Nova ureia faz milho produzir 29% mais em experimento de campo

Pesquisa com 12 tratamentos registrou produtividade de 9,84 toneladas por hectare com ureia revestida de biocarvão biologicamente ativado e maior eficiência de uso do nitrogênio; aplicação no Brasil ainda depende de testes locais

O desafio de produzir mais milho sem aumentar proporcionalmente o uso de fertilizantes ganhou uma nova perspectiva científica. Pesquisadores testaram diferentes formulações de ureia revestida com biocarvão, material rico em carbono produzido a partir de biomassa vegetal, e observaram ganhos na produtividade e no aproveitamento do nitrogênio.

No tratamento de melhor desempenho, a produção alcançou 9,84 toneladas por hectare, contra 7,63 toneladas com ureia convencional. A diferença corresponde a aproximadamente 29% mais milho, em condições experimentais de campo. Os resultados foram publicados na revista científica Discover Plants, da Springer Nature.

O avanço não esteve associado simplesmente à aplicação de uma quantidade maior de fertilizante. Os pesquisadores modificaram a formulação nitrogenada com um revestimento de biocarvão biologicamente ativado, buscando melhorar sua interação com o solo e com a planta.

Além do ganho produtivo, a formulação apresentou eficiência calculada de uso do nitrogênio de 74,4%, enquanto a ureia convencional registrou 47,6%.

Para a agricultura brasileira, o resultado abre uma discussão relevante sobre produtividade, adubação e custos. Entretanto, a tecnologia ainda exige validação: o experimento foi realizado em Bangladesh, sob condições específicas de solo, clima e manejo.

Como foi realizado o experimento

O estudo foi conduzido por pesquisadores ligados à Patuakhali Science and Technology University, em Bangladesh, com participação de instituições da Austrália e dos Países Baixos.

Intitulado Role of biochar coated and blended nitrogen fertilizers on maize yield and nitrogen use efficiency, o artigo foi publicado em 27 de agosto de 2026. O experimento de campo ocorreu entre janeiro e maio de 2023.

A pesquisa avaliou 12 tratamentos, incluindo formulações revestidas, misturas de fertilizantes com biocarvão, ureia convencional e uma testemunha sem adubação. O delineamento utilizou blocos casualizados, com três repetições por tratamento, totalizando 36 parcelas experimentais.

A comparação permitiu avaliar tanto a resposta ao fertilizante quanto as diferenças entre as formas de preparação do biocarvão.

Ganho equivale a quase 37 sacas por hectare

A ureia revestida com biocarvão biologicamente ativado apresentou o melhor desempenho entre os tratamentos avaliados.

TratamentoProdutividade de milho
Ureia revestida com biocarvão biologicamente ativado9,84 t/ha
Ureia convencional7,63 t/ha
Testemunha sem fertilização3,58 t/ha

A diferença entre a formulação de melhor desempenho e a ureia convencional foi de 2,21 toneladas por hectare, equivalente a aproximadamente 36,8 sacas de 60 quilos.

Os números mostram que o fornecimento de nutrientes foi decisivo em relação à testemunha sem adubação. Também indicam que a formulação do fertilizante influenciou a resposta produtiva, mesmo com o fornecimento de nutrientes ajustado entre os tratamentos fertilizados.

Esse ganho dimensiona o resultado do experimento, mas não representa uma estimativa de aumento de produção para propriedades brasileiras.

O que é o biocarvão usado no revestimento

O biocarvão, também conhecido como biochar, é produzido pelo aquecimento de biomassa em condições de disponibilidade limitada de oxigênio, processo denominado pirólise.

Dependendo da matéria-prima e das condições de fabricação, o material pode apresentar elevada porosidade e características superficiais capazes de favorecer a interação com nutrientes.

No estudo, os pesquisadores utilizaram resíduos de madeira provenientes de serraria. Após a carbonização, prepararam diferentes versões do biocarvão, incluindo tratamentos químicos, modificações com elementos minerais e ativação biológica.

Foi a versão biologicamente ativada, utilizada no revestimento dos grânulos de ureia, que apresentou o melhor resultado.

Como ocorreu a ativação biológica

Os pesquisadores obtiveram microrganismos de amostras de solos de diferentes ambientes, incluindo áreas agrícolas, florestais e pastagens. Esse material foi utilizado para inocular o biocarvão.

Depois, o produto recebeu nutrientes e permaneceu em incubação por 15 dias, sob condições controladas de temperatura e umidade.

A etapa buscou modificar as características do material antes de sua utilização no revestimento da ureia. Nas condições avaliadas, essa combinação apresentou desempenho superior ao fertilizante convencional.

A forma de combinar os materiais fez diferença

Para preparar o revestimento, os pesquisadores utilizaram uma proporção de dez partes de ureia para uma parte de biocarvão, além de amido e óleo de soja como componentes auxiliares.

O processo formou uma camada ao redor dos grânulos. Essa estratégia difere da simples mistura do biocarvão ao fertilizante para produzir um grânulo composto.

Os resultados indicaram que as formulações revestidas apresentaram, em conjunto, desempenho superior às preparadas por mistura. A resposta reforça que o comportamento agronômico depende também da maneira como os materiais são combinados.

Eficiência do nitrogênio aumentou 26,8 pontos percentuais

Além da produtividade, o estudo encontrou diferença expressiva no indicador de eficiência de uso do nitrogênio.

Com ureia convencional, o índice foi de 47,6%. Na formulação revestida de biocarvão biologicamente ativado, alcançou 74,4%, uma diferença de 26,8 pontos percentuais.

O cálculo relaciona o aumento da absorção de nitrogênio pelas plantas fertilizadas, em comparação à testemunha sem fertilização, com a quantidade do nutriente aplicada.

Esse método não rastreia diretamente o destino de cada unidade de nitrogênio do fertilizante. Por utilizar diferenças de absorção entre tratamentos, também não separa completamente o nutriente proveniente do produto daquele disponibilizado pelo solo.

Ainda assim, a comparação aponta maior aproveitamento agronômico do nitrogênio nas condições do ensaio.

Por que o revestimento pode melhorar o desempenho

A ureia é uma das fontes nitrogenadas mais utilizadas na agricultura, favorecida pela elevada concentração de nitrogênio e pela competitividade econômica.

Após a aplicação, porém, passa por transformações químicas e biológicas no solo. Dependendo do ambiente e do manejo, parte do nitrogênio pode ser perdida por volatilização de amônia, lixiviação de nitrato e desnitrificação.

A intensidade desses processos depende de fatores como umidade, temperatura, pH, textura do solo, matéria orgânica e forma de aplicação.

Uma das hipóteses apresentadas pelos pesquisadores é que o revestimento tenha favorecido uma liberação mais gradual do nitrogênio, aproximando sua disponibilidade dos períodos de maior demanda do milho.

Há, contudo, uma limitação importante: o estudo não mediu diretamente todas as rotas de perda do nutriente durante o ciclo. Por isso, a redução das perdas deve ser tratada como uma hipótese explicativa, ainda dependente de investigações adicionais.

Espigas maiores contribuíram para a produtividade

A formulação de melhor desempenho também apresentou respostas positivas em componentes relacionados à produção de grãos.

Entre os resultados observados estavam:

  • Altura média das plantas: aproximadamente 202,7 centímetros;
  • Comprimento médio das espigas: 19,12 centímetros;
  • Número médio de grãos por espiga: aproximadamente 589;
  • Massa de mil grãos: 332,7 gramas.

Esses indicadores ajudam a explicar o aumento da produtividade. A resposta envolveu tanto o desenvolvimento das plantas quanto características associadas à formação e ao enchimento dos grãos.

O resultado ainda precisa ser validado no Brasil

O experimento ocorreu em um solo com pH de aproximadamente 7,98, classificado como franco-argilo-siltoso, com cerca de 41% de argila, 35% de silte e 24% de areia. A área também apresentava baixo teor de carbono orgânico.

Essas características diferem das encontradas em muitos ambientes de produção brasileiros. No Cerrado, por exemplo, os solos são frequentemente ácidos e altamente intemperizados, com outras condições de retenção e transformação dos nutrientes.

O comportamento do revestimento pode mudar conforme o solo, o clima e o manejo. Assim, o aumento de 29% não pode ser transferido automaticamente para lavouras de Mato Grosso, Goiás, Paraná ou Minas Gerais.

A pesquisa demonstra potencial agronômico. Para orientar uma recomendação nacional, seriam necessários experimentos em condições representativas das regiões produtoras.

Mais produtividade não garante menor custo

Para o produtor, o interesse econômico dependerá de uma questão central: o benefício obtido precisa compensar o custo adicional da formulação.

A preparação do biocarvão biologicamente ativado exige etapas de produção, tratamento microbiológico e incubação. O revestimento da ureia também acrescenta operações ao processo industrial.

O estudo não apresentou uma avaliação econômica completa para demonstrar quanto custaria utilizar o fertilizante em escala comercial brasileira.

A análise de rentabilidade precisaria considerar:

  • Preço da formulação por unidade de nitrogênio;
  • Custos de transporte e aplicação;
  • Eventuais operações adicionais;
  • Produtividade efetivamente obtida;
  • Preço recebido pelo milho;
  • Consistência da resposta em diferentes safras.

Sem essas informações, não é possível afirmar que a tecnologia reduzirá o custo de produção por hectare. O resultado demonstrado foi de maior produtividade e eficiência agronômica nas condições experimentais avaliadas.

O estudo não permite recomendar menos nitrogênio

Outro ponto importante é que o ensaio não foi desenhado para definir uma redução da dose de adubação.

As formulações foram ajustadas para fornecer quantidades equivalentes de nutrientes entre os tratamentos fertilizados. A dose de referência foi de 225 quilos de nitrogênio por hectare.

Portanto, o ganho decorreu da comparação entre formulações, sem demonstrar quanto seria possível reduzir a dose mantendo a produtividade.

Uma recomendação de economia de fertilizante exigiria estudos específicos com diferentes doses, realizados em ambientes representativos das regiões produtoras.

O que falta para chegar às lavouras comerciais

O experimento foi conduzido em uma única localidade, durante um ciclo de cultivo, com parcelas experimentais relativamente pequenas.

Antes de avaliar a adoção comercial, será necessário verificar a repetibilidade dos resultados em diferentes solos, condições climáticas e safras.

Também precisam ser investigadas a estabilidade do revestimento durante armazenamento, transporte e aplicação mecanizada, além da possibilidade de produzir o biocarvão biologicamente ativado em grandes volumes com qualidade uniforme.

Para o produtor brasileiro, a pesquisa indica uma frente de inovação relevante: melhorar o aproveitamento dos nutrientes por meio das características físicas, químicas e biológicas do fertilizante.

O ganho de 29% observado no ensaio é expressivo. Seu valor prático dependerá de confirmação em outros ambientes e de uma avaliação econômica que demonstre a competitividade da tecnologia.

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