Orelhas de até 32 cm e “nariz romano”: por que a cabra Shami tem uma aparência tão diferente?

Também conhecida como cabra de Damasco, raça originária do Oriente Próximo chama atenção pela aparência incomum, mas possui uma história ligada principalmente à produção de leite, carne e seleção genética

Poucas raças caprinas apresentam um rosto tão facilmente reconhecível quanto a Shami, também chamada de Damascus ou cabra de Damasco. A cabeça comprida, o perfil nasal fortemente convexo e as enormes orelhas caídas criam uma aparência que costuma despertar curiosidade quando imagens desses animais circulam pela internet. Por trás do visual peculiar, porém, existe uma raça tradicional criada há décadas com objetivos produtivos bem definidos.

Originária da Síria e de outros países do Oriente Próximo, a Shami também foi introduzida em Chipre, onde passou por programas de seleção voltados principalmente à produção de leite e carne. Documentos técnicos da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) apontam ainda prolificidade elevada e bom potencial produtivo em sistemas semi-intensivos e intensivos. Continue a leitura e acompanhe o Compre Rural, onde informação de qualidade ajuda a fortalecer quem vive e produz no campo.

Orelhas de até 32 centímetros estão entre as marcas da cabra Shami

O tamanho das orelhas é uma das características que mais diferenciam esses animais. Em uma descrição técnica da população criada no Chipre, pesquisadores registraram orelhas longas e pendentes medindo entre 27 e 32 centímetros.

Não é apenas esse detalhe que chama atenção.

A cabeça da Shami é comprida e apresenta o chamado perfil romano, expressão utilizada na zootecnia para descrever uma linha facial convexa. Na prática, isso significa que a região do focinho e da testa forma uma curva bastante pronunciada, especialmente nos animais adultos.

É justamente a combinação desse perfil com as orelhas compridas que produz a aparência tão característica da raça.

Segundo o levantamento publicado pela FAO, os exemplares avaliados em Chipre também apresentam porte considerável. A referência técnica cita aproximadamente 78 centímetros de altura na cernelha, além de peso vivo adulto em torno de 65 ± 5 kg para fêmeas e 75 ± 5 kg para machos.

Esses valores representam a população analisada e não devem ser entendidos como medidas obrigatórias para todos os indivíduos da raça. Genética, alimentação, sexo, idade e sistema de criação podem alterar significativamente o desenvolvimento corporal.

A aparência incomum não é a principal característica produtiva

Embora fotografias da Shami frequentemente ganhem atenção justamente pelo rosto incomum, a importância histórica da raça está muito mais relacionada à pecuária do que à estética.

A publicação da FAO sobre a população do Chipre descreve a Damascus como uma raça de dupla aptidão, voltada para leite e carne, com boa prolificidade e capacidade de produção quando manejada adequadamente.

Outro documento da própria FAO destaca especialmente sua produção leiteira, desempenho reprodutivo e adaptação a ambientes quentes, características que contribuíram para que a raça se espalhasse por diferentes países do Oriente Próximo.

Isso aproxima a Shami de outras raças selecionadas para finalidades bastante específicas. No caso da raça Boer, por exemplo, o melhoramento foi fortemente direcionado à produção de carne e conformação corporal.

Quanto leite uma cabra de Damasco pode produzir?

Os números encontrados na literatura mostram por que a raça ganhou espaço em sistemas leiteiros do Oriente Médio.

Na população analisada pela FAO em Chipre, a produção total durante a lactação, incluindo o leite consumido pelos cabritos antes do desmame, ficou entre 350 e 650 kg por cabra. Depois do período de amamentação, a produção destinada à comercialização variou entre 200 e 350 kg por lactação, conforme alimentação e manejo adotados.

Um estudo independente realizado sob condições do norte do Chipre encontrou média de aproximadamente 489,4 kg de leite por lactação, com duração média de 254,7 dias e produção diária próxima de 1,9 kg.

Esses dados precisam ser lidos dentro do contexto de cada pesquisa. Eles não representam uma produção garantida para qualquer animal. Desempenho leiteiro depende diretamente da linhagem genética, dieta, sanidade, manejo reprodutivo e ambiente.

Estudos continuam avaliando a capacidade leiteira da população Cyprus Damascus. Uma pesquisa publicada em 2026, por exemplo, analisou características do úbere de animais de um rebanho núcleo e sua relação com o rendimento de leite, mostrando que a seleção produtiva da raça permanece objeto de investigação científica.

Uma raça que passou por seleção genética no Chipre

A história da Shami não ficou restrita à Síria. A raça foi levada para Chipre durante o século XX, onde passou a ser utilizada para melhorar a população caprina local. De acordo com a FAO, a população cipriota foi submetida durante décadas a seleção genética voltada à produção de leite e carne.

Esse processo ajuda a explicar por que dados obtidos em rebanhos selecionados no Chipre não devem ser automaticamente aplicados a todas as populações Shami encontradas em outros países.

Mesmo dentro de uma mesma raça, programas de seleção podem favorecer características diferentes e provocar mudanças progressivas no desempenho dos animais.

A pelagem registrada pela FAO na população cipriota é predominantemente castanho-avermelhada, geralmente com pelos mais longos. Manchas brancas podem aparecer no corpo, pernas e cabeça, enquanto exemplares completamente pretos são descritos como bastante raros.

Shami também chama atenção pela reprodução

Outro atributo relevante é a prolificidade. Dados compilados pela FAO apontam média de aproximadamente 1,8 cabrito por parto na população estudada. A fertilidade registrada ficou entre 80% e 90%, enquanto o início da atividade reprodutiva pode ocorrer relativamente cedo dependendo da época de nascimento e do desenvolvimento corporal.

Na criação comercial, essas características são importantes porque interferem diretamente na quantidade de animais produzidos por matriz ao longo do tempo.

Ainda assim, prolificidade maior também exige manejo adequado. Nascimentos múltiplos aumentam as exigências nutricionais das fêmeas e podem exigir atenção adicional durante gestação, parto, aleitamento e desenvolvimento dos cabritos.

Por que as cabras Shami parecem tão diferentes?

Não existe uma única explicação simples para o formato facial da raça. A aparência atual é resultado da herança genética e do processo de formação e seleção daquela população ao longo das gerações.

O perfil nasal convexo e as orelhas pendentes fazem parte do conjunto morfológico pelo qual a Shami é reconhecida. Essas características não devem ser confundidas, por si só, com deformações ou problemas de saúde.

Também é preciso ter cautela com fotografias extremamente marcantes compartilhadas nas redes sociais. Alguns exemplares podem apresentar traços mais pronunciados do que outros, e imagens escolhidas justamente por serem incomuns não necessariamente representam toda a população da raça.

A diversidade entre raças caprinas pode produzir animais visualmente muito diferentes. No Brasil, pesquisas envolvendo as cabras provenientes do arquipélago de Abrolhos, por exemplo, estudam outro aspecto da diversidade genética: a capacidade de populações isoladas de sobreviver e se adaptar a ambientes com forte restrição hídrica.

Mais que uma curiosidade das redes sociais

A aparência da cabra Shami certamente ajuda a explicar sua popularidade em vídeos e fotografias, mas olhar apenas para o formato do rosto deixa de lado aquilo que realmente levou a raça a ganhar importância na pecuária regional.

Trata-se de uma população caprina historicamente relacionada à produção leiteira, carne, prolificidade e adaptação às condições do Oriente Próximo, posteriormente submetida a programas de seleção em países como o Chipre.

As enormes orelhas e o perfil romano acabaram se tornando sua assinatura visual. Para os sistemas produtivos em que foi desenvolvida, entretanto, características como desempenho reprodutivo e capacidade leiteira têm importância econômica muito maior.

É justamente essa combinação que torna a Shami interessante: um animal de aparência bastante diferente das raças mais familiares ao público brasileiro, mas cuja história está profundamente ligada à produção e ao melhoramento genético de caprinos.

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ℹ️ Conteúdo publicado pela estagiária Ana Gusmão sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira

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