Política de Trump impulsiona contratação de robôs para substituir mexicanos

Ritmo de automatização das fazendas de leite nos EUA acelera por causa do cerco aos imigrantes não documentados

Os robôs estão chegando – e desta vez numa propriedade rural perto de você. Não faz muito tempo o uso de robôs para tirar leite de vacas era uma novidade, mas, agora, a automação avança por um número cada vez maior de propriedades americanas.

Um fator político impulsiona esta tendência: mais de metade de todos os trabalhadores das granjas leiteiras são migrantes e o posicionamento linha-dura da administração Trump sinaliza que essa mão de obra ficará mais escassa. O uso de robôs pode cortar pela metade o número de trabalhadores na ordenha.

Além da preocupação com a escassez da mão de obra, contam a favor dos robôs o crédito barato e o incremento das tecnologias nessa área – diz Mark Stephenson, analista de pecuária de leite da Universidade de Wisconsin, em Madison.

“Temos o caso de pessoas que trabalhavam há anos em algumas fazendas, mas foram embora porque tinham medo de ser flagradas sem documentos”, aponta Stephenson. “Você não quer acordar num belo dia e descobrir que tem mil vacas para ordenhar e ninguém para fazer o trabalho”.

Atualmente, menos de 5% das fazendas de leite nos Estados Unidos utilizam robôs. Esse número provavelmente irá aumentar de 20 a 30% pelos próximos anos, segundo Chad Huyser, vice-presidente da Lely na América do Norte, uma fabricante de robôs de ordenha com sede em Pella, no Iowa. Em todo o mundo, a indústria de robôs para granjas leiteiras já é um negócio de US$ 1,6 bilhão, número que continuará a crescer segundo relatório de janeiro da empresa de pesquisas IDTechEx.

Se os primeiros protótipos de ordenhadeiras mecânicas não funcionavam bem, hoje a tecnologia se tornou viável e confiável – acrescenta Stephenson. Os robôs fazem o trabalho de colocar as teteiras das vacas, de tirar o leite e limpar o úbere dos animais. No sistema mais difundido, as vacas caminham sozinhas para a sala de ordenhas, conforme sentem necessidade, e um robô dá conta de 60 vacas por dia. A mecanização também avança no trabalho de abastecimento dos cochos e limpeza dos dejetos.

Investimento alto

Trata-se de um “upgrade” caro. Uma unidade robótica pode custar algumas centenas de milhares de dólares, lembra a professora de pecuária de leite Marcia Endres, da Universidade de Minnesota, que tem feitos estudos econômicos sobre o uso dos robôs leiteiros. Mas se a máquina durar cerca de 15 anos e se o custo total do produtor com empregados for de US$ 25 a US$ 30 por hora, é possível pagar o investimento ao final desse período.

“Você tem que desembolsar o dinheiro que gastaria com mão de obra em sete a oito anos, dependendo do empréstimo que conseguir”, aponta Chad Kieffer, que reduziu o número de empregados pela metade na fazenda da família Kiefland Holsteiins, em Utica, Minnesota. Hoje eles têm cinco robôs que ordenham 300 vacas.

Com a conversa da Casa Branca de construir um muro entre o México e os Estados Unidos, e com o recente impasse sobre imigração que “fechou” o governo por três dias, há temores de que diminua ainda mais a oferta de mão de obra estrangeira para trabalhar na agricultura, incluindo os imigrantes não-documentados. No início do mês, um pecuarista de leite de Michigan foi condenado a dois anos de cadeia por contratar imigrantes clandestinos.

Na opinião de Bruce Dehm, consultor de Nova York que trabalha com análise de risco de propriedades leiteiras, o aumento nos custos laborais continuará a empurrar as propriedades para a automação. Como será mais difícil trazer os imigrantes, a hora trabalhada deles também deverá ficar mais cara. No estado de Nova York, onde os pisos salariais vêm aumentando, Dehm projeta que o custo da mão de obra, por vaca, aumentará 22% nos próximos cinco anos.

As vacas costumam gostar da vida regida por robôs. Elas ganham mais autonomia e não são interrompidas toda hora por seres humanos – diz Matt Gould, editor da newsletter Dairy & Food Market Analyst, da Filadélfia. Sem as pessoas por perto, comportamentos mais naturais, como lamberem-se mutuamente, começam a aparecer no rebanho.

Josh Folts, proprietário da fazenda Folts Farms, em North Collins, estado de Nova York, começou seu negócio no leite do zero, dois anos atrás, e hoje tem dois robôs que ordenham 120 vacas. O equipamento exigiu investimento de US$ 400 mil. Agora, diz Folts, com ajuda do maquinário, a propriedade produz leite com qualidade acima da média porque as vacas estão menos estressadas.

“Com a automação, temos mais tempo livre também”, acrescenta o produtor. “Podemos sair para jantar e não perco mais nenhum jogo de hockey de meu filho de 12 anos”.

“Só não temos mão de obra de imigrantes porque, de saída, começamos com os robôs, ou seja, não temos necessidade”, completa. “Estávamos à frente do tempo, já que, antes da eleição, ninguém andava tão assustado com a falta de trabalhadores como vemos agora”.

Robôs se popularizam também no Brasil

No Brasil, o uso de ordenhadeiras automatizadas vêm crescendo nas propriedades mais tecnificadas das bacias leiteiras, como nos Campos Gerais do Paraná. Como a atividade leiteira ainda é muito pulverizada (envolve mais de um milhão de pequenos produtores), não há estatísticas confiáveis sobre o grau de implantação da tecnologia.

Na hora da ordenha, além de colocar as teteiras nos úberes, guiado por raio laser, o maquinário oferece a cada vaca a quantidade certa de ração (conforme estatísticas individuais de produtividade), faz a higienização, controla a temperatura ambiente, comanda a limpeza do piso e direciona o leite para o tanque de resfriamento.

Na Europa cerca de 50% das novas instalações leiteiras são automatizadas, da ordenha à alimentação, segundo cálculos do centro de inovação Teagasc, com sede na Irlanda.

As Informações são da Gazeta do Povo.

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