Em Kostroma, no coração da Rússia, alces gigantes são criados em regime semisselvagem e suas fêmeas ordenhadas para produzir um dos leites mais raros, nutritivos e curiosos do mundo
O boi das neves existe, ao menos como apelido perfeito para uma das experiências mais incomuns da pecuária mundial. Na região de Kostroma, na Rússia, a Fazenda de Alces de Sumarokovo mantém há décadas um sistema de criação que desafia o conceito tradicional de produção leiteira: em vez de vacas, cabras ou búfalas, as ordenhadeiras trabalham com fêmeas de alce, o maior cervídeo do planeta.
Localizada próxima ao vilarejo de Sumarokovo, na província de Kostroma, a fazenda começou sua trajetória em 1963, dentro de um projeto soviético de domesticação parcial de alces. A ideia não era transformar o animal em gado convencional, mas entender se seria possível manejar uma espécie adaptada ao frio, às florestas boreais e a uma alimentação baseada em vegetação nativa.
O resultado é um modelo raro de pecuária alternativa extrema. Os alces não vivem confinados como bovinos de leite. Eles circulam por áreas de mata, retornam à fazenda em períodos específicos e mantêm parte de seu comportamento selvagem. Essa semidomesticação é o que torna o sistema tão singular: o animal é manejado, mas não totalmente controlado.
A própria base alimentar reforça essa diferença. O território da fazenda registra 231 espécies de plantas, sendo 89 reconhecidas como alimento para os alces, segundo informações do próprio complexo de Sumarokovo.
Fazenda de Kostroma: onde o boi das neves é ordenhado
O processo de produção começa após o nascimento dos filhotes. As fêmeas entram em lactação e passam a ser ordenhadas em uma rotina cuidadosamente adaptada ao comportamento da espécie. Diferentemente da bovinocultura, em que a produtividade pode ser planejada em escala industrial, o leite de alce depende de sazonalidade, vínculo com os tratadores e manejo paciente.
Segundo dados divulgados pela fazenda, uma fêmea pode produzir de 100 a 600 kg de leite por lactação. O produto tem composição média estimada em 12% de gordura, 9% de proteína e 25% de matéria seca, índices muito superiores aos do leite bovino comum.
Essa concentração explica por que o leite do boi das neves é tratado como um produto raro. Ele não é feito para abastecer supermercados ou competir com a cadeia leiteira tradicional. Trata-se de uma produção de nicho, limitada e com forte apelo científico, turístico e medicinal.

Por que o leite de alce chama tanta atenção
O leite de alce ganhou fama na Rússia por sua densidade nutricional. Estudos sobre o produto apontam alto teor de gordura, proteína, matéria seca e imunoglobulinas nos primeiros dias de lactação. Uma pesquisa publicada na CyberLeninka por L. P. Solovyova e R. M. Kosarev analisou amostras da Fazenda de Sumarokovo e concluiu que o fluido produzido entre o primeiro e o terceiro dia deve ser considerado colostro, passando a leite a partir do quarto dia.
O mesmo estudo observou variação importante conforme idade e estágio de lactação. Entre as fêmeas analisadas, uma alce de 8 anos apresentou 70,4 litros de leite nos primeiros 15 dias, enquanto uma fêmea de 3 anos produziu 15,6 litros no mesmo período.
Além da composição, há o aspecto medicinal. Materiais técnicos ligados à Fazenda de Kostroma e ao sanatório Ivan Susanin descrevem o uso do leite de alce em protocolos voltados a úlceras gástricas, problemas do trato digestivo e recuperação clínica. Essas aplicações fazem parte de uma tradição terapêutica russa, mas devem ser interpretadas com cautela: não se trata de substituto para tratamento médico convencional.

O boi das neves e o mercado de produtos raros
A raridade também aparece no preço. O site oficial da Fazenda de Sumarokovo informa a venda do leite de alce por 2.000 rublos o litro, com porções de degustação de 50 gramas por 100 rublos. É um valor que reflete não apenas a escassez, mas a complexidade de manter uma cadeia produtiva baseada em animais grandes, sensíveis e parcialmente selvagens.

Na prática, o boi das neves não inaugura uma nova fronteira de pecuária em larga escala. Ao contrário, mostra os limites da domesticação. Alces são animais de grande porte, solitários, exigentes em alimentação e adaptados a ecossistemas específicos. A fazenda russa funciona menos como uma indústria leiteira tradicional e mais como um laboratório vivo de manejo animal, turismo rural e conservação aplicada.
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ℹ️ Conteúdo publicado pela estagiária Ana Gusmão sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira
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