Propriedades anti-inflamatórias da gordura do leite

Propriedades anti-inflamatórias da gordura do leite

Leite e queijo
Foto: Divulgação
Muitos ainda acreditam que a gordura presente no leite e derivados possa ter efeitos adversos sobre a saúde, em função de sua quantidade de energia, colesterol e gordura saturada.

Entretanto, evidências recentes apontam que esta gordura é responsável por vários efeitos benéficos à saúde.

A ocorrência de várias doenças, como aterosclerose, doença cardiovascular (DCV), câncer, diabetes tipo 2, obesidade e até mesmo a doença de Alzheimer, está relacionada a processos inflamatórios crônicos. A inflamação é um processo fisiológico essencial ao bom funcionamento do organismo, mas quando em excesso pode levar a lesões teciduais e efeitos prejudiciais.

Dieta e estilo de vida inadequados são as principais causas subjacentes a um processo inflamatório crônico. Alimentos processados e bebidas energéticas, muito comuns na nossa sociedade, podem elevar a glicose e os triglicérides no sangue. Estes picos de triglicerídeos e glicose podem gerar um excesso de radicais livres e iniciar reações pró-inflamatórias. Outro fator de risco, principalmente para aterosclerose, são os altos níveis de ácidos graxos no sangue, principalmente colesterol VLDL. No entanto, algumas gorduras podem ter o efeito contrário, protegendo o organismo destas doenças. Isso parece ser o caso da gordura do leite. Cada vez mais evidências indicam que o consumo de produtos lácteos possui efeito moderador, reduzindo os processos inflamatórios sistêmicos.

O consumo de produtos lácteos tem sido associado a efeitos protetores moderados contra doença cardíaca, acidente vascular cerebral, DCV, síndrome metabólica, diabetes tipo 2 e câncer. Este efeito protetor e outros benefícios têm sido atribuídos aos ácidos graxos saturados de cadeia curta e média, ácidos graxos trans, ácidos graxos polares e proteínas do leite.

PROPRIEDADES ANTI-INFLAMATÓRIAS DA GORDURA DOS PRODUTOS LÁCTEOS

Pesquisas sobre o leite de vaca e iogurte mostraram que ambos contêm lipídios capazes de inibir a agregação plaquetária, induzida pela inflamação, que predispõe à doença, principalmente arteriosclerose. Este efeito é aparentemente realçado quando o leite passa por processos de fermentação, como no caso do iogurte e queijo. Isso é atribuído, dentre outros constituintes, à esfingomielina, um ácido graxo presente no leite, que também foi responsável pela redução da quantidade de lesões pré-neoplásicas no intestino de camundongos. Este e outros efeitos da esfingomielina, descritos em diferentes estudos, sugerem que ela pode desempenhar um papel na prevenção do câncer de cólon, mama e de ovário.

Um estudo, comparando a adição de lipídios polares provenientes do leite ou da soja (lecitina) na dieta de ratos, descobriu que os animais que consumiram a gordura do leite não tiveram aumento do tecido adiposo e marcadores de inflamação, enquanto que os alimentados com produtos da soja, sim, indicando que os lipídios do leite exibem atividade anti-inflamatória protetora. Os pesquisadores sugerem que os lipídios do leite podem ter induzido a formação de uma barreira intestinal mais forte, devido a um aumento nas células produtoras de muco. Uma barreira intestinal mais fina pode facilitar a passagem de toxinas produzidas por bactérias para o sistema circulatório, levando ao quadro de inflamação.

Existem algumas evidências de que o ácido linoleico conjugado (CLA), um tipo de ácido graxo presente no leite, possui um potencial de modelar a resposta inflamatória. Em modelos animais, o CLA apresentou propriedades que impedem o acúmulo de gordura nas artérias, a ocorrência de câncer, além de possuir efeito anti-inflamatório, reduzir o tecido adiposo e proteger contra as fases finais do lúpus eritematoso sistêmico.

Fonte:
Lordan e I. Zabetakis Departamento de Ciências Biológicas, Universidade de Limerick, Limerick, Irlanda.
Artigo publicado na J. Dairy Sci., v.100, p. 4197-4212, 2017.