Por que o gado às vezes forma círculos no pasto? Comportamento intriga quem observa o rebanho

Cena curiosa registrada em rebanhos tem explicação comportamental e pode servir de alerta para a presença de insetos capazes de afetar o bem-estar e a produtividade dos animais

Quem acompanha o gado diariamente pode, de vez em quando, encontrar uma cena incomum: dezenas de animais muito próximos, formando uma espécie de roda no meio do campo. Quando o rebanho forma círculos no pasto, porém, nem sempre se trata de uma movimentação aleatória. Pesquisas sobre comportamento bovino mostram que esse agrupamento pode funcionar como uma resposta coletiva diante de situações de forte incômodo, principalmente durante ataques da mosca-dos-estábulos.

O fenômeno é conhecido internacionalmente como bunching e já foi observado também no Brasil. A disposição organizada dos bovinos chama atenção pela aparência, mas, para quem produz, pode representar uma informação importante sobre o que está acontecendo dentro da propriedade.

Por que o gado forma círculos no pasto?

Uma das causas mais documentadas para esse comportamento é a presença da mosca-dos-estábulos (Stomoxys calcitrans), inseto hematófago cuja picada é dolorosa para os bovinos.

Quando submetidos a uma pressão intensa desses insetos, os animais tendem a reduzir a distância entre si. A estratégia cria uma concentração de corpos que dificulta o acesso das moscas a algumas partes dos bovinos posicionados no interior do grupo.

Estudos sobre bunching indicam justamente que permanecer no centro da formação pode representar vantagem: os animais mais internos ficam menos expostos às picadas do que aqueles localizados nas bordas. É também por isso que existe movimentação constante entre os bovinos durante determinados episódios.

O círculo, portanto, não precisa ser interpretado como uma formação deliberadamente coordenada. Ele surge da soma das respostas individuais dos animais procurando posições menos vulneráveis.

Pesquisadores brasileiros já registraram o chamado “rodeio”

O fenômeno também possui registros científicos em condições brasileiras.

Pesquisadores da Embrapa Pantanal e da Embrapa Gado de Corte acompanharam surtos da mosca-dos-estábulos em propriedades pecuárias de Mato Grosso do Sul e descreveram um comportamento chamado de “rodeio”.

Durante os surtos analisados, os bovinos permaneciam aglomerados em formato circular durante períodos prolongados. Outro aspecto importante observado pelos pesquisadores foi que, durante a formação, os animais ficavam de pé e interrompiam a alimentação.

Os indivíduos posicionados nas bordas apresentavam maior inquietação porque continuavam mais expostos aos ataques das moscas. O estudo também registrou elevada infestação de Stomoxys calcitrans nas propriedades visitadas.

Esse registro é particularmente relevante porque demonstra que a cena observada no campo brasileiro não é apenas uma curiosidade difundida em vídeos de redes sociais: há documentação científica do comportamento em rebanhos nacionais.

Forma círculos no pasto e perde tempo de alimentação

O agrupamento pode proteger parcialmente o animal contra as picadas, mas possui um custo.

Enquanto permanece concentrado junto aos demais, o bovino pode deixar atividades importantes em segundo plano, como alimentação e descanso. Em sistemas leiteiros, pesquisadores começaram a medir também os reflexos dessa mudança de comportamento sobre a produção.

Um estudo publicado em 2025 na revista científica Veterinary Sciences analisou o bunching em vacas Holandesas de uma propriedade comercial da Califórnia. Foram consideradas 12.262 observações de produção envolvendo 1.073 vacas acompanhadas durante o período analisado.

Nos dias em que o agrupamento ocorreu, os animais envolvidos apresentaram redução média de 0,45 kg de leite por vaca/dia, após o modelo estatístico considerar fatores como temperatura, umidade, estágio de lactação e número de lactações. Segundo os autores, o impacto estimado ficou próximo de 1% a 1,5% da produtividade diária dos animais avaliados.

Os resultados pertencem às condições específicas do estudo e não significam que todo rebanho apresentará a mesma perda. Ainda assim, mostram que uma reação aparentemente simples contra insetos pode ter consequência econômica mensurável quando ocorre repetidamente.

Nem todo movimento circular tem a mesma explicação

Há uma diferença importante entre vários bovinos agrupados em círculo e um animal sozinho caminhando repetidamente de maneira circular.

No bunching, existe um comportamento coletivo. Diversos indivíduos se concentram fisicamente em uma mesma área, normalmente em resposta a algum fator ambiental ou de desconforto.

Já quando um único bovino começa a caminhar constantemente para um lado, apresenta perda de equilíbrio, alteração de comportamento ou outros sinais neurológicos, a situação exige outra avaliação.

A listeriose, por exemplo, pode afetar o sistema nervoso de ruminantes e causar sinais como movimentos circulares, inclinação da cabeça, alterações faciais e dificuldade de coordenação.

Por isso, um animal isolado andando em círculos não deve ser confundido automaticamente com o agrupamento defensivo do rebanho. Alterações neurológicas justificam avaliação veterinária para definição da causa.

O que observar quando o gado forma círculos no pasto

Encontrar a formação uma única vez não basta para determinar o motivo. O contexto ajuda a entender o que está ocorrendo.

Caso o rebanho apresente intensa movimentação das patas, uso frequente da cauda para afastar insetos, agitação e concentração exagerada dos animais, vale verificar a presença de moscas e as condições ambientais da propriedade.

No caso da mosca-dos-estábulos, a atenção deve ir além dos insetos adultos. Suas larvas se desenvolvem em materiais orgânicos úmidos e em decomposição, o que torna determinados resíduos da atividade pecuária locais favoráveis à multiplicação da espécie. Estudos brasileiros também identificaram ambientes de reprodução tanto em propriedades rurais quanto em áreas relacionadas à atividade sucroenergética durante surtos investigados em Mato Grosso do Sul.

Restos de alimentação, material vegetal acumulado e locais excessivamente úmidos merecem atenção dentro de uma estratégia de manejo integrado.

O principal valor da observação está justamente nisso: mudanças no comportamento coletivo podem antecipar problemas que ainda não ficaram evidentes por outros indicadores da propriedade.

Um círculo no pasto pode dizer mais do que parece

O comportamento dos bovinos é uma fonte constante de informação para quem acompanha o rebanho.

Uma formação circular aparentemente curiosa pode revelar uma tentativa coletiva de reduzir o desconforto provocado por insetos. Quando o fenômeno se torna frequente, deixa de ser apenas uma cena diferente no campo e passa a justificar uma investigação sobre as condições do ambiente e dos animais.

ℹ️ Conteúdo publicado pela estagiária Ana Gusmão sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira

Quer ficar por dentro do agronegócio brasileiro e receber as principais notícias do setor em primeira mão? Para isso é só entrar em nosso grupo do WhatsApp (clique aqui) ou Telegram (clique aqui). Você também pode assinar nosso feed pelo Google Notícias

Não é permitida a cópia integral do conteúdo acima. A reprodução parcial é autorizada apenas na forma de citação e com link para o conteúdo na íntegra. Plágio é crime de acordo com a Lei 9610/98.

Siga o Compre Rural no Google News e acompanhe nossos destaques.
LEIA TAMBÉM
NEWSLETTER COMPRERURAL

Receba as nossas
principais notícias

Conteúdo sobre o agronegócio, direto no seu e-mail.

🔒 Não enviamos spam. Você pode cancelar quando quiser.