Ex-ministra da Agricultura, senadora pelo Mato Grosso do Sul e uma das principais lideranças do agronegócio no Congresso, Tereza Cristina esteve no centro das articulações para compor a chapa presidencial de Flávio Bolsonaro, mas a neutralidade do PP acabou inviabilizando a aliança
A ex-ministra da Agricultura e atual senadora por Mato Grosso do Sul, Tereza Cristina (PP-MS), voltou ao centro do debate político nacional nesta semana após ter seu nome ventilado como possível candidata a vice-presidente na chapa encabeçada por Flávio Bolsonaro (PL-RJ). A movimentação colocou novamente em evidência uma das figuras mais influentes do agronegócio brasileiro e responsável por comandar o Ministério da Agricultura durante praticamente todo o governo de Jair Bolsonaro.
Inicialmente, as negociações avançaram. Em reunião realizada em Brasília, Tereza Cristina sinalizou que aceitaria integrar a chapa, desde que houvesse autorização da federação formada por PP e União Brasil. Entretanto, a direção nacional do Progressistas decidiu manter a neutralidade na disputa presidencial, posição defendida pelo presidente da legenda, Ciro Nogueira, encerrando, ao menos por enquanto, a possibilidade de composição.
Nos bastidores, aliados apontaram ainda outro fator que teria contribuído para o fracasso da negociação: a demora de Flávio Bolsonaro em procurar pessoalmente a senadora. Embora o presidente do PL, Valdemar Costa Neto, já defendesse havia meses o nome da ex-ministra como a vice ideal, o primeiro contato direto entre ambos ocorreu apenas nos últimos dias, quando a articulação política já encontrava forte resistência dentro do Progressistas.
Mesmo após o anúncio oficial da neutralidade do partido, Flávio Bolsonaro afirmou que ainda pretende buscar um entendimento antes do encerramento do prazo eleitoral.
Mas afinal, quem é Tereza Cristina e por que seu nome é considerado estratégico tanto para o agronegócio quanto para a política nacional?

Quem é Tereza Cristina?
Nascida em Campo Grande (MS), em 6 de julho de 1954, Tereza Cristina Corrêa da Costa Dias é engenheira agrônoma formada pela Universidade Federal de Viçosa (UFV). Antes de ingressar na política nacional, construiu sua carreira ligada diretamente ao agronegócio, atuando tanto na iniciativa privada quanto na administração pública de Mato Grosso do Sul.
Sua trajetória inclui passagens pela Secretaria de Desenvolvimento Agrário, Produção, Indústria, Comércio e Turismo do governo sul-mato-grossense, além da presidência da Agência Estadual de Defesa Sanitária Animal (Iagro). A experiência técnica e administrativa no setor agropecuário abriu caminho para sua chegada ao Congresso Nacional.

Ascensão política e liderança do agro
Eleita deputada federal em 2014 e reeleita em 2018, Tereza Cristina rapidamente ganhou protagonismo entre os parlamentares ligados ao agronegócio.
Em 2018, assumiu a presidência da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), tornando-se uma das principais articuladoras das pautas ruralistas no Congresso Nacional. Sua atuação lhe garantiu reconhecimento entre entidades do setor e consolidou seu nome como uma liderança política capaz de dialogar com diferentes segmentos da cadeia produtiva.
No fim daquele mesmo ano, foi escolhida por Jair Bolsonaro para comandar o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA).
O comando do Ministério da Agricultura
Entre janeiro de 2019 e março de 2022, Tereza Cristina esteve à frente do MAPA em um dos períodos mais desafiadores para o agronegócio brasileiro.
Sua gestão coincidiu com a pandemia de Covid-19, quando o setor agropecuário foi considerado atividade essencial e manteve o abastecimento interno, além de registrar sucessivos recordes nas exportações agrícolas. Durante aqueles anos, o Brasil ampliou mercados internacionais para carnes, grãos e diversos produtos do agro, fortalecendo sua posição como um dos maiores exportadores mundiais de alimentos.
Outro ponto frequentemente destacado por representantes do setor foi a intensa agenda de abertura de mercados internacionais. Durante sua gestão, dezenas de novos mercados foram habilitados para produtos brasileiros, ampliando as oportunidades comerciais para carnes bovina, suína, de aves, frutas, lácteos e outros produtos agropecuários.
Além da diplomacia comercial, Tereza Cristina também ficou conhecida pela interlocução constante com produtores rurais, cooperativas, associações e entidades representativas, buscando aproximar o Ministério das demandas do setor produtivo.
Uma ministra respeitada pelo agronegócio
Mesmo entre diferentes correntes políticas, Tereza Cristina construiu a imagem de uma ministra com perfil técnico e conciliador.
No auge da pandemia, quando diversos setores da economia enfrentavam paralisações, o agronegócio manteve a produção e respondeu por parcela significativa do superávit da balança comercial brasileira. Embora esse desempenho tenha resultado de diversos fatores econômicos e do trabalho do setor privado, sua gestão foi frequentemente associada à manutenção do diálogo institucional e à continuidade das políticas voltadas ao comércio exterior e à defesa agropecuária.
Sua atuação também lhe rendeu forte respaldo da Frente Parlamentar da Agropecuária, das entidades representativas do setor e de diversas lideranças rurais.
Do Ministério ao Senado
Em março de 2022, Tereza Cristina deixou o Ministério da Agricultura para disputar uma vaga ao Senado Federal por Mato Grosso do Sul.
Eleita senadora, passou a liderar a bancada do Progressistas na Casa e permaneceu como uma das principais vozes do agronegócio no Congresso, acompanhando debates sobre Plano Safra, crédito rural, reforma tributária, acordos comerciais, infraestrutura e segurança jurídica para o setor.
Por que seu nome era visto como estratégico para Flávio Bolsonaro?
A eventual escolha de Tereza Cristina para a vice-presidência reunia diferentes fatores políticos.
Além de representar um dos setores mais organizados da economia brasileira, ela possui forte identificação com o agronegócio, segmento historicamente próximo ao eleitorado conservador. Seu perfil também é frequentemente descrito por aliados como mais moderado e de boa interlocução com diferentes partidos, característica considerada importante para ampliar o diálogo da chapa com setores do centro político.

Por outro lado, a federação formada por PP e União Brasil optou pela neutralidade na eleição presidencial, alegando que a decisão refletia a posição majoritária das lideranças estaduais e preservaria a autonomia política da legenda em diferentes regiões do país. Essa definição acabou inviabilizando, ao menos neste momento, sua participação como candidata a vice.
A possibilidade de Tereza Cristina integrar uma chapa presidencial ganhou destaque justamente por reunir atributos considerados relevantes por seus defensores: experiência administrativa, forte ligação com o agronegócio, trânsito no Congresso Nacional e reconhecimento junto ao setor produtivo.
Ao mesmo tempo, o desfecho das negociações evidencia que, nas eleições presidenciais, fatores partidários e alianças políticas podem ser tão determinantes quanto o peso individual de um nome. Com a decisão do PP de permanecer neutro, a ex-ministra ficou fora da composição, levando a campanha de Flávio Bolsonaro a buscar outras alternativas para a vaga de vice.
Ainda assim, sua trajetória política, sua passagem pelo Ministério da Agricultura e sua influência sobre a pauta do agronegócio mantêm Tereza Cristina entre as lideranças mais relevantes do setor no cenário político brasileiro.
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