Paraná aposta R$ 4,45 milhões em projeto para multiplicar genética do gado Purunã

Projeto pretende produzir 4,5 mil embriões em laboratório e acelerar o melhoramento da raça bovina criada no Paraná; genética superior será multiplicada e levada a propriedades rurais

Uma raça bovina desenvolvida no Paraná ao longo de mais de três décadas está prestes a entrar em uma nova etapa de sua história. Ciência genômica, reprodução assistida e produção de embriões em laboratório serão reunidas em um projeto de R$ 4,45 milhões que pretende acelerar a multiplicação da genética do gado Purunã e ampliar sua presença nos rebanhos comerciais.

A Universidade Estadual do Norte do Paraná (UENP) e o Instituto de Desenvolvimento Rural do Paraná (IDR-Paraná) lançam nesta quinta-feira, 20 de agosto, em Ponta Grossa, nos Campos Gerais, um projeto de pesquisa voltado à produção in vitro de embriões da raça Purunã.

A iniciativa representa uma mudança de escala para o programa de melhoramento do bovino genuinamente paranaense. Em vez de depender exclusivamente do ritmo natural de reprodução dos animais superiores, pesquisadores passarão a utilizar biotecnologias capazes de multiplicar com muito mais velocidade a genética das melhores matrizes e reprodutores.

E a meta dá dimensão à ambição do projeto: produzir 4.500 embriões ao longo de três anos.

O lançamento acontece às 16h, no Polo Regional de Pesquisa do IDR-Paraná, na Rodovia do Café, em Ponta Grossa.

R$ 4,45 milhões para acelerar a genética Purunã

Com duração prevista de quatro anos, a pesquisa será conduzida pela UENP em parceria com o IDR-Paraná e a Universidade Federal do Paraná (UFPR).

O investimento será de R$ 4,45 milhões, provenientes do Fundo Paraná, mecanismo constitucional destinado ao financiamento do desenvolvimento científico e tecnológico no Estado.

Uma das principais estruturas previstas é a implantação de dois laboratórios de produção in vitro de embriões. Um deles ficará no campus da UENP em Bandeirantes, no Norte do Paraná, enquanto o segundo será instalado no campus da UFPR em Palotina, no Oeste.

A estrutura permitirá transformar animais geneticamente superiores em multiplicadores de uma nova geração do Purunã.

Na prática, a produção in vitro permite obter embriões a partir de fêmeas selecionadas e multiplicar de maneira muito mais intensa uma combinação genética desejável. Quando associada à seleção genômica, a tecnologia permite identificar precocemente os indivíduos com maior potencial para determinadas características.

O resultado esperado é uma espécie de encurtamento do caminho entre a pesquisa genética e o curral.

“A reprodução assistida combinada com a seleção genômica permite um salto qualitativo no melhoramento animal, com redução do intervalo de gerações e maior precisão na escolha de animais superiores. Essa é uma aplicação concreta do conhecimento científico para gerar impacto direto no setor produtivo, com ganhos de produtividade e sustentabilidade para a cadeia da carne bovina”, afirma o professor da UENP Bruno Galindo.

Dos laboratórios para as fazendas

O projeto não pretende manter essa genética restrita às unidades experimentais.

Pesquisadores utilizarão a seleção genômica para identificar os melhores touros e matrizes do rebanho Purunã, considerando características de interesse econômico para a pecuária.

Entre os atributos avaliados estarão características produtivas e também a resistência aos carrapatos, problema que representa custos significativos para a pecuária bovina em regiões tropicais e subtropicais.

Os animais superiores serão utilizados na produção dos embriões de alto valor genético.

Depois disso, começa outra etapa fundamental: levar esse material às propriedades parceiras.

Os embriões serão destinados a fazendas participantes do projeto e os animais nascidos passarão a gerar informações de desempenho. Esses dados retornarão aos pesquisadores e alimentarão as avaliações genéticas, permitindo aumentar progressivamente a precisão na identificação dos melhores indivíduos.

Forma-se, assim, um ciclo entre laboratório, genética, fazenda e avaliação de desempenho.

“A produção in vitro de embriões é estratégica para acelerar a formação, a multiplicação e a disseminação da genética superior da raça Purunã, uma vez que permite a passagem de um modelo tradicional de melhoramento, baseado principalmente na seleção e reprodução convencional, para um modelo de melhoramento de precisão e multiplicação acelerada”, explica o zootecnista do IDR-Paraná José Luis Moletta.

De uma matriz de elite poderão surgir muito mais descendentes

Esse é justamente um dos grandes diferenciais das biotecnologias reprodutivas.

Na reprodução convencional, mesmo uma matriz excepcional possui capacidade limitada de produzir descendentes durante sua vida produtiva. A produção in vitro de embriões amplia significativamente a possibilidade de aproveitamento das fêmeas de maior mérito genético.

Isso significa que uma matriz identificada como superior para características desejáveis deixa de contribuir apenas com poucos descendentes e passa a ter sua genética disseminada em escala muito maior.

Associada à genômica, essa multiplicação se torna ainda mais estratégica: não se trata simplesmente de produzir mais animais, mas de multiplicar indivíduos previamente selecionados por seu potencial genético.

É justamente esse avanço que poderá permitir ao Purunã ganhar escala mais rapidamente entre os pecuaristas.

O bovino que nasceu da ciência paranaense

O Purunã possui uma característica particularmente simbólica: é resultado direto de décadas de pesquisa pública desenvolvida no Paraná.

Sua formação reúne genética de quatro raças bovinas de corte: Canchim, Charolês, Aberdeen Angus e Caracu.

A combinação foi trabalhada para reunir atributos importantes para sistemas de produção de carne, buscando equilíbrio entre desempenho produtivo, adaptação e qualidade.

O resultado é um bovino que se destaca pela adaptabilidade a diferentes condições climáticas, resistência a parasitas e qualidade da carne.

Desenvolvido pelo IDR-Paraná ao longo de mais de 30 anos, o Purunã é resultado de sucessivas gerações de estudos conduzidos por pesquisadores ligados às instituições públicas de ensino, ciência e pesquisa do Estado.

Agora, depois de décadas dedicadas à formação e consolidação genética da raça, a estratégia passa a ser acelerar sua multiplicação.

Tecnologia pode ampliar presença do Purunã no Brasil

A produção dos 4,5 mil embriões também poderá ajudar a enfrentar um desafio natural de raças em processo de expansão: a disponibilidade de genética superior em quantidade suficiente para chegar ao produtor comercial.

Ao multiplicar os melhores indivíduos, o projeto pretende aumentar a oferta de reprodutores geneticamente avaliados para pecuaristas do Paraná e de outros estados brasileiros.

A expectativa é beneficiar criadores da raça, cooperativas e também produtores de leite interessados em diversificar a receita da propriedade com a produção de bezerros de maior valor agregado.

Para esses sistemas, a utilização de genética de corte sobre parte das matrizes leiteiras pode representar uma alternativa comercial para elevar o valor dos animais destinados à produção de carne.

Com maior disponibilidade de reprodutores Purunã geneticamente superiores, abre-se uma nova possibilidade para disseminação dessa genética.

Pesquisa paranaense terá apoio internacional

O projeto também ultrapassará as fronteiras brasileiras.

As universidades de Guelph, no Canadá, e da Geórgia, nos Estados Unidos, participarão como parceiras internacionais, colaborando com pesquisas relacionadas à genética e ao melhoramento animal.

A articulação coloca o programa Purunã em contato com centros internacionais de pesquisa e amplia o intercâmbio científico em áreas como genômica, seleção e eficiência produtiva.

Mais do que produzir milhares de embriões, portanto, a iniciativa pretende construir uma plataforma capaz de acelerar continuamente o progresso genético da raça.

Purunã entra em uma nova era

Se durante mais de três décadas o desafio foi desenvolver, selecionar e consolidar o Purunã, a próxima etapa será multiplicar essa genética e fazê-la chegar em maior escala às propriedades rurais.

Os 4.500 embriões previstos são parte desse processo.

O investimento de R$ 4,45 milhões coloca ferramentas modernas da reprodução animal a serviço de uma genética construída dentro do próprio Paraná, combinando pesquisa pública, universidades, propriedades comerciais e cooperação científica internacional.

O Purunã, que nasceu de um longo trabalho de cruzamentos, avaliações e seleção, passa agora da era da formação para a era da multiplicação genética em laboratório.

E, se os resultados esperados forem alcançados, a tecnologia poderá transformar uma raça desenvolvida nos campos experimentais paranaenses em uma alternativa genética cada vez mais presente nos currais de diferentes regiões do Brasil.

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