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Novidades sobre o monitoramento do consumo e composição de dieta sólida por bezerras leiteiras

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Foto Divulgação.

Um dos grandes desafios dos produtores é mensurar o consumo de concentrado pelos bezerros. Esta é uma tarefa que demanda tempo e exige uma balança no bezerreiro.

POR CARLA MARIS MACHADO BITTAR

Por outro lado, esta é uma informação importante pois determina o momento adequado para o desaleitamento. Além disso, permite avaliar a qualidade do concentrado no que se refere a sua aceitação, que consequentemente afeta também o desempenho dos animais em aleitamento, assim como seus efeitos no período subsequente.

Sabemos que animais mal preparados do ponto de vista de desenvolvimento ruminal terão menor desempenho após o desaleitamento, muitas vezes resultando em perdas do investimento realizado quando se adota aleitamento intensivo. Muitos trabalhos trataram deste tema durante a última reunião anual da American Dairy Science Association.

O trabalho de Liang e colaboradores da Texas Tech University, avaliou a relação entre medidas do consumo de concentrado diárias, duas ou três vezes na semana com o consumo semanal de concentrado. Dados de 180 bezerros em aleitamento de dois experimentos foram utilizados. Os animais foram aleitados com 700g/d de sucedâneo e tinham acesso livre ao concentrado inicial peletizado ou texturizado. Todos os animais foram desaleitados aos 56 dias de vida. O consumo foi medido diariamente e foram calculadas médias de consumo semanal para cada bezerro.

Os dados foram então utilizados para as análises de regressão de forma a se estimar o consumo semanal através de medidas de consumo diárias, duas ou três vezes na semana. Os coeficientes de determinação foram de 0,923, 0,955 e 0,966 para medidas diárias, duas ou três vezes na semana, respectivamente. Os dados indicam que medidas feitas uma vez por semana podem ser utilizadas para estimar o consumo semanal. Embora o trabalho mostre que esta medida tem alta correlação com o consumo semanal, sabemos que o consumo de concentrado é bastante variável e facilmente afetado por problemas de saúde do animal.

Assim, a aplicação disso no campo deve ser feita com cautela.

Estudo da estimativa do consumo de concentrado também está sendo desenvolvido por Daley e colaboradores para compor as novas equações de consumo do NRC. As equações foram desenvolvidas e avaliadas usando dados individuais de estudos conduzidos na Universidade de Illinois (UI: 1973 observações de 448 bezerros, PV inicial = 42 ± 4,4 kg) e da Universidade de São Paulo/ESALQ (USP: 3050 observações de 527 bezerros, PV inicial = 37 ± 5,4 kg).

Cada conjunto de dados foi dividido em dois subconjuntos (60% para desenvolvimento, 40% para avaliação das equações). Os animais da Universidade de Illinois receberam maior quantidade de sucedâneo que os da Universidade de São Paulo (761 vs 574 g/d). Os modelos mostraram melhor acurácia após 3 semanas de consumo de concentrado. O modelo da UI explicou em torno de 65% da variação observada, com um viés de -86g/d; enquanto o modelo da USP explicou 59% com um viés de -47g/d. Os dois modelos fizeram predição do consumo de concentrado de maneira acurada e podem servir como diretrizes para avaliação e estimativa do consumo de concentrado por bezerros leiteiros.

A menor predição do modelo da USP se deve provavelmente a diferenças na genética, manejo e condições climáticas de animais criados no Brasil. A inclusão de dados de animais criados em clima tropical e em diferentes sistemas de alojamento e manejo alimentar aumentará a acurácia das estimativas feitas pela nova edição do NRC e possibilitará a revisão das exigências em nutrientes de animais em aleitamento.

A equipe da Provimi, liderada por Jim Quigley, apresentou um trabalho muito interessante reavaliando as estimativas do conteúdo energético de dietas sólidas pelo NRC. No NRC de 2001 estas estimativas estão baseadas em equações que estimam a digestibilidade verdadeira de carboidratos não-fibrosos (CNF), proteína bruta (PB), ácidos graxos e FDN de cada componente da dieta. Os nutrientes digestíveis totais (NDT) e a energia digestível e metabolizável (EM) são então calculadas a partir destas frações com correções e ajustes necessários. Embora esta abordagem seja adequada para animais adultos, pode levar a erros quando calcula-se a EM de concentrados iniciais de bezerros.

A digestão de nutrientes, particularmente de amido e FDN, é baixa em bezerros jovens consumindo pequenas quantidades de concentrado e com o rúmen pouco desenvolvido. A digestibilidade no trato total (DTT) de FDA e FDN em bezerros consumindo mais que 0,8kg de concentrado é 50% menor que as estimativas em bezerros consumindo menos que esta quantidade de sucedâneo até por volta de 12-13 semanas. Embora o consumo de concentrado aumente rapidamente após o desaleitamento, a menor capacidade de digerir nutrientes do concentrado pode explicar as reduções nas taxas de crescimento logo após o desaleitamento de animais em aleitamento intensivo.

O conteúdo em nutrientes dos concentrados também pode afetar a DTT. Bezerros que recebem concentrado texturizado com mais de 41% de amido tem menor digestão de FDA e FDN na semana seguinte ao desaleitamento que animais que recebem concentrado peletizado com 10% de amido, provavelmente devido ao menor pH ruminal e redução na digestão de fibra. Os autores calcularam a EM do concentrado de bezerros de 0 a 16 semanas utilizando dados de DTT de três estudos. Os bezerros receberam diferentes volumes de sucedâneo, além água e concentrado fornecidos à vontade. A DTT do FDN, CNF e da matéria seca total do concentrado inicial aumentou com maior consumo de CNF.

A EM calculada em concentrados de bezerros aleitados com mais de 0,8kg/d de sucedâneo (maior consumo de concentrado) foi menor que aquela observada para animais que receberam <0,8 kg/d de sucedâneo (maior consumo de concentrado). O consumo de CNF respondeu por 70% da variação da EM calculada. A EM calculada foi menos que 75% daquela calculada pelo NRC quando bezerros consumiram 0,2 kg/d de CNF e 98% quando bezerros consumiram 1kg/d de CNF.

A capacidade do bezerro em extrair energia do concentrado se altera com a idade e com o desenvolvimento ruminal e depende do consumo de CNF. Programas alimentares que atrasam o consumo de CNF podem reduzir a EM dos concentrados, o que certamente afetará o desempenho de bezerros durante e após o desaleitamento. Equações utilizando o consumo de CNF podem aumentar a acurácia das estimativas de EM no concentrados para bezerros.

A equipe da Provimi (Dennis et al., 2018) apresentou também um trabalho mostrando os efeitos da composição do concentrado, usando combinações de processamento de milho e farelo de soja by-pass, no desempenho de bezerros leiteiros. Os pesquisadores compararam 4 concentrados:

1) Milho inteiro (MI) com farelo de soja convencional (FS);
2) MI com mistura de 55:45 de FS e SoyPass (SP);
3) Milho floculado (MF) com FS;
4) MF com mistura de FS e SP.

Os concentrados foram texturizados e tinham a seguinte composição: 35% de milho, 35% de peletes da fonte de proteína, 27% de aveia inteira e 3% de melaço. Os concentrados foram formulados para terem as mesmas concentrações de proteína (20%), amido (44%) e FDN (17%). Os bezerros receberam 0,66 kg/d de sucedâneo (26% de PB, 18% gordura) até 39 dias de idade e 0,33 kg/d por mais três dias quando foram desaleitados. No período de aleitamento (0-42d) o maior aumento na largura de garupa foi observado para bezerros alimentados com MI+FS (3,2 vs. 2,8 cm; P < 0,05). Após o desaleitamento (d 43–56), o consumo do concentrado foi maior (2,08 vs. 1,95 kg/d; P < 0,05) para bezerros que receberam milho inteiro em comparação ao milho floculado.

Provavelmente devido as menores variações no pH ruminal quando se fornece amido de menor taxa de degradação. Não foram observadas outras diferenças no desempenho dos animais. No entanto, a digestibilidade do FDN foi menor para bezerros que receberam milho floculado tanto no período de aleitamento (33 vs. 48%) quanto após o desaleitamento (46 vs. 51%; P < 0,05).

Como esperado, as digestibilidades de matéria orgânia, PB e gordura foram maiores no aleitamento, enquanto as digestibilidades de FDN e FDA foram maiores após o desaleitamento (P < 0,05). Corroborando estudos anteriores, este estudo mostrou que o maior processamento de milho e o fornecimento de farelo de soja by-pass não melhoraram o desempenho ou a digestibilidade da dieta para bezerros com menos de 2 meses de idade.

Por outro lado, a associação de grãos processados com diferentes sistemas de aleitamento podem afetar o desempenho dos animais. Van Niekerk e colaboradores avaliaram como o programa de aleitamento (convencional vs. intensivo) e a taxa de fermentação ruminal de amido (alta vs. baixa) podem afetar o desempenho, a digestibilidade de nutrientes e os parâmetros de fermentação. Foram avaliadas 4 diferentes dietas oferecidas para 48 bezerros:

1) Aleitamento convencional (0,749 kg/d) e concentrado com milho inteiro (C-MI);
2) Aleitamento convencional (0,749 kg/d) e concentrado com milho floculado (C-MF);
3) Aleitamento intensivo (1,498 kg/d) e concentrado com milho inteiro (I-MI);
4) Aleitamento intensivo (1,498 kg/d) e concentrado com milho floculado (I-MF).

Os bezerros foram desaleitados através da redução para 50% do volume da dieta líquida fornecida a partir da semana 6. Os bezerros em aleitamento intensivo tiveram maior ganho de peso (P ≤ 0,001) que bezerros em aleitamento convencional durante as semanas 2, 3, 4 e 5; no entanto, na semana 7 o ganho de peso foi menor devido à redução no volume de leite associada com o menor consumo de concentrado.

Uma vez que o consumo de concentrado é sempre inversamente relacionado com o volume de dieta líquida fornecida, a não ser que o desaleitamento seja muito bem realizado, espera-se redução no desempenho no período de transição. Os bezerros em aleitamento intensivo e recebendo milho floculado apresentaram maior ganho de peso diário (0,71 kg/d) que bezerros em aleitamento convencional associado com milho floculado (0,47 kg/d).

Houve uma interação entre o sistema de aleitamento e o tipo de amido fornecido durante o período de aleitamento. A concentração de propionato ruminal, um importante estimulador do desenvolvimento do rúmen, foi menor para bezerros alimentados de acordo com o plano I-MI comparados com aqueles em C-MI na semana 5 e C-MI e A-MF na semana 6.

As concentrações de propionato são dependentes tanto da composição do concentrado e da taxa de degradação de amido, quanto do consumo de concentrado pelo animal. Durante as semanas 5 e 8, bezerros aleitados de forma convencional tiveram maior digestibilidade de FDA e FDN comparado com bezerros em aleitamento intensivo.

As dietas não afetaram o amido fecal, mas bezerros no plano I-MI tiveram menor pH fecal na semana 8 quando comparados aos outros grupos. Os resultados deste trabalho mostram que o sistema de aleitamento e/ou a taxa de degradação de amido podem afetar o ganho de peso diário, a digestibilidade da fibra e parâmetros ruminais assim, como o pH fecal.

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Referências bibliográficas

(Abstracts of the 2018 American Dairy Science Association® Annual Meeting June 24–27, 2018 Knoxville, Tennessee).

Daley, V.L.; Drackley, J.K.; Bittar, C.M.M.; Tedeschi, L.O.; Morrison, S.Y.; LaPierre, P.A.; Hanigan, M.D. Estimation of starter intake in young dairy calves during the preweaning phase, National Animal Nutrition Program (NANP), Lexington, KY, University of Illinois, Urbana, IL, University of São Paulo (ESALQ/USP), Piracicaba, São Paulo, Brazil, Texas A&M University, College Station, TX, Virginia Tech, Blacksburg, VA.

Dennis, T. S.; Suarez-Mena, F. X.; Hill, T. M.; Quigley, J. D.; Hu, W.; Schlotterbeck, R. L. Effects of corn processing and bypass soybean meal in calf starter on growth and digestibility in young dairy calves., Provimi, Brookville, OH.

Liang Y.; Davis, E.; Batchelder, T.; Ballou, M. Predicting weekly calf starter intake by measuring calf starter intake once, twice, or three times a week. Texas Tech University, Lubbock, TX.

Quigley, J. D.; Hill, T. M.; Knapp, J. R.; Suarez-Mena, X.; Dennis, T. S.; Hu, W. Re-evaluation of NRC energy estimates in calf feeds. Provimi, Brookville, OH.

van Niekerk, J. K. ; Fischer, A. J.; Deikun, L. L.; Quigley, J. D.; Hill, T. M.; Schlotterbeck, R. L.; Steele, M. A. Can processing corn influence growth performance, nutrient digestibility and ruminal and hindgut fermentation in calves fed low or high plane of milk replacer? Department of Agricultural, Food and Nutritional Science, University of Alberta, Edmonton, AB, Canada, Provimi, Brookville, OH.

Fonte: Milk Point

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