“O tempo da reforma agrária há muito deixou de existir”, diz especialista

Debate sobre reforma agrária ganha novo fôlego após críticas ao ensino escolar e levanta questionamentos sobre narrativa, produtividade no campo e pluralidade de ideias no Brasil contemporâneo.

A discussão sobre a reforma agrária no Brasil voltou ao centro do debate público — não por um novo programa governamental ou conflito no campo, mas a partir de uma crítica à forma como o tema vem sendo apresentado nas escolas. A repercussão ganhou força após uma publicação do empresário Octaciano Neto, que questionou o conteúdo de material didático utilizado por alunos do ensino fundamental.

No relato, Octaciano afirma ter encontrado, na apostila de seu filho — produzida por uma grande rede de ensino — a afirmação de que “um dos maiores problemas do campo no Brasil é a distribuição desigual de terras”, associando essa narrativa à apresentação do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra como um movimento legítimo de luta por direitos.

Para o empresário, o ponto central da crítica não é a abordagem do tema em si, mas o que ele classifica como uma “narrativa unilateral”. “Educação de qualidade apresenta todos os lados. Não doutrina”, escreveu. Segundo ele, a forma como o conteúdo é apresentado a crianças pode influenciar a construção de pensamento sem oferecer a devida pluralidade de perspectivas.

O argumento de que a reforma agrária perdeu centralidade

A crítica de Octaciano resgata uma visão defendida há anos por especialistas. Um dos principais nomes citados é o sociólogo Zander Navarro, que em entrevista à Folha de S.Paulo, ainda em 2008, afirmou de forma categórica: “o tempo da reforma agrária há muito deixou de existir.”

Na análise de Navarro, alguns pontos estruturais ajudam a explicar essa posição:

  • Mudança no perfil do campo brasileiro: o país passou por uma profunda transformação produtiva, com forte modernização tecnológica e aumento expressivo de produtividade.
  • Redução da relevância da redistribuição fundiária: segundo ele, o foco deixou de ser o acesso à terra e passou a ser a inserção econômica, acesso a tecnologia e gestão eficiente.
  • Baixa eficiência de assentamentos: muitos projetos de reforma agrária não atingiram os níveis de produtividade esperados, tornando-se economicamente frágeis.
  • Desalinhamento entre discurso e realidade rural: Navarro aponta que parte das ações de movimentos sociais não reflete necessariamente as demandas concretas dos trabalhadores do campo.

A leitura do pesquisador sugere que a agenda agrária tradicional teria sido superada por desafios mais complexos, como competitividade, inovação e acesso a mercados.

charge carlos latuff
Charge: Carlos Latuff

Os pontos omitidos no debate, segundo Octaciano

Na publicação, Octaciano Neto também elenca o que considera lacunas importantes no material didático. Entre os principais pontos destacados:

1. O protagonismo global do agro brasileiro

O Brasil consolidou-se como uma potência agrícola, sendo líder mundial na exportação de commodities como soja, carne bovina, café e açúcar. Esse desempenho é frequentemente associado a ganhos de produtividade, tecnologia e escala — fatores pouco explorados em narrativas centradas apenas na distribuição de terras.

2. Dimensão atual da reforma agrária

O país possui cerca de 1 milhão de famílias assentadas, ocupando aproximadamente 88 milhões de hectares. Ainda assim, há críticas recorrentes sobre a baixa produtividade em parte desses assentamentos, o que levanta questionamentos sobre a eficiência do modelo.

3. Questionamentos sobre a atuação do MST

Com base na análise de Zander Navarro, Octaciano menciona que parte das ações do movimento estaria estruturada em pautas que nem sempre refletem os interesses diretos dos trabalhadores rurais, sugerindo possíveis distorções ou instrumentalizações políticas.

4. A necessidade de pluralidade no ensino

O ponto mais sensível da crítica recai sobre o ambiente educacional. Para ele, apresentar apenas uma perspectiva — especialmente para crianças — compromete o desenvolvimento do pensamento crítico. “Uma criança de 9 anos merece aprender a pensar, não o que pensar”, destacou.

Educação, campo e disputa de narrativas

O episódio evidencia como o debate sobre o campo brasileiro ultrapassa a esfera produtiva e entra no terreno ideológico e educacional. De um lado, há a tradição histórica que aponta a concentração fundiária como um problema estrutural; de outro, uma visão mais recente que enfatiza eficiência econômica, tecnologia e competitividade global.

Nesse contexto, ganha força o De Olho no Material Escolar, iniciativa criada em 2021 por pais, produtores e especialistas do agro com o objetivo de revisar e qualificar o conteúdo sobre o setor nos livros didáticos. O movimento atua diretamente junto a editoras, professores e instituições de ensino para aproximar ciência e educação, defendendo que o material escolar seja baseado em dados atualizados, verificáveis e livres de distorções ideológicas.

Além de propor correções, a iniciativa também busca conscientizar crianças e jovens sobre a relevância econômica, social e tecnológica do agronegócio brasileiro, mostrando o setor como um ambiente de inovação, oportunidades e desenvolvimento — e não apenas sob uma ótica histórica ou conflitiva.

A provocação final de Octaciano foi direcionada diretamente à editora responsável pelo material didático: como garantir equilíbrio editorial em conteúdos voltados à formação de crianças?

A questão permanece em aberto — e revela que, mesmo após décadas de تحول no agronegócio brasileiro, a reforma agrária continua sendo não apenas um tema econômico, mas também um campo ativo de disputa de ideias.

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