O agro brasileiro aprendeu a produzir. Agora precisa aprender a contar sua história.

Em artigo, o ex-ministro Antonio Cabrera defende que o setor mostre as famílias, o trabalho e os vínculos com a terra que existem por trás dos recordes de produção.

Médico-veterinário formado pela Unesp de Jaboticabal, com pós-graduação em Produção Animal na Índia, Antonio Cabrera construiu uma trajetória que reúne conhecimento técnico, gestão pública e experiência no campo. Assumiu o Ministério da Agricultura aos 29 anos, comandando a pasta entre 1990 e 1992, e atuou como consultor da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO).

Tornou-se membro da Academia Brasileira de Agricultura em 2004 e dedicou-se aos negócios rurais da família. No artigo a seguir, o ex-ministro reflete sobre um desafio do agro brasileiro: comunicar, além dos resultados econômicos, as histórias, os sentimentos e os vínculos humanos que dão sentido à produção de alimentos.

No artigo reproduzido integralmente abaixo, Cabrera recorre à história das hortas de Genebra para defender uma comunicação que mostre também a dimensão humana da agricultura.

Por Antonio Cabrera, ex-ministro da Agricultura

Durante a Segunda Guerra Mundial, a cidade de Genebra, na Suíça, cedeu pequenos terrenos públicos para que os moradores plantassem parte da própria comida. A guerra acabou, e as hortas continuaram. As famílias tinham encontrado ali algo além de verduras e legumes.

Sobre isso, li a história de uma visita que o economista austríaco Ludwig von Mises fez ao amigo Wilhelm Röpke, um dos pensadores da economia social de mercado. Röpke levou Mises para conhecer as hortas. Diante dos canteiros, Mises comentou que aquela era uma forma muito ineficiente de produzir alimentos. Röpke respondeu que talvez fosse, mas que era uma forma muito eficiente de produzir felicidade humana.

O próprio Röpke defendeu essa ideia no livro Uma Economia Humana, de 1958.

Os dois eram grandes defensores do livre mercado e olhavam para as mesmas hortas. Mises via a produtividade. Röpke via também a satisfação de cultivar a terra, a autonomia das famílias e a dignidade do trabalho.

Esse é um dos maiores desafios do agro brasileiro. Aprendemos a produzir como poucos no mundo: desenvolvemos tecnologia tropical, multiplicamos a produtividade, conquistamos mercados e transformamos o Brasil numa potência agrícola.
Quando precisamos mostrar nossa importância, porém, falamos quase só de números: milhões de toneladas, bilhões de dólares em exportações, participação no PIB.

Tudo isso é verdade e motivo de orgulho, mas uma tonelada de soja não emociona ninguém. O consumidor se identifica com o alimento que chega à mesa, com a família que o produziu e com o trabalho que existe por trás dele.

A narrativa da eficiência continua necessária, e falta somar a ela as pessoas. Cada lavoura tem uma família, e cada colheita carrega conhecimento, risco, investimento e esperança.

Como produtor rural, sei que uma safra é mais que toneladas por hectare. São meses de trabalho, decisões difíceis, noites olhando a previsão do tempo e a alegria de ver o resultado no fim.
A agricultura gera riqueza, oportunidades e laços que passam de pai para filho.

O agro brasileiro aprendeu a produzir toneladas. Falta aprender a contar as histórias que existem por trás delas.
Essa é a lição que tiro das pequenas hortas de Genebra: nem todo o valor da agricultura cabe numa planilha.

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