EUA lançam pacote de incentivos para reconstrução do rebanho bovino

Governo Trump cria proteção financeira para retenção de novilhas, amplia apoio a frigoríficos independentes e prioriza carne americana em compras públicas, enquanto tenta conter a alta dos preços e a reação de pecuaristas às importações

Os Estados Unidos lançaram um novo pacote de incentivos para reconstruir rebanho bovino em um momento de forte pressão sobre a cadeia da carne. Batizada de Ranchers First Initiative, a estratégia anunciada pelo Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) em 31 de agosto combina proteção financeira para produtores que mantiverem novilhas como futuras matrizes, apoio a frigoríficos independentes, compras governamentais de carne americana e estímulos à entrada de novos pecuaristas na atividade. O anúncio ocorre com o plantel do país próximo do menor nível em 75 anos e em meio à tentativa do presidente Donald Trump de reduzir os preços pagos pelos consumidores.

Mais do que um pacote isolado, a iniciativa revela o dilema enfrentado pela Casa Branca. Trump tenta aumentar a oferta de carne no curto prazo por meio de importações e, ao mesmo tempo, precisa convencer os pecuaristas americanos a segurar justamente os animais que poderiam ser abatidos agora.

Isso acontece porque recuperar um rebanho bovino não produz resultados imediatos. Para aumentar o número de animais, é necessário reter mais fêmeas, colocá-las em reprodução, aguardar a gestação e o nascimento dos bezerros e, posteriormente, o desenvolvimento desses animais. A decisão de preservar uma novilha como matriz pode, portanto, significar menos carne disponível no presente para produzir mais gado no futuro.

Trump entra no centro da estratégia para reconstruir rebanho bovino

O Ranchers First foi anunciado poucos dias depois de Trump elevar o tom contra a concentração da indústria de processamento de carnes nos Estados Unidos.

Na sexta-feira, 28 de agosto, o presidente afirmou que preparava medidas para ampliar a possibilidade de agricultores e pecuaristas processarem seus próprios alimentos. Trump direcionou as críticas às grandes empresas do setor e classificou a estrutura concentrada do processamento como um “monopólio perverso”.

Em publicação nas redes sociais, Trump também acusou os grandes processadores de prejudicarem os produtores rurais. “Eles tornam a vida miserável para nossos maravilhosos agricultores e pecuaristas, e eu não posso deixar isso acontecer, posso?”, afirmou o presidente, ao defender mudanças nas regras do setor.

A discussão ganha peso porque quatro companhias — Cargill, Tyson Foods, JBS USA e National Beef Packing — respondem por aproximadamente 85% do processamento de carne bovina nos Estados Unidos, segundo dados citados pela Reuters.

A secretária de Agricultura, Brooke Rollins, antecipou naquele momento que o governo preparava medidas específicas para a cadeia bovina, incluindo maior espaço para frigoríficos menores, mudanças regulatórias e iniciativas relacionadas às vendas interestaduais.

A questão, porém, vai além da concentração industrial. Trump também enfrenta pressão direta dos consumidores devido aos preços elevados da carne.

Importações colocaram Trump em choque com pecuaristas

Antes de anunciar novas medidas voltadas à produção doméstica, Trump decidiu recorrer à carne estrangeira para tentar ampliar rapidamente a oferta. Em 26 de agosto, a Casa Branca oficializou um aumento temporário de 300 mil toneladas métricas na cota de importação de aparas magras de carne bovina sujeitas à tarifa dentro da cota. O volume adicional será dividido em três lotes de 100 mil toneladas entre setembro e novembro.

A determinação também prevê que autoridades americanas acompanhem se a carne que entrar pelo mecanismo estará sendo comercializada por valores 25% inferiores ao preço de mercado das aparas magras. Caso essa diferença não seja observada, o governo poderá rever o restante da cota adicional.

A estratégia provocou resistência entre pecuaristas e até dentro do próprio Partido Republicano.

Mais de uma dezena de senadores republicanos criticou publicamente a ampliação das importações. Parlamentares de estados fortemente ligados à pecuária argumentaram que colocar carne estrangeira mais barata no mercado poderia prejudicar produtores justamente durante o esforço para recuperar o rebanho doméstico.

Entidades do setor também reagiram. A National Cattlemen’s Beef Association alertou que priorizar uma solução imediata por meio de importações poderia comprometer a estabilidade de longo prazo necessária para recuperar a produção americana.

O episódio expôs uma contradição que o Ranchers First agora tenta administrar: aumentar rapidamente a oferta para reduzir preços sem retirar do pecuarista americano o incentivo econômico para continuar investindo na atividade.

Retenção de novilhas vira chave para reconstruir rebanho bovino

O principal instrumento criado pelo USDA atua diretamente nessa decisão. O governo pretende adicionar ao Livestock Risk Protection (LRP) uma nova cobertura chamada Beef Retention and National Development (BRAND).

O mecanismo permitirá proteger economicamente o produtor que escolher manter uma novilha para reprodução durante um período de dois anos, em vez de destiná-la ao abate. No momento da contratação será definido um valor protegido com base na expectativa de preço que aquela fêmea teria se fosse vendida para abate.

Se, durante o período coberto, o valor projetado ou realizado do animal para abate superar a vantagem econômica de mantê-lo como matriz, a proteção poderá cobrir a diferença.

Na prática, o governo tenta reduzir o custo de oportunidade enfrentado pelo pecuarista.

Com gado valorizado, vender uma novilha pode gerar receita imediata. Mantê-la no campo exige abrir mão desse dinheiro esperando que, futuramente, a fêmea produza bezerros e contribua para aumentar o plantel.

Quanto mais atrativo estiver o mercado de animais para abate, mais difícil pode ser convencer o produtor a reter fêmeas. É justamente esse risco que o BRAND pretende diminuir.

Rebanho americano está em nível historicamente baixo

A urgência está relacionada ao tamanho atual do plantel. Em 1º de janeiro de 2026, os Estados Unidos contabilizavam 86,2 milhões de bovinos e bezerros, segundo o National Agricultural Statistics Service (NASS), braço estatístico do USDA.

Desse total, 27,6 milhões eram vacas de corte, número 1% inferior ao registrado um ano antes. O país também estimou uma produção de 32,9 milhões de bezerros em 2025, recuo de 2%, enquanto o número de animais confinados chegou a 13,8 milhões, queda de 3%.

O USDA descreve o rebanho americano como estando no menor nível em aproximadamente 75 anos. Secas, incêndios, custos elevados e anos de redução do plantel ajudaram a formar o cenário atual.

O governo já vinha tentando inverter essa trajetória.

O novo pacote dá continuidade ao Plan to Fortify the American Beef Industry, lançado em outubro de 2025, e a uma série de iniciativas anunciadas desde então para ampliar áreas de pastejo, flexibilizar processos e fortalecer o processamento independente.

Em junho de 2026, por exemplo, o USDA abriu uma nova rodada de US$ 60 milhões para expansão da capacidade americana de processamento de carnes. No mesmo período, anunciou até US$ 500 milhões para frigoríficos independentes e regionais pelo programa Strengthening Processing for U.S. Ranchers, o SPUR.

Frigoríficos independentes entram no esforço para reconstruir rebanho bovino

O Ranchers First amplia essa política ao criar um programa de empréstimos garantidos vinculado ao SPUR. O financiamento poderá ser utilizado para implantação de cooperativas de processamento, expansão de pequenas empresas e aumento da variedade de proteínas processadas pelas unidades regionais.

O USDA também pretende criar o Regional Processor Continuity Effort, voltado à continuidade das operações e à resiliência dos frigoríficos regionais. A avaliação do departamento é que, considerando recentes anúncios de fechamento de plantas, quase 20% da capacidade de processamento de carne bovina poderá estar disponível conforme o rebanho americano volte a crescer.

O governo Trump pretende aproveitar essa capacidade para ampliar a participação de frigoríficos independentes, empresas pequenas e médias e novas cooperativas.

Rollins relacionou diretamente o pacote ao objetivo de reduzir a concentração da indústria.

Segundo a secretária, o governo está destinando recursos para recuperar o rebanho, oferecer ferramentas de gestão de risco aos criadores e diminuir barreiras enfrentadas por produtores e processadores independentes. Ela também voltou a criticar o nível de concentração e a presença estrangeira no mercado americano.

A proposta de Trump de flexibilizar o processamento, entretanto, também gerou alertas.

O Meat Institute, que representa empresas frigoríficas, afirmou que uma eventual expansão da comercialização de carnes sem inspeção poderia criar riscos à segurança dos alimentos. A National Cattlemen’s Beef Association, embora favorável ao fortalecimento dos pequenos processadores, também defendeu a manutenção dos padrões federais de inspeção.

Carne americana ganha prioridade nas compras públicas

Outra frente do Ranchers First utiliza diretamente o poder de compra do governo.

O USDA pretende priorizar carne bovina americana processada localmente nas aquisições realizadas por instituições federais e estaduais, incluindo hospitais, presídios e outras instalações públicas.

A medida amplia a estratégia anunciada anteriormente no programa Harvest to Hallways, criado para aumentar a presença de carne americana e produtos locais nas refeições escolares.

O Departamento de Agricultura pretende trabalhar em conjunto com outras áreas da administração federal, incluindo Saúde e Serviços Humanos, Justiça, Assuntos de Veteranos e o Departamento de Guerra, para aumentar a participação dos alimentos produzidos domesticamente nas compras governamentais.

A estratégia também se conecta ao avanço do selo Product of USA, usado para identificar produtos provenientes de animais nascidos, criados, abatidos e processados dentro dos Estados Unidos.

Com isso, Washington tenta estimular simultaneamente produção, processamento e demanda doméstica.

Governo quer formar uma nova geração de pecuaristas

Reconstruir o setor também passa por ampliar o número de pessoas dispostas a permanecer ou ingressar na atividade. Pecuaristas iniciantes poderão acessar linhas especializadas da Farm Service Agency (FSA) para aquisição de terras, animais e equipamentos.

O pacote prevê ainda apoio gratuito em conservação e manejo de pastagens, proteção por programas de seguro pecuário e conexão dos novos produtores com coordenadores estaduais.

O USDA também criará uma iniciativa específica para agricultores e pecuaristas iniciantes e veteranos das Forças Armadas.

A administração pretende utilizar inclusive programas como o SkillBridge para aproximar militares em transição para a vida civil de oportunidades profissionais na agricultura e na pecuária.

Bicheira acrescenta risco sanitário à recuperação do rebanho

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Foto: Lucas Marques

Como se a oferta apertada não fosse suficiente, a pecuária americana passou a enfrentar em 2026 outro fator de preocupação: a mosca-da-bicheira (Cochliomyia hominivorax), conhecida nos Estados Unidos como New World screwworm.

Em 3 de junho, o USDA confirmou a presença do parasita em um bezerro de três semanas no condado de Zavala, no Texas. Novos casos foram identificados posteriormente, levando as autoridades a ampliar zonas de vigilância e medidas sanitárias.

A bicheira já vinha afetando também a movimentação de animais do México e contribuindo para as restrições sanitárias sobre o comércio de bovinos vivos pela fronteira.

Esse fator tornou ainda mais delicada a situação da oferta americana, porque os Estados Unidos tradicionalmente utilizam animais mexicanos para complementar o abastecimento de sua cadeia pecuária.

No fim de agosto, o USDA começou a liberar algumas das zonas infestadas no Texas após medidas de controle, mas o órgão mantém monitoramento da presença do parasita no país.

Carne bovina também virou problema político para Trump

A ofensiva acontece ainda em um momento politicamente sensível. As eleições legislativas de meio de mandato estão marcadas para 3 de novembro de 2026, e o custo de vida ganhou espaço entre as principais preocupações do eleitorado americano.

Uma pesquisa Reuters/Ipsos divulgada no fim de agosto mostrou que 71% dos entrevistados desaprovavam a forma como Trump lidava com o custo de vida, incluindo 40% dos republicanos ouvidos.

Ao mesmo tempo, a decisão de ampliar as importações de carne provocou um raro movimento de críticas públicas dentro do Partido Republicano. Senadores de importantes estados pecuários contestaram a estratégia e pediram prioridade ao produtor doméstico.

Trump passou, então, a atacar o problema por diferentes frentes.

De um lado, abriu espaço temporário para mais carne importada na tentativa de pressionar os preços.

De outro, endureceu o discurso contra os grandes frigoríficos e defendeu mais autonomia aos produtores.

Agora, com o Ranchers First, coloca incentivos financeiros diretamente na tentativa de aumentar a produção doméstica.

Reconstruir rebanho bovino exigirá anos, não meses

Apesar da dimensão do pacote, os efeitos sobre a disponibilidade de carne não devem aparecer rapidamente. Retenção de novilhas é uma estratégia de médio e longo prazo. A fêmea preservada hoje ainda precisa entrar no ciclo reprodutivo, gerar um bezerro e iniciar uma sequência produtiva que levará tempo até resultar em maior disponibilidade de animais para o mercado.

Existe, inclusive, um efeito contrário no início desse processo: quanto maior o número de fêmeas retidas nas fazendas, menor pode ser o volume disponível para abate no curto prazo.

É justamente por isso que a política americana para a carne passou a operar em duas velocidades. As importações buscam aliviar a escassez imediatamente. Os incentivos aos pecuaristas tentam evitar que essa dependência se transforme em uma solução permanente.

No centro dessa estratégia está uma decisão que será tomada propriedade por propriedade: vender a novilha diante dos preços elevados de hoje ou mantê-la como matriz para ajudar a formar o rebanho americano de amanhã. O Ranchers First tenta tornar a segunda opção economicamente mais atraente.

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ℹ️ Conteúdo publicado pela estagiária Ana Gusmão sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira

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