalho.

Entre os pontos considerados relevantes estão relatos sobre a contratação de trabalhadores socialmente vulneráveis por intermediários e episódios graves envolvendo pessoas que exerciam atividades naquela região. O Tribunal também menciona dificuldades enfrentadas para esclarecer os fatos ao longo dos anos.

Um dos obstáculos foi a perda de registros policiais produzidos após o desaparecimento. De acordo com as informações encaminhadas ao MPT, parte dessa documentação foi destruída durante um incêndio posteriormente tratado como suspeito.

Trator entrou no centro da apuração

Outro elemento considerado pela Justiça diz respeito ao equipamento que Antônio Carlos operava.

Após o trabalhador desaparecer, houve mobilização para recuperar o trator utilizado no serviço, enquanto o processo apontou ausência de uma atuação equivalente para localizar Antônio Carlos ou oferecer suporte imediato à família.

Na época, a cooperativa chegou a registrar ocorrência apontando o próprio trabalhador como responsável pelo desaparecimento da máquina.

Anos depois, porém, um relatório produzido pelo Ministério Público do Pará em 2005 apresentou uma conclusão diferente: o documento apontou que Antônio Carlos teria morrido durante o trabalho depois de ter sido acusado injustamente de furtar o equipamento. Segundo as informações do processo, não houve naquele momento uma nova investigação capaz de esclarecer definitivamente as circunstâncias da morte.

Justiça determinou indenização à filha

A responsabilização também avançou na Justiça do Trabalho.

A 2ª Vara do Trabalho de Tangará da Serra condenou uma cooperativa e o proprietário rural envolvidos no processo ao pagamento de R$ 150 mil por danos morais, além de pensão mensal à filha de Antônio Carlos.

Posteriormente, a 2ª Turma do TRT de Mato Grosso manteve a condenação. Os réus recorreram ao Tribunal Superior do Trabalho e, conforme a atualização divulgada em 12 de agosto de 2026, o recurso ainda aguardava julgamento no TST.

A morte presumida de Antônio Carlos só foi reconhecida judicialmente em 2021, aproximadamente 18 anos após seu desaparecimento.

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ℹ️ Conteúdo publicado pela estagiária Ana Gusmão sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira

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