Pesagens intermediárias no confinamento: Compensa?

Pesagens intermediárias no confinamento: Compensa?

Foto Divulgação.

O confinamento no Brasil é uma atividade que tem crescido, mas do total de animais abatidos, apenas 13% seriam provenientes dessa modalidade de engorda.

Em função dos vários benefícios que ele traz aos sistemas de produção de carne bovina em que são inseridos, poderíamos esperar um valor mais alto, mas a taxa de adoção tem sido lenta.

No quadro abaixo, resumimos as vantagens e desvantagens do confinamento no Brasil Pecuário Central.

Fonte: Autor.

O destaque fica para o planejamento, que frequenta tanto a coluna das vantagens, como a das desvantagens. Parece um engano, mas não é!

Por exigir bastante empenho é um grande desafio, mas, sendo bem feito reduz muito as surpresas indesejadas.

De fato, como temos o controle de quais animais colocamos, da dieta que fornecemos e quanto tempo eles ficarão, é possível ter, mesmo antes de começar, uma boa chance de acertar o que vai acontecer.

A previsibilidade dos resultados é muito maior do que de animais em pastejo. Confinadores que vendem animais no mercado futuro têm uma boa ideia do quanto vão ganhar (ou perder), mesmo antes de fechar os animais.

Mas como averiguar se tudo caminha conforme o planejado?

Uma das formas de saber se o confinamento está indo bem é pela realização de pesagens intermediárias, mas elas devem ser feitas mesmo? Quantas vezes? Compensa?

A ideia deste texto é discutir ganhos e perdas associados com pesagens intermediárias e o que deve ser levado em consideração para tomar a decisão de fazê-las ou não.

Como uma das vantagens do confinamento é, exatamente, a redução do desvio de energia para atividades como caminhar e pastejar, a suspeita que levar os animais ao curral para pesagem possa interferir no desempenho, procede.

A distância e topografia até o curral são fatores importantes e, obviamente, quanto mais perto a balança estiver e mais plano for o caminho, menor o desvio de energia e, consequentemente, o menor prejuízo para o desempenho.

O grau de estresse da atividade de pesagem também pode contribuir. Esse efeito, todavia, depende muito do temperamento dos animais e de como eles são manejados. Quando conduzidos tranquilamente, seguindo boas técnicas de bem-estar animal, o estresse é reduzido. Além disso, os animais acabam se acostumando e, a cada ida, o nível de estresse é menor.

Outra questão importante é que, no dia que eles vão ao curral, o tempo para o consumo de alimentação diminui. O problema aqui não seria tanto o menor tempo para consumir a dieta, pois o animal no confinamento tem tempo de ócio sobrando. A desvantagem é, mesmo, “espremer” o consumo num tempo menor. Quanto maior o teor de concentrado na dieta, menos desejável é reduzir o tempo entre as refeições, que devem ser no mínimo duas por dia.

Com mais horas entre as refeições, há mais tempo para a recuperação do pH ruminal a níveis mais elevados, pois, a cada refeição ele cai (acidifica). Manter um pH mais estável resulta em um melhor aproveitamento da dieta e em menor risco de doenças metabólicas, como acidose e timpanismo, por exemplo.

Há casos de confinadores que pesam até semanalmente os animais. Assim, conforme exposto pelos pontos discutidos acima, está havendo uma troca: menor ganho dos animais em troca de maiores informações sobre o desempenho do confinamento.

Assim, para avaliar se esta troca compensa fazer, seria necessário responder as seguintes questões-chave: O que está sendo feito com a informação de ganho de peso semanal? Essa informação está sendo usada para tomar alguma atitude gerencial que justifique fazer essas pesagens intermediárias?

Assim, considerando:

1) Que uma das premissas básicas do confinamento é “quanto menos mexer com os animais, melhor”, para que a máximo de energia ingerida vá para o ganho de peso;

2) Que em um confinamento bem planejado, com animais bem selecionados, uma dieta adequadamente balanceada e com um manejo consistente, o desempenho costuma ficar muito próximo do estimado;

3) Que, no Brasil, confinamentos costumam ser de curta duração (próximo aos 90 dias) e, portanto, tem menos tempo para diluir a “quebra” de desempenho a cada pesagem;

4) E que, principalmente, só compensa gerar dados (peso semanal dos animais) que sejam transformados em informação (desempenho dos animais) e que, efetivamente, resultem em alguma ação gerencial que traga algum efeito positivo (retirar animais de baixo desempenho do confinamento);

Talvez, a melhor opção em muitos casos seja não fazer pesagem nenhuma.

Ainda assim, fazer ao menos uma pesagem no meio do confinamento pode ser interessante para se certificar que tudo vai bem e, identificando problemas, fazer as devidas mudanças. Por exemplo, aumentar o concentrado para fazer os animais ganharem mais e, assim, manter a data prevista de abate. Importante destacar que essa decisão seria tomada mais com base na média do desempenho dos lotes e menos com relação ao peso dos animais individualmente.

Aliás, um bom alerta para o caso de pesos individuais em curtos períodos é que, devido as diversas fontes variação que influenciam o peso dos animais no dia-a-dia, o resultado pode ser enganoso.

Por exemplo, no caso da pesagem semanal, se o animal for pesado logo após ingerir 7 litros de água, ele pesará 7 kg a mais do que seu “peso real” e isso fará com que 1 kg/dia de ganho de peso medido para ele seja apenas uma ilusão “hídrica”, ou seja, a informação gerada é que ele ganhou 2,3 kg/dia quando, na verdade, ele ganhou 1,3 kg/dia! Observe que, mesmo que se fossem 14 dias (pesagem a cada duas semanas), teríamos ainda 0,5 kg de superestimativa no peso.

Uma novidade é que já é possível comprar balanças que ficam dentro do confinamento e pesam automaticamente os animais no momento em que eles vão beber água. Com essa balança é possível ter pelo menos um dado de peso diário de cada animal.

Esses dados são automaticamente registrados, portanto, permitindo um controle fino sobre o ganho individual dos animais. Um dos grandes apelos seria tirar o “boi ladrão”, aquele que tem um ganho muito inferior ao esperado. O curioso é que, mesmo com toda essa tecnologia e parecendo ser algo tão simples, na prática isso tem se mostrado mais complicado do que pareceria a princípio, em função de diversos fatores que podem interferir no ganho a curto prazo (ingestão de alimento e água, brigas, contusões, etc.), conforme já exemplificado acima. Esse assunto certamente merecerá um futuro artigo só dele.

No final das contas podemos resumir tudo assim: Para acompanhar o desempenho ao longo do confinamento pode ser interessante avaliar o peso dos animais, mas devemos limitar ao máximo as pesagens para evitar que elas comprometam o desempenho. Além disso, a operação de pesagem deve ser feita da maneira menos estressante possível, os dados gerados devem ser avaliados com a devida cautela e efetivamente usados para tomada de ações gerenciais que justifiquem o custo do trabalho e da perda de desempenho.

Autor: Sergio Raposo de Medeiros

As Informações são da Scot Consultoria.

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