Rastreabilidade do gado entra em nova fase no Brasil: veja como deve funcionar

Sistema Integrado de Rastreabilidade pretende conectar informações públicas e privadas, acompanhar produtos e cargas ao longo das cadeias agropecuárias e ampliar transparência, segurança e acesso a mercados

O Brasil avança na construção de uma infraestrutura nacional capaz de integrar dados de rastreabilidade do agro, acompanhando produtos, mercadorias e movimentações ao longo das cadeias produtivas. No centro dessa estratégia está o Sistema Integrado de Rastreabilidade (SIR), plataforma prevista dentro do Programa Nacional de Rastreabilidade Voluntária (PNRV).

Instituído pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA) no fim de 2025, o programa busca criar uma estrutura capaz de reunir informações atualmente distribuídas entre diferentes agentes e sistemas.

A proposta não significa que todos os produtores serão imediatamente obrigados a rastrear sua produção. Como o próprio nome indica, o PNRV foi estruturado sob adesão voluntária, embora determinadas cadeias continuem sujeitas a exigências específicas previstas em normas sanitárias, comerciais ou impostas por mercados compradores.

Para o produtor rural, o avanço do sistema pode representar uma mudança importante na forma como origem, movimentação, certificações e informações de sustentabilidade são apresentadas ao mercado.

O que é o Sistema Integrado de Rastreabilidade

O SIR foi concebido como uma plataforma tecnológica para coletar, armazenar, processar e disponibilizar informações relacionadas à rastreabilidade das cadeias produtivas agropecuárias.

O modelo utiliza como referência o padrão Brasil-ID/Rastro-ID, sistema voltado à identificação, rastreamento e autenticação de mercadorias.

Na prática, a intenção é permitir que diferentes eventos ocorridos ao longo da cadeia possam ser registrados e conectados.

Isso inclui desde informações ligadas à origem e movimentação dos produtos até dados relacionados ao transporte e à passagem das cargas pelos diferentes pontos da cadeia logística.

O projeto prevê integração por meio de APIs e outras ferramentas tecnológicas, permitindo comunicação entre sistemas públicos e privados.

Rastreamento pode acompanhar inclusive o transporte das cargas

Um dos pontos mais relevantes do modelo está justamente fora da porteira.

Os documentos publicados pelo MAPA preveem que o SIR consiga acompanhar também a movimentação física das mercadorias agropecuárias.

A proposta envolve integração com plataformas logísticas e tecnologias capazes de monitorar veículos e cargas durante o transporte.

O sistema também prevê a possibilidade de geração de certificados eletrônicos relacionados ao trânsito de mercadorias e embalagens vazias.

Esse tipo de integração pode reduzir um problema antigo do agronegócio brasileiro: informações fragmentadas entre produtor, transportador, indústria, certificadora e órgãos públicos.

Dados públicos e privados deverão conversar

Outro objetivo do programa é centralizar informações hoje distribuídas entre diferentes bases.

A integração de dados públicos e privados pode permitir uma visão mais completa da trajetória de um produto agropecuário.

Ao apresentar o Programa Nacional de Rastreabilidade Voluntária durante a COP30, em 2025, o MAPA destacou justamente o uso de leitura automatizada e integração de diferentes fontes de informação como pilares da iniciativa.

O governo argumenta que esse modelo pode aumentar a segurança, a transparência e a eficiência das cadeias produtivas.

Ao mesmo tempo, o próprio desenho do sistema prevê níveis diferenciados de acesso às informações, com proteção a dados comerciais e estratégicos das empresas.

Rastreabilidade do agro também conversa com sustentabilidade

O SIR está ligado ao Programa Agro Brasil + Sustentável.

Essa plataforma foi criada para integrar e organizar informações ambientais, sociais e de governança relacionadas a produtores, empresas agrícolas e propriedades rurais.

A estratégia permite associar a origem dos produtos a informações utilizadas para demonstrar conformidade ambiental e práticas sustentáveis.

Esse ponto ganha importância principalmente no comércio internacional.

Mercados compradores vêm ampliando suas exigências relacionadas à origem dos alimentos, ao desmatamento, à conformidade ambiental e à capacidade de comprovar de onde determinada mercadoria saiu.

Ter informações conectadas pode facilitar a apresentação dessas evidências pelo produtor e pela indústria.

O programa é voluntário?

Sim.

O Programa Nacional de Rastreabilidade Voluntária foi criado com adesão voluntária.

Isso significa que a criação do SIR, por si só, não estabelece uma obrigação geral para que todo produtor rural brasileiro passe imediatamente a utilizar o sistema.

Existem, porém, situações específicas em que a rastreabilidade pode ser exigida por legislação própria, programas sanitários ou pelo mercado comprador.

Essa diferença é importante principalmente na pecuária bovina.

SIR não substitui automaticamente o SISBOV

Na pecuária, o Brasil já possui o Sistema Brasileiro de Identificação Individual de Bovinos e Búfalos, o SISBOV.

Ele é o sistema oficial utilizado para identificação individual de bovinos e búfalos e para atender mercados que exigem esse nível de rastreabilidade.

A adesão ao SISBOV é voluntária para o produtor de maneira geral, mas pode ser necessária quando o destino comercial exige identificação individual.

Paralelamente, o governo trabalha no Plano Nacional de Identificação Individual de Bovinos e Búfalos, o PNIB.

O plano prevê ampliar gradualmente a identificação individual dos animais brasileiros e construir uma base nacional integrada.

Portanto, SIR, PNRV, SISBOV e PNIB fazem parte de uma agenda comum de aumento da rastreabilidade, mas não são o mesmo sistema.

Identificação individual do gado avança em outra frente

O PNIB foi lançado em dezembro de 2024 e prevê implementação gradual até 2032.

A estratégia busca fazer com que bovinos e búfalos recebam identificação individual capaz de acompanhar os animais durante sua vida produtiva.

O governo iniciou entre 2024 e 2026 a construção da base nacional necessária para essa transição.

Estados também vêm desenvolvendo seus próprios projetos de rastreabilidade individual.

No Rio Grande do Sul, por exemplo, a implementação apresentada em 2026 utiliza um código único de 15 dígitos associado a identificação visual e eletrônica por radiofrequência.

Esse movimento ajuda a mostrar que a rastreabilidade tende a ganhar cada vez mais espaço na pecuária brasileira.

Sistema enfrenta questionamentos dentro do próprio setor

Apesar do potencial, a implantação do PNRV também levanta preocupações.

Em reunião da Câmara Temática de Insumos Agropecuários do MAPA realizada em março de 2026, representantes do setor discutiram possíveis implicações do programa.

Entre os pontos levantados estavam dúvidas sobre a efetiva voluntariedade, eventuais custos adicionais, segurança das informações e possíveis conflitos com programas já existentes.

Como encaminhamento, foi proposta a criação de um grupo de trabalho para aprofundar o debate.

Isso mostra que a implementação ainda passa por ajustes e diálogo entre governo e iniciativa privada.

O que pode mudar para o produtor rural

Para quem está dentro da porteira, o principal efeito potencial é a simplificação da comprovação de origem e conformidade da produção.

Em vez de diferentes documentos e informações permanecerem espalhados em diversos sistemas, uma estrutura integrada pode facilitar a consulta e o compartilhamento de dados.

Entre os possíveis benefícios estão:

  • comprovação mais clara da origem do produto;
  • maior facilidade para atender exigências de compradores;
  • redução da duplicidade de informações;
  • integração com documentos logísticos;
  • comprovação de critérios socioambientais;
  • acesso a mercados que exigem maior transparência;
  • melhoria de controles internos e gestão.

O impacto real, entretanto, dependerá de como a plataforma será operacionalizada, dos custos de adesão e do nível de integração alcançado com os sistemas já existentes.

Exportações aumentam pressão por rastreabilidade

A rastreabilidade deixou de ser apenas uma ferramenta de gestão interna.

Ela vem se tornando um requisito comercial para diferentes mercados.

No caso da carne bovina, por exemplo, alguns países já exigem rastreabilidade individual dos animais exportados.

Em outras cadeias, compradores internacionais querem comprovação de origem, conformidade ambiental e informações capazes de demonstrar que o produto não está associado a irregularidades.

Para um país que ocupa posição de destaque mundial nas exportações de soja, milho, carne, café, algodão e outros produtos agropecuários, construir sistemas capazes de fornecer essas informações pode representar uma vantagem competitiva.

ℹ️ Conteúdo publicado pela estagiária Ana Gusmão sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira

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