Mais crédito, abertura de centenas de mercados e recordes de produção e exportação marcam o período, enquanto juros elevados, eventos climáticos, importações e conflitos em torno das políticas ambientais e fundiárias seguem entre os principais desafios.
Na reta final do mandato iniciado em janeiro de 2023, o agronegócio brasileiro chega ao fim dos quase quatro anos de governo Lula com números expressivos em produção, crédito rural e comércio exterior, mas também com uma série de desafios que marcaram a relação entre o setor produtivo e o governo federal.
O período foi marcado pela retomada de políticas agrícolas e da agricultura familiar, aumento do volume de recursos dos Planos Safra, ampliação da política de abertura de mercados internacionais, criação e fortalecimento de linhas de financiamento vinculadas à sustentabilidade e medidas de apoio a produtores atingidos por eventos climáticos extremos.
Ao mesmo tempo, produtores enfrentaram um cenário de juros elevados, custos de produção, dificuldades relacionadas ao seguro rural, problemas climáticos e mudanças no ambiente regulatório. Em determinados momentos, medidas do governo também provocaram forte reação de entidades representativas do setor, como ocorreu em 2024 durante a tentativa de importação de arroz após as enchentes no Rio Grande do Sul.
O resultado, portanto, não pode ser resumido simplesmente em uma avaliação positiva ou negativa. Parte dos avanços registrados no período decorre diretamente de políticas públicas, enquanto outros indicadores, como produção e preços das commodities, também dependem do clima, da produtividade, do câmbio e do comportamento dos mercados internacionais.
Crédito rural cresce e Planos Safra atingem níveis recordes

Um dos principais indicadores da política agrícola durante o governo Lula foi o crescimento do volume de recursos anunciado nos Planos Safra.
Na safra 2023/2024, primeiro ciclo completo do atual governo, o Plano Safra destinado à agricultura empresarial disponibilizou R$ 364,22 bilhões para custeio, comercialização, industrialização e investimentos. O valor representava crescimento de 26,8% em relação à safra anterior.
No ciclo seguinte, o montante subiu para R$ 400,59 bilhões. Já em 2025/2026, o governo anunciou R$ 516,2 bilhões, considerado o maior volume até então. Para a safra 2026/2027, a cifra avançou novamente, chegando a R$ 525,1 bilhões em crédito rural para a agricultura empresarial.
Comparando os R$ 364,22 bilhões do primeiro Plano Safra do governo com os R$ 525,1 bilhões do ciclo atual, o volume nominal de crédito programado aumentou cerca de 44%.
O crescimento também apareceu na execução. Entre julho de 2025 e março de 2026, o crédito rural empresarial contratado alcançou R$ 404 bilhões, 10% acima dos R$ 368 bilhões registrados no mesmo período da safra anterior.
Para a agricultura familiar, a ampliação também foi significativa. O Pronaf passou de R$ 71,6 bilhões na safra 2023/2024 para R$ 76 bilhões em 2024/2025 e alcançou R$ 89 bilhões no ciclo 2025/2026. Para 2026/2027, foram previstos R$ 85,2 bilhões para operações do programa.
A política de crédito, porém, também se tornou um dos pontos de preocupação do setor. O crescimento do volume disponível não eliminou o problema do custo do dinheiro. Em 2025, a CNA alertava para o risco de encarecimento do crédito rural diante da alta da Selic, da inflação e das incertezas fiscais. A entidade também colocou o aumento do orçamento para seguro rural entre suas principais reivindicações para o Plano Safra.
Assim, embora o governo tenha ampliado o volume nominal de recursos, o acesso efetivo ao financiamento continuou condicionado às condições econômicas e às taxas cobradas em cada linha.
Exportações ganham novos mercados

Se existe uma área em que o período apresenta um dos resultados mais claros, é a política de comércio exterior do agronegócio.
Em 2023, primeiro ano do governo Lula, as exportações do agronegócio chegaram a US$ 166,55 bilhões, então um recorde histórico. Em 2024, o setor exportou US$ 164,4 bilhões, segundo maior resultado da série até aquele momento. Já em 2025, as vendas externas voltaram a bater recorde, alcançando US$ 169,2 bilhões, enquanto o superávit comercial do agro chegou a US$ 149,07 bilhões.
O desempenho continuou forte em 2026. Entre janeiro e agosto, o agronegócio brasileiro exportou US$ 118,51 bilhões, alta de 6,1% sobre o mesmo período de 2025. O setor respondeu por 47,2% das exportações totais do país e gerou superávit de US$ 105,12 bilhões.
Além do valor exportado, a estratégia do governo buscou reduzir a dependência de poucos mercados. O Ministério da Agricultura contabilizava mais de 600 novos mercados abertos desde 2023, chegando a 642 no anúncio do Plano Safra 2026/2027. A meta estabelecida pelo governo é chegar a 700 até o fim da gestão.
As novas habilitações abrangeram uma grande variedade de produtos, incluindo carnes, algodão, frutas, café, genética animal, pescados, produtos processados e outros itens da pauta agropecuária. Até o fim de 2025, o governo contabilizava 525 novos mercados e estimava que as aberturas realizadas desde 2023 já haviam gerado aproximadamente US$ 4 bilhões em receitas cambiais adicionais, sem considerar o efeito das ampliações de mercados já existentes.
O movimento teve reflexo especialmente nas proteínas animais. No primeiro trimestre de 2026, por exemplo, as exportações brasileiras de carne bovina in natura atingiram recorde de US$ 3,98 bilhões, enquanto as vendas de carne suína in natura chegaram a US$ 846 milhões.
A abertura de mercados, entretanto, não significa que todas as novas oportunidades se transformem imediatamente em grandes volumes de exportação. O resultado depende da capacidade das empresas, da demanda de cada país, de preços, logística, câmbio e das exigências sanitárias e comerciais.
Ainda assim, a diversificação tornou-se uma das marcas do período e ganhou importância em um cenário internacional mais instável, principalmente diante das tensões comerciais entre grandes potências.
Produção agrícola bate recordes, mas resultado não é apenas do governo

Outro destaque dos quase quatro anos foi o crescimento da produção brasileira de grãos.
A safra 2024/2025 alcançou 350,2 milhões de toneladas, novo recorde da série histórica da Conab e 16,3% acima do ciclo anterior. O aumento foi impulsionado principalmente por soja, milho, arroz e algodão.
Na safra 2025/2026, a estimativa mais recente da Conab aponta para 361,7 milhões de toneladas de grãos, crescimento de 2,6% sobre a temporada anterior. Para 2026/2027, a projeção atual chega a 366,6 milhões de toneladas.
O desempenho mostra a força produtiva do campo brasileiro, mas seria incorreto atribuir integralmente esses recordes às políticas do governo. Produção agrícola é resultado de uma combinação de fatores, entre eles tecnologia, investimentos privados, genética, produtividade, área cultivada, condições climáticas e preços internacionais.
No próprio ciclo 2024/2025, a expansão da produção ocorreu em um contexto de boas condições para diversas culturas, enquanto a produtividade variou conforme cada região. Dessa forma, os números refletem tanto a capacidade histórica do produtor brasileiro quanto as condições encontradas durante cada safra.
O mesmo vale para as exportações. A atuação diplomática e a abertura de mercados podem criar oportunidades, mas a capacidade de ocupá-las depende da competitividade das empresas e dos produtores.
Sustentabilidade passa a ter peso maior no crédito

Uma das mudanças mais evidentes na política agrícola do período foi o esforço para vincular crédito, produtividade e sustentabilidade.
Já no Plano Safra 2023/2024 foi criado o RenovAgro, programa voltado ao financiamento de sistemas de produção agropecuária sustentáveis, substituindo o antigo Programa ABC+. Entre as possibilidades estão recuperação de pastagens degradadas, recomposição de áreas de preservação permanente e reservas legais, plantio direto, integração lavoura-pecuária-floresta e outras práticas de menor impacto ambiental.
A política foi sendo ampliada ao longo dos anos. Em 2026, por exemplo, o RenovAgro passou a permitir financiamento para aquisição de sêmen, óvulos e embriões voltados ao melhoramento genético de bovinos, bubalinos, ovinos e caprinos.
No Plano Safra 2026/2027, o governo também passou a conceder redução de até 1 ponto percentual na taxa de juros de custeio para produtores que atendam determinados critérios ambientais e adotem práticas sustentáveis.
O Cadastro Ambiental Rural ganhou ainda mais importância nesse modelo. Além de ser instrumento de regularização ambiental, o CAR está associado ao acesso a determinadas condições de crédito e à adesão aos Programas de Regularização Ambiental.
Essa agenda ambiental teve um resultado que o governo considera estratégico: a redução do desmatamento. O Prodes apontou queda da área desmatada na Amazônia de 2022 para os anos seguintes, chegando a 5.731 km² em 2025, redução de 12,07% em relação a 2024. No ciclo de agosto de 2025 a julho de 2026, os alertas do Deter caíram 36%, para 2.874 km², menor índice da série do sistema.
Para o governo, a combinação entre produção e preservação tornou-se uma das principais vitrines internacionais da agropecuária brasileira. Para parte do setor produtivo, entretanto, o desafio permanece em transformar as exigências ambientais em segurança jurídica, crédito e oportunidades comerciais, sem aumentar excessivamente o custo de produção.
Clima e endividamento colocaram o produtor sob pressão

Os quatro anos também foram marcados por eventos climáticos severos, com consequências diretas sobre a produção e as finanças das propriedades.
As enchentes de 2024 no Rio Grande do Sul foram o exemplo mais grave. O governo adotou medidas de renegociação de crédito, subvenções e linhas especiais para produtores afetados. Entre as ações estavam recursos extraordinários para o seguro rural e descontos e renegociações de operações de custeio, investimento e industrialização.
Em 2025, diante das perdas provocadas por secas e outros eventos climáticos, foi criada uma linha de R$ 12 bilhões para renegociação de dívidas rurais, com expectativa de beneficiar aproximadamente 100 mil produtores e prazo de pagamento de até nove anos.
E o problema não terminou no ano seguinte. Em julho de 2026, o governo publicou nova medida provisória autorizando linhas especiais para composição e renegociação de dívidas de agricultores e cooperativas afetados por eventos climáticos extremos e desastres naturais.
O quadro evidencia uma mudança importante no perfil de risco da atividade rural. Eventos climáticos mais frequentes e intensos aumentaram a importância de mecanismos como seguro rural, Proagro, crédito emergencial e renegociação de dívidas.
É justamente nessa área que entidades representativas continuam cobrando avanços. A CNA defendeu, durante a construção do Plano Safra 2025/2026, aumento dos recursos destinados ao seguro rural e melhorias no ambiente de negócios, apontando que o financiamento da produção estava sendo pressionado pelo cenário econômico.
Medidas que provocaram reação no setor

Apesar dos avanços em crédito e comércio exterior, a relação entre governo e agronegócio esteve longe de ser livre de conflitos.
Um dos episódios mais emblemáticos ocorreu em 2024, depois das enchentes no Rio Grande do Sul, quando o governo autorizou a Conab a importar até 1 milhão de toneladas de arroz para recompor estoques públicos e tentar conter a alta dos preços ao consumidor. A Conab chegou a adquirir 263 mil toneladas no primeiro leilão.
A decisão foi duramente questionada pela CNA, que entrou com uma ação no Supremo Tribunal Federal contra a importação. A entidade argumentou que a medida poderia prejudicar produtores brasileiros justamente após uma tragédia climática que atingiu fortemente a principal região produtora do cereal.
O episódio sintetizou uma divergência recorrente: enquanto o governo procurava priorizar o abastecimento e a proteção do consumidor, organizações do setor defendiam maior proteção à renda do produtor e aos preços agrícolas.
Também houve tensão em torno da reforma agrária. O governo retomou o Programa Nacional de Reforma Agrária, criou o Terra da Gente e ampliou ações de aquisição e destinação de terras para assentamentos. Em 2023, quase 50,6 mil famílias foram incorporadas ao Programa Nacional de Reforma Agrária, segundo o Incra. Em 2025, o governo anunciou a entrega de 12.297 lotes para famílias acampadas em 138 assentamentos.
Em 2026, novas medidas voltadas à reforma agrária e ao crédito para famílias assentadas continuaram sendo anunciadas.
Para os movimentos de agricultura familiar e reforma agrária, a retomada dessas políticas representa uma das principais marcas do governo. Para produtores e proprietários rurais que defendem maior segurança sobre a posse e a propriedade, porém, o tema permanece sensível.
O saldo do governo para o agronegócio

Ao chegar aos últimos meses do mandato, o governo Lula deixa um cenário em que o agro está maior em termos de crédito disponível, mercados internacionais e produção, mas também mais exposto a questões que ultrapassam a política agrícola tradicional.
O Plano Safra empresarial passou de R$ 364,22 bilhões para R$ 525,1 bilhões entre 2023/2024 e 2026/2027. O Pronaf chegou a patamares recordes durante o período. As exportações do agronegócio saíram de US$ 166,55 bilhões em 2023 para US$ 169,2 bilhões em 2025, enquanto o primeiro semestre de 2026 registrou US$ 87,09 bilhões e os oito primeiros meses chegaram a US$ 118,51 bilhões.
Mais de 600 mercados internacionais foram abertos para produtos brasileiros desde 2023, a produção de grãos alcançou sucessivos recordes e o governo ampliou instrumentos voltados à recuperação de pastagens, regularização ambiental e agricultura de baixo carbono.
Por outro lado, o produtor continuou enfrentando juros elevados, custos de produção, riscos climáticos, endividamento e dificuldades para ampliar a cobertura do seguro rural. A relação com o governo também foi marcada por episódios de confronto, como a questão do arroz importado e as divergências em torno das políticas fundiárias e ambientais.
O balanço dos quase quatro anos mostra, portanto, um governo que colocou o agronegócio novamente no centro de políticas públicas de crédito, comércio exterior e sustentabilidade, mas que não conseguiu eliminar os principais gargalos estruturais enfrentados pelo produtor brasileiro.
Na reta final do mandato, o desafio que permanece é transformar recordes de exportação e grandes volumes de crédito em maior rentabilidade, segurança financeira e previsibilidade para quem está dentro da porteira. Afinal, os números macroeconômicos do agro podem ser positivos enquanto determinadas cadeias, regiões ou propriedades continuam enfrentando dificuldades. É justamente nessa diferença entre o desempenho do setor como um todo e a realidade de cada produtor que estará uma das principais questões para o próximo governo.
Conteúdo produzido pelo portal CompreRural com assistêcnia de IA.
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ℹ️ Conteúdo publicado por Myllena Seifarth sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira
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