Pecuaristas passam crise com falta de bezerros, veja

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bezerros da raca charbray
Foto: Rancho El Pionero

Com status de área livre de febre aftosa, sem vacinação, o trânsito de animais entre estados que não têm o mesmo status sanitário está proibido.

O Paraná tem um déficit histórico de aproximadamente 40% no fornecimento de bezerros para a engorda. Anualmente, o estado abate em torno de 1,7 milhão de cabeças de boi. Desse total, cerca de 1,2 milhão são animais criados em território paranaense. Com um déficit entre demanda e oferta, causado pela suspensão das importações, os pecuaristas passam crise com falta de bezerros, veja!

Os 500 mil restantes vinham sendo importados, ainda bezerros, de outros estados, especialmente do Mato Grosso do Sul, para a engorda no Paraná e posterior abate pelos frigoríficos do estado. Os dados são do Departamento de Economia Rural (Deral), da Secretaria da Agricultura.

Desde maio, com o reconhecimento do Paraná como área livre de febre aftosa, sem vacinação, o trânsito de animais entre estados que não têm o mesmo status sanitário está proibido. Com isso, os pecuaristas paranaenses não podem mais trazer bezerros do Mato Grosso do Sul, seu principal fornecedor.

“Estamos tendo um prejuízo enorme. A oferta no Paraná é pequena e a qualidade é inferior”, diz Ricardo Pulzzato, pecuarista que cria gado em Maringá, no Noroeste do Paraná. Ele conta que reduziu em cerca de 20% o seu plantel na engorda pela falta de bezerros.

Falta de bezerros pode aumentar ainda mais nos próximos anos  

Segundo o pecuarista, a situação tende a se agravar. “Os animais que estão neste momento em fase final de engorda e indo para o abate são aqueles que entraram no Paraná ainda em 2019, quando o trânsito estava liberado. Mas, daqui a um ou dois anos a falta vai ser ainda maior”, aposta.

Prevendo a falta de animais para o abate, recentemente o Ministério da Agricultura liberou o trânsito entre o Mato Grosso do Sul e o Paraná, mas apenas de carretas lacradas, carregadas com bois prontos para o abate com destino direto aos frigoríficos paranaenses.

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Foto: Campo Fácil

“A medida atende a indústria da carne, mas nós, pecuaristas, estamos sendo prejudicados”, observa Pulzzato. Ele conta que mantém fazenda no Mato Grosso do Sul especializada na criação de bezerros e anualmente trazia os animais para serem engordados e abatidos no Paraná, mas agora não pode mais fazer isso.

“A principal justificativa do governo do Paraná para pleitear a antecipação da declaração de área livre sem vacinação foi a abertura de mercado no Japão e Coreia do Sul para a carne suína produzida no Paraná”, lembra o pecuarista. “Quero ver os números para justificar essa decisão porque a cadeia da carne bovina foi muito prejudicada”, pontua.

O Japão e a Coreia do Sul, países citados por Pulzzato, são grandes compradores de carne suína (segmento em que o Paraná é forte), mas esses países restringem a entrada de produtos de países onde ainda há vacinação do rebanho bovino contra a febre aftosa. A doença atinge bovinos, bubalinos, ovinos, caprinos, suínos e ruminantes selvagens, causando grandes prejuízos à pecuária. Apenas os bovinos e bubalinos são vacinados.

“Não somos contra o reconhecimento da condição sanitária paranaense. Isso, sem dúvida, é um avanço e resultado de um grande trabalho, mas somos contrários ao isolamento do Paraná”, diz Afrânio Brandão, vice-presidente da Sociedade Rural do Paraná.

Ele refere-se ao fato de o Paraná não ter acompanhado os demais estados com os quais mais mantém relações comerciais no segmento da pecuária de corte, que são Mato Grosso do Sul, Mato Grosso e São Paulo e que ainda terão o reconhecimento de área livre nos próximos anos.

“Se não nos antecipássemos e fôssemos todos juntos, no mesmo bloco, não haveria essa proibição do trânsito de animais entre os estados e ninguém seria prejudicado”, observa.

Inicialmente, de acordo com o Plano Nacional do Ministério da Agricultura, o Paraná integrava o bloco 5, junto com os estados do Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. O planejado era que todos fossem declarados, ao mesmo tempo, áreas livre de febre aftosa sem vacinação, conferindo isonomia na condição sanitária, o que estava previsto para acontecer em 2022.

“O Paraná avançou nesse processo e conseguiu migrar para o bloco 1, junto com o Rio Grande do Sul, se unindo aos estados do Acre e Rondônia”, todos reconhecidos como área livre sem vacinação em maio último”, explica Rafael Gonçalves, da Agência de Defesa Agropecuária do Paraná (Adapar), vinculada à Secretaria da Agricultura.

Agora os estados do Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, São Paulo e Minas Gerais integram o bloco 4, cujo status sanitário ainda prevê a vacinação do rebanho, que não poderá ser comercializado para os outros estados.

Outro pecuarista paranaense, Fernando Barros, que cria gado em Umuarama, no Noroeste, diz que trazer animais do Acre, Rondônia e Rio Grande do Sul, de onde é permitido, fica inviável pelas longas distâncias e alto custo do frente. Barros também tem fazenda no Mato Grosso do Sul, de onde trazia os bezerros para a engorda no Paraná. “Eu era autossuficiente em bezerros e agora não sou mais”, diz.

Paraná pode se especializar na produção de bezerros

Para a Federação da Agricultura do Paraná (Faep), a nova situação em que o estado não pode mais trazer bezerros de fora, abre uma nova oportunidade para os pecuaristas se especializarem também na cria dos animais. A pecuária paranaense é mais especializada nas fases de recria (dos 9 aos 18 meses) e engorda (dos 18 aos 24 meses).

“A falta de bezerros para a engorda indica que há perspectiva para se fazer a cria aqui, sinalizando um ambiente positivo para a atividade crescer”, diz a médica veterinária da Faep, Nicolle Wilsek. Segundo ela, há possibilidade de os pecuaristas fazerem o ciclo completo (cria, recria e engorda) bem como de alguns se especializarem apenas nesta primeira fase de cria de bezerros, que é a maior deficiência do estado.

O presidente da Comissão Técnica de Bovinocultura de Corte da Faep, Rodolpho Botelho, diz que especialmente na última década, devido à grande rentabilidade das lavouras de soja e milho, a pecuária acabou migrando para áreas marginais, de baixa fertilidade do solo. “Por isso diminuiu o número de pecuaristas se dedicando à criação de bezerros”, observa. Botelho diz que é preciso levar informação e capacitação para os pecuaristas produzirem mais e com mais eficiência.

É o que preconiza o programa Pecuária Moderna, da Secretaria da Agricultura do Paraná. O programa visa, entre outras coisas, aumentar a produção de bezerros no estado. “Uma das formas é melhorar as pastagens e aumentar o número de animais por área”, explica o técnico do programa, Fábio Mezzadri.

Segundo ele, com melhoria da adubação e, consequentemente da pastagem, é possível aumentar a taxa de ocupação de 1,4 para 2 animais por hectare. “As pastagens têm que ser tratadas como lavouras, com correção de solo e adubação adequada para uma boa produção, o que vai garantir alimentação  de qualidade e em volume necessário para o rebanho”, diz o técnico. Mezzadri acredita que com a adoção das recomendações do programa o Paraná possa atingir a autossuficiência na produção de bezerros até 2025.

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