Especialista defende que manejo, disciplina operacional e eficiência são os verdadeiros fatores que determinam a rentabilidade da pecuária intensiva; palestra foi um dos destaques técnicos do Fórum Feicorte, em Presidente Prudente
Em um auditório repleto de produtores rurais, técnicos, consultores e estudantes durante a Feicorte 2026, uma definição arrancou sorrisos e imediatamente resumiu o respeito que Fernando Nemi Costa conquistou ao longo de décadas dedicadas à pecuária intensiva.
Ao apresentar o palestrante, o curador de conteúdo do Fórum Feicorte, Diede Loureiro, afirmou que Fernando é o “John Dutton da pecuária brasileira”. A comparação não foi por acaso.
John Dutton, protagonista da série Yellowstone, tornou-se um dos personagens mais emblemáticos da cultura rural norte-americana. É o rancher por excelência: dono de terras, patriarca, homem que conhece cada animal do rebanho, entende cada detalhe da propriedade e vive para preservar o legado da produção pecuária.
No Brasil, a figura remete ao pecuarista raiz do Mato Grosso, de famílias tradicionais, que nasceu dentro da fazenda, aprendeu cedo a lidar com o gado e faz da pecuária muito mais que um negócio — um modo de vida.

Foi exatamente essa imagem que Diede utilizou para definir Fernando Nemi Costa, proprietário da Cost@ Consultoria e Assessoria Pecuária, profissional reconhecido nacionalmente por transformar confinamentos em operações cada vez mais eficientes e lucrativas.
A analogia sintetizou perfeitamente o perfil do consultor.
Mais do que um formulador de dietas ou especialista em nutrição, Fernando é um observador obsessivo dos detalhes que acontecem dentro do confinamento. Para ele, é justamente nesses detalhes — muitas vezes ignorados — que está a diferença entre ganhar dinheiro ou comprometer toda a margem da operação.
Sua palestra, intitulada “Manejo direcionado para eficiência”, tornou-se uma verdadeira aula prática sobre gestão do confinamento e reforçou um dos principais objetivos da Feicorte 2026: aproximar ciência, tecnologia e gestão da realidade das fazendas brasileiras.

Feicorte reforça papel como principal fórum técnico da pecuária
Muito além da exposição de animais e da realização de negócios, a Feicorte voltou a consolidar seu papel como um dos maiores encontros técnicos da cadeia da carne brasileira.
Durante vários dias, pesquisadores, consultores, empresas, frigoríficos, pecuaristas e lideranças do setor discutiram temas que vão desde genética e mercado até sustentabilidade, rastreabilidade, confinamento e eficiência produtiva.
Dentro dessa programação, o Fórum Feicorte reuniu algumas das maiores referências nacionais da pecuária de corte, e a apresentação de Fernando Nemi Costa chamou atenção justamente por abordar aquilo que muitos produtores acreditam dominar, mas poucos executam com excelência: o manejo diário.
Segundo ele, confinamento não é apenas fornecer ração.
É administrar centenas de pequenas decisões que, somadas, determinam o resultado financeiro da atividade.
O confinamento deixou de ser uma atividade de alta margem
Logo no início da palestra, Fernando fez um alerta importante.
Durante décadas, a pecuária brasileira trabalhou com margens muito superiores às atuais. Entretanto, o avanço da agricultura sobre áreas tradicionalmente ocupadas pela pecuária, o aumento do custo dos insumos e a necessidade crescente de produtividade mudaram completamente o cenário.
Hoje, segundo ele, quem não trabalha com eficiência dificilmente permanecerá competitivo.
A margem ficou muito menor.
O erro ficou muito mais caro.
Por isso, administrar um confinamento exige olhar empresarial, gestão rigorosa e acompanhamento permanente de indicadores.
Confinamento é uma indústria
Uma das mensagens mais fortes da palestra foi a comparação entre confinamento e indústria.
Fernando explicou que a operação recebe um insumo — o boi magro — e precisa transformá-lo em um produto final de alto valor agregado: uma carcaça pesada, jovem, bem acabada e produzida com máxima eficiência.
Para isso, não basta comprar bons animais.
É necessário que toda a cadeia operacional funcione de forma sincronizada.
Estrutura adequada.
Equipe treinada.
Máquinas dimensionadas.
Instalações eficientes.
Processos padronizados.
E, principalmente, manejo.
Segundo ele, produtores costumam concentrar esforços na compra dos animais e na formulação da dieta, mas acabam negligenciando justamente aquilo que mais interfere no desempenho diário: a execução das rotinas dentro do confinamento.
Manejo: o fator que realmente produz lucro
Ao longo da apresentação, Fernando repetiu diversas vezes uma palavra: eficiência.
Para ele, eficiência não nasce da tecnologia isoladamente.
Ela nasce da repetição correta dos processos.
A dieta precisa ser exatamente aquela que foi formulada.
A mistura precisa ser homogênea.
O fornecimento deve ocorrer corretamente.
O animal precisa consumir exatamente aquilo que foi planejado.
Quando qualquer etapa falha, o desempenho desaparece.
“São processos”, enfatizou o consultor ao explicar que muitos confinamentos possuem excelentes formulações nutricionais, mas perdem desempenho simplesmente porque a dieta entregue ao animal não corresponde ao planejamento inicial.
A adaptação decide praticamente todo o confinamento
Entre todos os temas apresentados, Fernando dedicou atenção especial ao período de adaptação dos animais.
Na sua avaliação, esse é o momento mais importante de toda a operação.
Se a adaptação é conduzida de maneira inadequada, todo o restante do ciclo será comprometido.
Ele explicou que sua equipe utiliza protocolos específicos para reduzir o estresse dos bovinos recém-chegados, incluindo fornecimento gradual da dieta, uso de volumoso durante os primeiros dias e adaptação realizada diretamente nas baias.
O objetivo é fazer com que os animais iniciem rapidamente o consumo de alimento e mantenham estabilidade ruminal desde os primeiros dias.
Segundo sua experiência prática, pequenas mudanças nessa etapa reduziram significativamente problemas sanitários e melhoraram o desempenho até o momento do abate.
O pecuarista precisa olhar para o chão
Talvez um dos momentos mais curiosos da palestra tenha ocorrido quando Fernando afirmou que passa boa parte do tempo caminhando pelo confinamento olhando para o chão.
A frase provocou risos na plateia.
Depois veio a explicação.
Enquanto muitos observam apenas os animais, ele analisa fezes, cochos, água e ambiente.
Segundo ele, as fezes funcionam como um verdadeiro exame clínico do confinamento.
A consistência indica se a dieta possui fibra suficiente, se existe risco de acidose e se o rúmen está funcionando adequadamente.

Para o consultor, alcançar o chamado “score 3” representa o equilíbrio ideal da saúde ruminal.
Qualquer alteração importante significa perda de desempenho e necessidade imediata de correção.
Leitura de cocho: onde muitos confinamentos perdem dinheiro sem perceber
Outro ponto enfatizado foi a leitura correta de cocho.
Fernando explicou que trabalha buscando cochos praticamente vazios no momento da leitura.
Entretanto, alertou para um erro bastante comum.
Na tentativa de evitar sobras, muitos tratadores acabam restringindo involuntariamente o consumo dos animais. 
Essa pequena restrição pode parecer insignificante.
Financeiramente, porém, produz enorme impacto.
Segundo dados apresentados durante a palestra, uma restrição de apenas 5% no consumo pode reduzir significativamente o ganho médio diário e provocar perdas superiores a R$ 100 por animal durante o ciclo de confinamento.
Quando essa restrição chega a 10% ou 15%, o prejuízo ultrapassa algumas centenas de reais por cabeça, comprometendo praticamente toda a rentabilidade da operação.
Lama custa dinheiro
Outro tema tratado com profundidade foi o impacto das condições ambientais.
Fernando apresentou estudos mostrando que poucos centímetros de lama já reduzem o ganho de peso.
Quanto maior o acúmulo, maior o gasto energético do animal para caminhar, menor o tempo de descanso e pior o desempenho produtivo.
Além da dificuldade de locomoção, a lama reduz o conforto, aumenta o estresse e interfere diretamente no ganho médio diário.
Segundo ele, controlar drenagem e manter as baias em boas condições deve ser encarado como investimento, e não como despesa. 
Água limpa vale arrobas
Se houve um tema tratado quase com indignação pelo consultor, foi a limpeza dos bebedouros.
Fernando afirmou que um dos profissionais mais importantes do confinamento é justamente aquele responsável pela higienização da água.
Apesar disso, normalmente é uma atividade subvalorizada.
Segundo ele, água de qualidade determina consumo de matéria seca.
Sem água limpa, o animal reduz ingestão de alimento, piora conversão alimentar e apresenta menor ganho de peso.
Sua recomendação é simples: lavar os bebedouros, preferencialmente, a cada dois dias.
Pesquisas apresentadas durante a palestra indicam que aumentar o intervalo de limpeza reduz gradativamente o desempenho dos bovinos ao longo do confinamento, acumulando perdas expressivas ao final do ciclo.
Um dia pode valer centenas de reais
No encerramento da apresentação, Fernando demonstrou matematicamente como pequenos ganhos de eficiência produzem grandes resultados econômicos.
Utilizando uma simulação de confinamento, mostrou que reduzir em apenas um dia o tempo necessário para produzir uma arroba aumenta substancialmente o lucro por animal.
Na situação apresentada, a melhoria de apenas um dia acrescentava aproximadamente R$ 750 de lucro por boi.
Da mesma forma, perder um único dia significava reduzir drasticamente a rentabilidade da operação.
A mensagem foi direta.
Não existem milagres no confinamento.
Existe eficiência operacional.
E eficiência nasce da execução correta dos manejos diários.
O futuro da pecuária será intensivo
Em entrevista exclusiva ao Compre Rural, Fernando afirmou que o confinamento brasileiro continuará crescendo de forma acelerada.
Segundo ele, nos últimos cinco anos houve expansão próxima de 30% no número de animais confinados, tendência que deverá continuar nos próximos anos.
A expectativa é que operações médias cresçam de tamanho e que os grandes confinamentos se tornem ainda mais tecnificados, impulsionando produtividade e qualidade da carne brasileira.
Na avaliação do consultor, o crescimento não ocorre apenas porque a arroba está valorizada.
O principal motor é a necessidade de produzir mais carne utilizando menos área.
Ao concentrar animais em confinamento, a fazenda aumenta sua capacidade produtiva, melhora o manejo das pastagens e torna toda a operação mais dinâmica e eficiente.
Fernando também destacou que o confinamento é hoje uma ferramenta fundamental para produzir animais jovens, carcaças superiores e carne de melhor qualidade, características cada vez mais exigidas pelos mercados consumidores e pela indústria frigorífica.
Ao comentar os desafios internacionais envolvendo restrições ao uso de determinados aditivos nutricionais, defendeu que decisões regulatórias precisam estar fundamentadas em ciência e não apenas em barreiras comerciais. Segundo ele, o Brasil possui uma das pecuárias mais sustentáveis do mundo, baseada predominantemente em sistemas a pasto, e precisa valorizar tecnicamente seus diferenciais nas negociações internacionais.
Muito além da nutrição
Ao final da apresentação ficou evidente por que Fernando Nemi Costa recebeu a comparação feita por Diede Loureiro. Assim como John Dutton conhece cada detalhe de seu rancho, Fernando demonstra conhecer profundamente cada etapa do confinamento.
Seu olhar vai muito além da formulação de dietas.
Ele observa comportamento animal, consumo de água, estado das baias, qualidade da mistura, leitura de cocho, conforto, adaptação, saúde ruminal e eficiência operacional.
Sua mensagem principal pode ser resumida em uma frase simples:
Na pecuária moderna, lucro não nasce apenas da genética ou da nutrição. Ele nasce da excelência na execução.
E foi justamente essa visão prática, construída ao longo de décadas dentro das fazendas brasileiras, que transformou sua palestra em um dos momentos mais relevantes do Fórum Feicorte 2026, reforçando a vocação do evento como o principal palco para discussão das tecnologias e estratégias que moldam o futuro da pecuária de corte nacional.
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