Produção de genética bovina: menos pirotecnia, mais disciplina

Produção de genética bovina: menos pirotecnia, mais disciplina

Gado Angus
Foto: Divulgação

E seguimos na estrada e no trecho dos que buscam melhores reprodutores. Por estarmos no sul do país, a experiência e vivência que tentamos compartilhar quase sempre traz exemplos na produção de reprodutores taurinos.

Por Fernando Furtado Velloso
Assessoria Agropecuária FFVelloso & Dimas Rocha

No final de junho, a central de inseminação Select Sires do Brasil promoveu a 1ª Gira Integração Corte SC/RS, trazendo um grupo de produtores de Santa Catarina interessados em conhecer a pecuária do RS e especialmente a produção de genética bovina, ou o uso de touros provados (IA) e o seu impacto na produtividade dos rebanhos.

Neste texto tentarei trazer alguns dos aprendizados específicos de uma visita, na Cabanha Seival del Toro, de Luis Henrique Sesti (Cachoeira do Sul), selecionador de Angus (PC) nos últimos 15 anos. Pois bem, nesta propriedade foi apresentado como se formou um muito bom plantel sem muita pirotecnia, mas com clareza de objetivos, processo seletivo bem definido, incorporação gradual e contínua de tecnologia e, principalmente, muita continuidade e disciplina. Somos bastante requeridos para um trabalho que chamamos de “Projeto de Plantel”, ou seja, para dar suporte a criadores que pretendem ingressar e iniciar do zero no mercado de reprodutores. A descrição do histórico recente de um rebanho de seleção pode ser um bom conteúdo para quem pretender ingressar neste segmento. Para os que não pretendem dedicar-se a produção de touros pode servir como um bom alerta que insistimos em repetir: touro registrado não quer dizer sempre touro selecionado.

Estudo de Caso – “Cabanha Seival del Toro”
Este projeto de genética pode ser considerado “jovem”, pois tem aproximadamente 15 anos. Tempo que em bovinos de corte é considerado “pouco”, em função do longo intervalo entre gerações. Vamos então revisar como foi formado este plantel desde o início dos anos 2000.

A) BASE DO PLANTEL

– o plantel foi formado com aquisição de algumas fêmeas puro controladas (PC) e também com a incorporação de fêmeas base “Angus definido” do próprio gado do criador. Neste núcleo inicial do rebanho foram usados touros considerados “fundadores” para trazer consistência genética e caracterização racial ao animais.

Foram usados principalmente o touro preto Líder (OCC Headliner 661H) e o vermelho Oriental (Doble Hache 33 Oriental), respectivamente um touro de genética americana e outro canadense, mas ambos com “biótipo” argentino (pureza racial, profundidade corporal e precocidade) e positivos na avaliação genética da Argentina e Brasil.

Buscou-se com esta decisão um tipo animal bem adaptado e produtivo a condições pastoris de produção e matrizes que pudessem ser acasaladas com touros de mais performance, ou seja, touros “modernos”. Por alguns anos estes touros foram usados massivamente para que a sua genética fosse bem influente na composição genética das matrizes de diferentes gerações.

B) PROCESSO DE SELEÇÃO

– o processo de seleção é bastante simples, sendo retidas no rebanho as matrizes prenhes e identificados através da avaliação genética os melhores machos para serem ofertados no mercado;
– cada geração é avaliada ao DESMAME e posteriormente ao ANO/SOBREANO. Em cada fase são descartados aproximadamente 50% dos machos (animais negativos na avaliação genética, correspondentes aos DECAS 6 a 10).

Com esta pressão de seleção restam aproximadamente 25% dos machos nascidos. Atualmente, esta rotina de seleção faz com que fiquem como touros somente 20 animais, de um total de aprox. 150 matrizes registradas. Como o critério para seleção de touros é muito objetivo, o grupo final de machos é muito bom e composto por praticamente só por touros DECA 1 e 2.

Complementarmente as DEPs para crescimento deu-se grande atenção para touros com bom desenvolvimento testicular e assim também firmou-se a seleção de reprodutores com muito bom perímetro escrotal.

C) UTILIZAÇÃO DE TOUROS MODERNOS OU “DE PERFORMANCE”

– com o rebanho passando por sucessivos descartes e seleções as características buscadas nas matrizes foram sendo fixadas (porte, conformação, caracterização racial, precocidade sexual, “aptidão pastoril”, facilidade de parto, etc) e tornou-se viável o uso de touros mais “extremos” em algumas características (crescimento, musculosidade, porte, etc). Para exemplificar esta situação foram usados nestas matrizes base Líder/Oriental os reprodutores americanos GAR GRID MAKER em fêmeas pretas e LCC FIELD DAY em vermelhas. Ambos são líderes de Sumários e estiveram ranqueados como #1 para Índice Desmame ou Índice Final.

Este “perfil” de reprodutores se usados em rebanhos despadronizados ou com pouca consistência genética podem nos trazer animais muito extremos (tardios), com produções muito heterogêneas e normalmente com pouca adaptação a sistemas pastoris. Se aplicados critérios de seleção vinculados a eficiência reprodutiva logo estes animais são excluídos ou permanecem com pequena representatividade na genética do plantel, pois são representados por poucos exemplares. No caso da Seival del Toro estes touros “modernos” trouxeram grande contribuição, pois agregaram muito desempenho aos animais (comprovados pelas DEPs dos animas), porém sem uma mudança total no biótipo buscado. Aqui fica uma reflexão sobre o encanto dos famosos touros TOP 1%, 0,1%, etc, pois são ferramentas genéticas disponíveis, mas para aplicação bem pensada.

D) INCORPORAÇÃO DE TECNOLOGIAS

Os novos selecionadores normalmente são muito receptivos em adotar novas tecnologias, pois estão entusiasmados com o projeto em genética, por buscarem formas de diferenciação de seu produto e também por um pouco de confusão ou falta de foco.

Recentemente o rebanho do estudo de caso incorporou a avaliação de carcaças (ultrassonografia) em sua rotina de seleção. A tecnologia que permite medir objetivamente a musculosidade (Área de Olho de Lombo), a precocidade de terminação (EGS e P8) e o marmoreio (GIM) veio para trazer mais informações técnicas sobre os reprodutores e para que os critérios de seleção fossem mais refinados. A safra que será comercializada em 2016 já contará com DEPs para características de carcaças e foi com satisfação que o selecionador e seus assessores perceberam que as decisões de seleção estavam acertadas nos últimos anos, pois os dados de carcaça dos touros retidos são bastante positivos e os melhores animais para crescimento (DEP Desmame e DEP Final) também são animais DECAs 1, 2 ou 3 para as características medidas na ultrassonografia.

A Transferência de Embriões (TE) tem sido uma técnica usada para ampliar a participação da genética de matrizes superiores ou de fêmeas superiores adquiridas de outros rebanhos. Porém esta biotécnica da reprodução não afetou (ou não “esculhambou”) os pilares do programa de seleção (estação de monta, critérios de seleção, etc), pois a TE é usada para um número pequeno de animais, sem provocar maiores alterações no manejo do rebanho e no sistema de produção e seleção da propriedade.

Disciplina e continuidade não é para todo mundo

Como o título adiantou, o caso apresentado aqui não traz muita pirotecnia, técnicas revolucionárias ou critérios de seleção pouco usuais. Sequer falamos de um “guru importado”. Na verdade, o “case” não traz muita ou nenhuma novidade. O que o plantel Seival del Toro fez nos últimos anos foi aplicar o “beabá” da zootecnia com disciplina e continuidade: fixação das características buscadas nas matrizes, uso de poucos pais provados, avaliação do desempenho dos animais, comparação do desempenho entre eles e dentro da raça (avaliação genética), descarte dos negativo e venda dos positivos. O processo é simples, mas feito por muitos poucos. Disciplina e continuidade não é para todo mundo. Só para os bons produtores de touros!

*Publicado na Revista AG, Coluna do Pasto ao Prato (Julho/2016)