Por uma nova pecuária brasileira

O fato é que o Brasil foi alçado ao posto de grande produtor e maior exportador do mundo de carne bovina por condições naturais e agora precisa reinventar-se para alçar novos vôos.

Por Fernando Sampaio

O livro Carne e Osso lançado em 2015 pela Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carne traz um relato inédito sobre as origens e a evolução da indústria da carne brasileira, a reboque da pecuária e do avanço do gado no território brasileiro.

O fato é que o Brasil foi alçado ao posto de grande produtor e maior exportador do mundo de carne bovina por condições naturais de espaço, água e insolação, por gente de coragem para empreender e avançar fronteiras, mas muito mais por inovação.

Nos primórdios de nossa indústria, a grande inovação era o charque. O sal conservava a carne e as charqueadas gaúchas abasteciam o grande mercado do Brasil Colônia com essa proteína. O Corned Beef, a carne enlatada foi outra inovação que permitiu que as multinacionais americanas e inglesas aqui instaladas no início de século passado abastecessem tropas e mercados em todo o globo.

A refrigeração foi outra inovação, que permitiu que o comércio de carne in natura ganhasse o mundo. O invencível binômio zebu-braquiária foi a inovação que fez nosso rebanho multiplicar-se e conquistar o Brasil central. Outras inovações vieram, algumas institucionais como um sistema de inspeção organizado, e outras técnicas como a mineralização do rebanho, os avanços em saúde animal, cruzamentos indústrias e inseminação artificial, confinamentos, semi confinamentos, pastejo rotacionado e a integração lavoura pecuária que mal começa a entregar valiosos frutos. Agora entramos na era da pecuária de precisão, de drones e softwares.

Mesmo o sistema agroindustrial da carne brasileiro chega a um ponto delicado de sua história. Somos os maiores exportadores do mundo, mas ainda sofremos restrições e barreiras de mercados importantes. Achamos que nossa carne é a melhor do mundo, mas, lá fora, a vendemos como commodity barata, e perdemos em imagem e percepção de qualidade para outros países produtores que exportam bem menos.

Temos indústrias de ponta convivendo lado a lado com matadouros medievais. Temos uma legislação obsoleta quando precisamos ser mais competitivos. Temos inúmeras formas de consumir carne no Brasil, e quem lança modas como hambúrguer gourmet, dry aged e outras são os gringos. Somos muito bons dentro das fábricas e fazendas, e péssimos fora delas em ambiente de negócios e infraestrutura. Temos produtores extremamente eficientes e gente que usa o boi como desculpa para ocupar terra.

Indústria e produtores ainda se veem como antagonistas em disputas de preço e peso, quando deveriam trabalhar juntos para ampliar mercado. Temos grandes ativos ambientais e um código florestal sem paralelo no mundo, e nossa carne é acusada de ser a causa do desmatamento.

Por todos esses desafios, e para se manter no topo, o Brasil precisará necessariamente continuar inovando. Inovando como? Que inovações são essas? Quais serão as tecnologias que iremos precisar para nos manter competitivos nas fazendas e nos frigoríficos? Que papel pode ter a automação nisso, a internet das coisas, a nanotecnologia, a geotecnologia? Como vai se comportar o consumidor mundial, quais as tendências de mercado? Que tipo de carne vão consumir, que atributo procuram, como deve ser o posicionamento do Brasil? Qual o impacto da carne de laboratório que bilionários investidores dizem poder tornar viável em poucos anos? Dos movimentos por direitos dos animais? Quais os desafios sanitários, seus riscos, como responde a política pública brasileira? Quais os reais impactos ambientais da pecuária? Enquanto o mundo discute se deve ou não comer carne, como o Brasil pode se inserir de forma diferenciada nessa discussão?.

Temos sim novas tecnologias surgindo e disponíveis aos produtores. Mas não é só isso. Hoje, infelizmente, dedicamos boa parte do tempo a apagar incêndios presentes, e o ambiente do país não ajuda o setor privado a pensar no longo prazo.

Precisamos pensar como cadeia produtiva inserida em um mercado global, e o setor precisa desesperadamente de fóruns qualificados para debater seu futuro e as políticas que irão definir o seu futuro. O GTPS é uma exceção, que tem trabalhado brava e valorosamente em um dos aspectos da cadeia que mais precisam ser debatidos, a sustentabilidade.

Vamos ao contexto. Mudanças climáticas hoje fazem parte da agenda geopolítica global. Segundo a teoria, o homem causa mudanças climáticas ao despejar CO2 na atmosfera. Esse CO2 nos países ricos vem de energia e transportes, nos países em desenvolvimento de desmatamento e agropecuária.

Diante dessa teoria, corroborada pela grande maioria da comunidade científica, países mobilizam-se, pressionados pela sociedade, criarem acordos, compromissos e políticas relacionados ao clima.
O outro fato dado neste contexto é a relação estabelecida entre florestas e clima. Há vários anos esse elo é reforçado, por estudos, conferências, artigos que tornam a discussão de clima indissociável da discussão da preservação de florestas.

Goste-se ou não disso, esta é a realidade com a qual o setor precisa lidar.

Acordos, compromissos e políticas que surgem em grande parte dos países (e mercados) geram também acordos, compromissos e políticas no setor privado, seja em agentes financiadores e investidores, seja em compradores de produtos em cujas cadeias existe o risco do desmatamento.
Como a pecuária brasileira pode encarar esta realidade e ganhar com ela?

O primeiro ponto que nos interessa é que a pecuária evoluiu muito em produtividade no Brasil por causa de mercado. A atividade deixou de ser um efeito colateral da ocupação do território e uma poupança viva (live-stock) que garantia sobrevivência em um país de economia caótica para ser, depois do fim da inflação, uma atividade econômica que precisa dar lucro. E o aumento de eficiência veio porque o Brasil estava inserido num mercado global de carne.

Mercado é o que interessa para manter a atividade sustentável do ponto de vista econômico. O efeito positivo ao meio ambiente decorrente do aumento de eficiência, com redução de emissões e diminuição da pressão por novas áreas, demonstra que a sustentabilidade ambiental (e social) não são incompatíveis com o desenvolvimento econômico do setor.

Em segundo lugar, hoje, com a construção de cadeias globais de fornecimento, as grandes empresas multinacionais processadoras e varejistas adotam critérios para reduzir o desmatamento em suas cadeias de fornecimento de commodities, especialmente aquelas produzidas em zonas tropicais.

De certa forma não há uma régua única que diga se um produto é sustentável ou não. Existem processos de certificação disponíveis no mercado, processos de melhoria contínua acontecendo, e às vezes as próprias empresas encarregam-se de determinar o tamanho do risco que se dispõe a ter.

Quando o assunto é carne, a coisa é ainda mais complexa já que todo o mercado que depende de carne vai sempre depender em parte do Brasil. E embora esse mercado tenha compromissos de dissociar carne de desmatamento, eles não fazem ideia de por onde começar, principalmente no Brasil onde a certificação é infimamente pequena (para carne) e não existem outras alternativas viáveis que ofereçam rastreabilidade completa a transparente sobre a origem da carne, a não ser aquela oferecida pelas indústrias com compromissos públicos de controle sobre seus fornecedores diretos.

O GTPS nasceu como uma mesa redonda, cujo destino era produzir uma certificação para a carne sem desmatamento atendendo à demanda do mercado. Em um dado momento, decidiu-se mudar os rumos do GT para o conceito de melhoria contínua, uma vez que a grande maioria dos produtores ainda tinha dificuldades em atender a legislação vigente em um ambiente de baixíssima segurança jurídica.

Embora não tenha se tornado uma certificação, o GTPS tornou-se o maior fórum do país a discutir soluções para a pecuária, e criou ferramentas poderosas para o processo de melhoria contínua como o Manual de Práticas para Pecuária Sustentável e o Guia de Indicadores da Pecuária Sustentável.

Na prática, o que escutamos hoje é: Não compro carne do Brasil porque tem desmatamento.

O que o GTPS diz é: Comprem carne do Brasil porque a cadeia pecuária do Brasil está em melhoria contínua. Apoiamos a adequação legal (e por consequência o fim do desmatamento ilegal e o Código Florestal) e apoiamos o desmatamento zero desde que o produtor seja compensado por isso.

De forma análoga, na Estratégia PCI do Estado do Mato Grosso, estamos invertendo a mensagem do “Não compro produtos do Mato Grosso porque carne e soja causam desmatamento.” Para “comprem produtos do Mato Grosso porque temos compromissos para reduzir o desmatamento, implementar o Código Florestal e incluir pequenos produtores, e estamos avançando.”
Em ambos os casos o que interessa é mercado e não há absolutamente nenhuma ameaça a direitos individuais de produtores em nenhum dos dois casos.

Podemos extrapolar o mesmo raciocínio para o Brasil como um todo. Não estamos exportando mais só carne. Estamos exportando carne atrelada ao cumprimento de um Código Florestal e à conservação de ativos ambientais explicitados na NDC brasileira.

Este é o momento em que nossa agenda ambiental deve transportar-se para uma agenda de comércio, investimentos e negociações internacionais, e nossos produtores devem ser os principais protagonistas dessa história, uma vez que é sobre eles que recai grande parte da responsabilidade do Código Florestal.

Mais do que nunca, os pecuaristas de verdade devem assumir seu protagonismo, diferenciar-se do joio que contamina o setor, buscar o mercado pelo bem do próprio negócio demonstrando o que têm nas mãos.

O Brasil deve vender para o mundo uma agropecuária tropical capaz de produzir como ninguém no mundo associada a um ativo como o Código Florestal que ninguém tem no mundo. É a hora de dizer ao mundo em alto e bom tom o que temos e do que somos capazes. Mas não é só falar, é mostrar, provar, com transparência e com rastreabilidade. E na pecuária, o GTPS pode ser o canal para isso.

O setor da pecuária e do agronegócio, em geral, têm pela frente uma grande luta interna a ser vencida, contra um sistema de regras falhas e obtusas que dificultam a geração de riquezas e favorecem a corrupção e o capitalismo “de compadrio”, e contra a falta de infraestrutura, insegurança jurídica, custos elevados e outros problemas.

E tem também uma grande luta externa a ser vencida, para apoderar-se do crescimento da demanda mundial por alimentos, que demanda inovação, sustentabilidade, competitividade e um enorme esforço de negociação e marketing.

Mais do que um artigo, este é um manifesto para que uma nova Pecuária possa surgir no país, com lideranças capazes de entender seus desafios futuros e que mostre ao mundo um setor capaz de assumir seus compromissos e de demonstrar sua evolução, contribuindo com o bem comum e aproveitando uma imensa oportunidade de mercado.

Para WWF, Pantanal está preservado graças à pecuária

Fernando Sampaio, Diretor-executivo da Estratégia do Comitê Estadual da Estratégia PCI (Produzir, Conservar e Incluir) do Governo de Mato Grosso e ex-presidente do Grupo de Trabalho da Pecuária Sustentável
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