Por que vacas perdem peso mesmo quando ainda existe capim no pasto?

A quantidade de forragem visível pode enganar: baixa qualidade nutricional, excesso de colmos e dificuldade de consumo ajudam a explicar a queda no escore corporal do rebanho

Vacas perdem peso mesmo quando ainda existe capim no pasto porque a presença de vegetação não significa, necessariamente, que exista alimento nutritivo e acessível em quantidade suficiente. Em muitos casos, o piquete mantém uma aparência verde ou volumosa, enquanto as partes mais aproveitáveis da planta já se tornaram escassas.

O desempenho do rebanho depende menos do volume observado à distância e mais daquilo que os animais conseguem colher, ingerir e digerir. Quando predominam colmos endurecidos, folhas envelhecidas e material seco, o pasto pode permanecer visualmente ocupado, mas oferecer pouco valor alimentar.

Nem todo capim disponível entra na dieta

Os bovinos não consomem a pastagem de maneira uniforme. Durante o pastejo, procuram principalmente folhas verdes e tenras, deixando para trás estruturas mais fibrosas e difíceis de apreender.

Pesquisas conduzidas com forrageiras tropicais mostram que a dieta selecionada pelos animais é formada, em grande parte, por folhas. Isso ajuda a entender por que um piquete pode conservar bastante massa vegetal e, ainda assim, não sustentar o desempenho esperado.

Quando a quantidade de folhas diminui, cada bocado se torna menor. A vaca precisa caminhar mais, selecionar melhor o alimento e permanecer por mais tempo em atividade, sem necessariamente alcançar o consumo diário necessário.

O pasto pode ter volume, mas pouca qualidade

O avanço da maturidade da planta modifica sua composição. À medida que o capim envelhece, aumenta a proporção de fibras e colmos, enquanto a digestibilidade e a concentração de nutrientes tendem a cair.

Esse processo ocorre com frequência em áreas manejadas com lotação abaixo da capacidade durante o período chuvoso. Sem consumo ou corte adequado, a forrageira passa do ponto, acumula material morto e perde qualidade.

Por isso, uma grande sobra no campo não representa obrigatoriamente uma reserva alimentar eficiente. Em determinadas situações, ela revela que o pasto não foi aproveitado no momento ideal.

Por que vacas perdem peso durante a seca?

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Foto: Divulgação

Durante a estação seca, o problema se intensifica. A redução das chuvas interfere no crescimento das plantas, na produção de folhas e no teor de proteína da forragem.

A Embrapa Gado de Corte alerta que a queda simultânea na quantidade e na qualidade das pastagens exige planejamento antecipado. Sem uma estratégia alimentar, o rebanho pode entrar em déficit nutricional antes que o produtor perceba uma mudança expressiva na aparência do piquete.

Nessa fase, o capim costuma apresentar maior quantidade de fibra e menor digestibilidade. O alimento permanece mais tempo no rúmen, reduzindo a velocidade de passagem e limitando a ingestão de novas porções.

O resultado é um consumo abaixo das necessidades do organismo. Para manter funções vitais, gestação ou produção de leite, a vaca passa a utilizar suas próprias reservas corporais.

Baixa proteína compromete o aproveitamento da forragem

A deficiência de proteína bruta é uma das principais limitações das pastagens maduras. Quando o teor cai para níveis muito baixos, os microrganismos do rúmen deixam de receber nitrogênio suficiente para trabalhar de forma eficiente.

Orientações técnicas da Embrapa indicam atenção especial quando a proteína bruta da dieta fica abaixo de aproximadamente 7% da matéria seca. Nessa condição, a digestão da fibra pode ser prejudicada, mesmo quando ainda existe uma quantidade considerável de forragem no campo.

Isso significa que o problema não está apenas no que falta ao animal, mas também na capacidade de aproveitar aquilo que ele consegue consumir.

A mistura mineral continua importante para corrigir carências de minerais, mas não substitui energia ou proteína. Dependendo do cenário, pode ser necessário adotar suplemento proteinado ou proteico-energético, definido conforme a categoria animal, a condição do pasto e o objetivo produtivo.

A estrutura do pasto interfere no consumo

A altura da forrageira, isoladamente, não determina sua qualidade. O que realmente importa é a estrutura formada por folhas, colmos e material morto.

Em pastos muito baixos, a quantidade de alimento obtida em cada bocado é reduzida. Em áreas excessivamente altas ou passadas, a seleção das folhas se torna mais difícil.

Estudos publicados na área de comportamento ingestivo demonstram que mudanças na estrutura do dossel alteram o tamanho do bocado, a velocidade de consumo e o tempo gasto no pastejo.

Cada cultivar possui uma faixa de manejo própria. Por isso, recomendações de altura devem considerar a espécie forrageira e o sistema utilizado, evitando a aplicação de uma medida única para todas as propriedades.

Categorias mais exigentes sentem primeiro

A mesma pastagem pode ser suficiente para determinado grupo e inadequada para outro. Vacas secas e adultas apresentam necessidades diferentes das fêmeas em lactação, no final da gestação ou ainda em crescimento.

As primíparas merecem atenção especial. Além de produzir leite e recuperar-se do parto, essas fêmeas ainda precisam direcionar nutrientes para completar o desenvolvimento corporal.

Quando a oferta nutricional é limitada, as categorias mais exigentes costumam perder condição corporal primeiro. Essa queda pode comprometer a produção de leite, prolongar o intervalo entre partos e dificultar a recuperação reprodutiva.

Lotação inadequada também favorece a perda de peso

A taxa de lotação precisa acompanhar a disponibilidade e a capacidade de recuperação da pastagem. Quando há animais demais, o consumo ocorre mais rapidamente do que a rebrota. Quando há animais de menos, o capim envelhece e perde qualidade.

Nos dois extremos, o aproveitamento da área diminui.

A avaliação deve considerar não apenas o número de cabeças, mas também o peso médio, a categoria do rebanho, a época do ano e a produtividade da forrageira. Ajustes feitos apenas pela aparência do campo podem levar a decisões equivocadas.

Parasitas e doenças não devem ser descartados

Quando a pastagem e a suplementação aparentam estar adequadas, o emagrecimento pode ter origem sanitária.

Verminoses gastrointestinais reduzem o aproveitamento dos nutrientes e podem causar perda de sangue, diarreia, fraqueza e queda no desempenho. Carrapatos e moscas também aumentam o estresse e favorecem a transmissão de doenças.

O controle deve ser orientado por avaliação clínica, histórico da propriedade e, quando necessário, exames laboratoriais. O uso frequente de medicamentos sem diagnóstico pode aumentar custos e favorecer a resistência dos parasitas aos princípios ativos.

Como identificar o problema antes que o rebanho emagreça

A condição da pastagem deve ser acompanhada junto com a resposta dos animais. Observar apenas o campo não é suficiente.

Entre os principais indicadores estão:

  • escore de condição corporal;
  • disponibilidade de folhas verdes;
  • altura e estrutura da forrageira;
  • presença de colmos e material seco;
  • consumo de suplemento;
  • acesso à água;
  • ganho ou perda de peso;
  • condição sanitária do lote.

A análise bromatológica também pode revelar deficiências que não são perceptíveis visualmente. Com essas informações, o produtor consegue decidir se precisa ajustar a lotação, mudar o manejo, fornecer suplementação ou investigar problemas clínicos.

Capim no campo não é garantia de alimento suficiente

A perda de peso não ocorre apenas quando o pasto desaparece. Ela pode começar enquanto o piquete ainda mantém cobertura vegetal, caso a forragem não apresente qualidade, estrutura ou disponibilidade compatíveis com a necessidade do rebanho.

A decisão mais segura é avaliar o pasto pelo que ele entrega nutricionalmente, e não apenas pelo volume aparente. O que sustenta o desempenho da vaca é a quantidade de nutrientes efetivamente consumidos e aproveitados pelo organismo.

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ℹ️ Conteúdo publicado pela estagiária Ana Gusmão sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira

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