Após bloqueio da BR-317, representante do FrigoRaça afirma que o caso “já está com o jurídico”; produtores continuam sem proposta pública ou calendário de pagamento
A crise envolvendo o FrigoRaça em Boca do Acre, no sul do Amazonas, entrou em uma nova etapa. Depois de pecuaristas bloquearem a BR-317 para cobrar o pagamento dos animais entregues ao frigorífico, um representante da empresa afirmou, durante uma conversa mediada por um policial militar, que o assunto “já está com o jurídico”.
A resposta, registrada em vídeo divulgado pelos próprios produtores, não trouxe um acordo, uma previsão de pagamento ou um plano público para atender os credores. Enquanto isso, permanece sem confirmação oficial o tamanho do passivo, que, segundo relatos reunidos no município, pode ultrapassar R$ 30 milhões.
Representante do FrigoRaça diz que caso está com o jurídico
A conversa ocorreu por videochamada durante uma tentativa de mediação entre os pecuaristas e a direção do frigorífico.
No vídeo, diante da cobrança por uma solução, o representante afirma que o assunto “já está com o jurídico”. A declaração indica que o impasse deixou a fase de negociação direta, mas não esclarece se a empresa reconhece os valores cobrados nem se pretende apresentar uma proposta de pagamento.
Até o fechamento desta atualização, não havia sido localizado um pronunciamento público da Falcão Indústria de Alimentos, responsável pela operação do FrigoRaça em Boca do Acre, detalhando:
- o valor efetivamente devido;
- o número de pecuaristas atingidos;
- um calendário de pagamentos;
- a situação dos trabalhadores;
- a continuidade dos abates;
- ou uma possível renegociação com os fornecedores.
Pecuaristas afirmam esperar há até 11 dias
A mobilização começou depois que produtores passaram a relatar atrasos no recebimento dos animais vendidos e entregues para abate. Alguns afirmaram estar esperando havia até 11 dias.
Na terça-feira (22), o grupo realizou uma manifestação e bloqueou a BR-317, principal ligação terrestre entre Boca do Acre e o estado do Acre. Caminhões boiadeiros ficaram estacionados nas proximidades da indústria enquanto pecuaristas, transportadores e outros credores cobravam uma resposta.
O protesto levou a crise para além de uma disputa comercial. A interrupção atingiu uma rodovia estratégica para o transporte de gado, mercadorias, combustíveis e passageiros.
Passivo de R$ 30 milhões ainda não foi comprovado
Relatos divulgados em Boca do Acre apontam que as obrigações acumuladas poderiam superar R$ 30 milhões. A estimativa incluiria valores cobrados por pecuaristas, funcionários, transportadores, postos de combustíveis e prestadores de serviços.
Esse montante, entretanto, ainda não foi apresentado em uma relação oficial de credores, auditado ou confirmado por decisão judicial. Por isso, o valor deve continuar sendo tratado como uma estimativa informada pelas pessoas que alegam ter recursos a receber.
Também existem relatos de que mais de 400 trabalhadores poderiam ser afetados por uma paralisação ou redução das atividades. A quantidade exata de empregados e a situação dos salários e contratos ainda dependem de confirmação documental.
Quem responde pela operação em Boca do Acre
A planta industrial onde funciona o FrigoRaça é historicamente conhecida como Frizam e pertence à Agropam — Agricultura e Pecuária Amazonas S/A.
A operação de abate, porém, passou a ser conduzida pela Falcão Indústria de Alimentos Ltda., que utiliza o nome fantasia Frigorífico FrigoRaça. Documentos do Ministério Público Federal registram a existência de um contrato de locação industrial entre a Agropam e a Falcão.
A filial de Boca do Acre está registrada no CNPJ 11.958.002/0005-38. O cadastro permanece ativo e informa capital social de R$ 9,8 milhões. A situação cadastral ativa, contudo, não comprova a capacidade financeira atual da empresa nem confirma os valores reclamados pelos credores.
Caso de Juruena envolve dívida da antiga operadora
A repercussão da crise também trouxe novamente à tona o caso da planta frigorífica de Juruena, em Mato Grosso.
Em abril, a Associação dos Criadores de Mato Grosso informou que mais de 40 pecuaristas cobravam valores superiores a R$ 6 milhões por animais comercializados desde o final de 2025.
Há uma diferença fundamental entre os episódios: o passivo de Juruena foi atribuído à BMG Foods, antiga operadora da unidade. Posteriormente, a planta foi reativada por um novo grupo e passou a aparecer vinculada à estrutura empresarial da Falcão.
A BMG chegou a declarar que pretendia quitar os débitos em parcelas semanais até maio, utilizando receitas de exportações realizadas antes da devolução das plantas. Não foi localizada confirmação pública de que todos os produtores tenham recebido integralmente.
Portanto, embora a situação de Juruena amplie o alerta sobre o risco de crédito na venda de gado, não existem elementos suficientes para atribuir aquela dívida antiga ao FrigoRaça.
Crise continua sem resposta definitiva
O principal fato novo é que a cobrança dos pecuaristas chegou ao setor jurídico, mas continua sem solução pública.
Ainda não se sabe se haverá pagamento negociado, reconhecimento formal do passivo ou judicialização por parte dos produtores. Também permanece sem esclarecimento a continuidade dos abates e o impacto sobre trabalhadores e fornecedores.
O Compre Rural mantém o espaço aberto para manifestação da Falcão Indústria de Alimentos e dos responsáveis pelo FrigoRaça. Qualquer posicionamento oficial ou apresentação de um plano de pagamento será incorporado à reportagem.
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