Por que alguns bezerros usam uma “placa” no nariz? Entenda a técnica usada no desmame

A tabuleta nasal impede temporariamente a mamada e permite que o bezerro continue próximo da vaca antes da separação definitiva; pesquisas mostram que a estratégia pode alterar o comportamento dos animais, mas exige cuidados com desempenho e lesões

A chamada placa no nariz do bezerro é usada em alguns sistemas de criação como parte do desmame em duas etapas. O dispositivo, também conhecido como tabuleta nasal ou nose flap, é preso às narinas para dificultar ou impedir que o animal consiga mamar. Dependendo do modelo utilizado, o bezerro continua capaz de consumir pasto, suplemento e água enquanto permanece no mesmo ambiente da mãe.

A proposta é evitar que a retirada do leite e a separação física aconteçam exatamente no mesmo momento. Primeiro, o bezerro deixa de mamar e permanece em contato com a vaca; posteriormente, os dois são separados. Essa divisão pode modificar a resposta comportamental ao desmame, mas não elimina a necessidade de planejamento nutricional, sanitário e de bem-estar. Continue a leitura e acompanhe o Compre Rural, onde informação de qualidade ajuda a fortalecer quem vive e produz no campo.

Como a placa no nariz do bezerro impede a mamada?

Nos modelos de nose flap descritos pela New Mexico State University, a peça cria uma barreira na região da boca quando o bezerro tenta alcançar o teto. A instituição informa que, durante essa primeira fase, os animais podem permanecer com as mães por períodos que variam conforme o protocolo, citando intervalos entre 4 e 14 dias. Depois disso, o dispositivo é retirado e ocorre a apartação.

No Brasil também existem registros de outro formato de tabuleta. Documento da Embrapa Agropecuária Oeste descreveu o uso do equipamento em propriedades leiteiras de Dourados, em Mato Grosso do Sul. Nesse modelo, a peça impedia a amamentação ao provocar desconforto na vaca quando o bezerro tentava mamar.

É uma lógica diferente da desmama lado a lado, na qual vacas e bezerros ficam em piquetes separados por uma cerca e ainda conseguem manter contato visual e social durante parte da transição.

A técnica realmente reduz o estresse do desmame?

Os resultados científicos são mistos.

Alguns trabalhos encontraram redução de vocalizações e de caminhadas depois que os animais que utilizaram a tabuleta foram finalmente separados das mães. A New Mexico State University, ao revisar pesquisas sobre o método, conclui que o desmame em duas etapas pode diminuir determinados comportamentos relacionados ao estresse em comparação com a separação abrupta. A mesma publicação, contudo, aponta que a vantagem não aparece de forma uniforme quando desempenho e ganho de peso entram na análise.

Um experimento da Auburn University, publicado em 2023 no Journal of Animal Science, comparou desmame abrupto, uso de nose flap e separação pela cerca. No período de 14 dias analisado, os bezerros mantidos na linha de cerca apresentaram o maior ganho médio diário, de 1,08 kg por dia. O grupo submetido ao desmame abrupto chegou a perder, em média, 0,15 kg por dia no mesmo intervalo.

Isso reforça que impedir a mamada antes da apartação não transforma automaticamente a tabuleta na estratégia de melhor desempenho. A estrutura disponível na propriedade, adaptação ao cocho, oferta de forragem e manejo dos animais continuam sendo determinantes.

Outra alternativa para preparar o bezerro para depender menos do leite é o creep-feeding, que introduz suplementação em cochos acessíveis somente às crias antes da desmama.

Pesquisa de 2026 encontrou mudança no comportamento, mas não vantagem clara

Um estudo publicado em abril de 2026 no The Veterinary Journal avaliou 48 pares de vacas e bezerros em diferentes estratégias de desmame, incluindo o uso de nose flap e a presença de uma vaca adulta funcionando como facilitadora social após a separação.

Os animais que utilizaram a peça apresentaram menos vocalização, caminhada e permanência em pé em determinados momentos e passaram mais tempo pastejando. Entretanto, os autores observaram comprometimento do desempenho dos bezerros associado ao uso do dispositivo e concluíram que a presença da vaca facilitadora promoveu adaptação pós-desmame mais rápida do que a tabuleta nasal.

Portanto, medir apenas quanto o bezerro vocaliza ou caminha pode não ser suficiente para determinar qual estratégia é melhor. Comportamento, ganho de peso, alimentação, saúde e integridade física precisam ser avaliados em conjunto.

Lesões nas narinas estão entre os riscos observados

O ponto de contato da peça com o septo nasal merece atenção.

Um relato científico publicado em 2022 acompanhou 41 bezerros Nelore e cruzados Angus x Nelore que receberam um modelo comercial de nose flap durante cinco dias. Todos apresentaram pelo menos uma ferida aberta na região do septo nasal no momento da avaliação, 26,8% perderam o dispositivo e quase metade perdeu peso durante o período de utilização.

Os próprios pesquisadores alertam que o resultado se refere ao dispositivo e às condições avaliadas naquele trabalho e defendem mais estudos antes de classificar indiscriminadamente o método como uma prática de baixo estresse.

Há também um registro brasileiro mais antigo e relevante. Pesquisa publicada em 2003 na Pesquisa Veterinária Brasileira investigou casos de síndrome do abscesso pituitário em oito propriedades do Rio Grande do Sul entre 1998 e 2002. Entre 2.438 bezerros que haviam utilizado tabuleta nasal, aproximadamente 35 animais, ou 1,4%, adoeceram, e 24 morreram. Os pesquisadores associaram os casos a lesões traumáticas no septo nasal e infecção subsequente.

Esses números não significam que 1,4% dos bezerros que utilizam qualquer tabuleta desenvolverão a doença. O levantamento analisou propriedades onde os problemas já haviam sido registrados, além de refletir dispositivos e condições de manejo daquele período. O dado serve principalmente como alerta para a necessidade de evitar traumatismos, manter higiene e acompanhar a região nasal dos animais.

O que observar antes de adotar a tabuleta nasal

Não basta colocar a peça e retornar ao lote apenas no dia da retirada. O modelo do equipamento, seu ajuste e o período de permanência precisam ser avaliados.

A New Mexico State University recomenda evitar superfícies ou saliências que possam irritar o nariz dos bezerros. O documento da Embrapa também chama atenção para os riscos decorrentes de injúrias provocadas pela tabuleta.

Na prática, o produtor deve acompanhar se há ferimentos, sangramento, secreção, inflamação, dificuldade para pastejar ou consumir suplemento e perda excessiva de condição corporal. Qualquer alteração importante exige avaliação profissional.

A preparação anterior ao desmame também influencia a resposta dos animais. Disponibilidade de pastagem, água de fácil acesso e familiarização com o cocho ajudam a reduzir mudanças bruscas na dieta. A definição do momento adequado para o desmame deve considerar idade, desenvolvimento do bezerro, condição corporal das matrizes, oferta de alimento e estrutura da fazenda.

Por isso, a placa no nariz deve ser vista como uma das ferramentas disponíveis para o manejo do desmame, e não como solução superior em qualquer situação. A curiosa peça presa ao focinho tem uma função bem definida: interromper a mamada antes da separação. O resultado, porém, depende de como, por quanto tempo e em quais condições ela é utilizada.

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ℹ️ Conteúdo publicado pela estagiária Ana Gusmão sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira

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